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Não é todo dia que um alto oficial de inteligência de uma grande potência se manifesta publicamente, para falar de forma franca sobre a crise estratégica global. Por isso, convém prestar atenção às palavas do tenente-general da reserva Leonid Reshetnikov, ex-diretor do Serviço de Inteligência Exterior da Federação Russa (SVR) e atual diretor do Instituto Russo de Estudos Estratégicos, em umaentrevista ao sítio Argumenti.RU, divulgada em 8 de abril. Prontamente traduzida ao inglês e comentada ou reproduzida em vários blogs e sítios analíticos, a entrevista é das mais relevantes, pois reflete uma síntese do pensamento de um importante setor das lideranças russas, diretamente vinculado ao grupo do presidente Vladimir Putin. Por este motivo, reproduzimos os seus trechos mais significativos, instando os leitores a lê-la na íntegra.

Uma das considerações mais interessantes se refere ao papel exercido pelas organizações não-governamentais (ONGs) na estratégia hegemônica do Establishment anglo-americano – ao qual o entrevistador Alexander Chuikov se refere como “esse proverbial governo mundial”. Para Reshetnikov:

(…) O papel das ONGs é difícil de ser subestimado. Um bom exemplo é o das revoluções coloridas, que são alimentadas por organizações não-governamentais estrangeiras, primariamente, estadunidenses. Foi isso que ocorreu na Ucrânia. Desafortunadamente, pouca atenção foi dada à criação e ao apoio recebido por tais organizações… Elas substituem dez embaixadas e dez embaixadores bastante espertos. Agora, a situação começou a mudar, após as instruções diretas do presidente [Vladimir Putin], que Deus permita que essa linha de ação não seja enfraquecida.

Quanto à Ucrânia, o jornalista pergunta: “E o que quer esse proverbial governo mundial?”. Resposta:

É mais fácil dizer que o que eles não precisam: de uma Ucrânia federalizada. Seria um território fracamente controlado. Seria impossível instalar bases militares, novos sistemas de defesa antiaérea [na verdade, antimísseis – N.E.]. E tais planos existem. De Lugansk ou Kharkhov, os mísseis de cruzeiro táticos podem atingir além dos Urais, onde estão localizadas as nossas principais forças de deterrência nuclear. E, com 100% de probabilidade, eles poderiam atingir os mísseis baseados em silos e os móveis, nas suas trajetórias de decolagem. Hoje, essa área não pode ser atingida por eles, nem da Polônia, nem da Turquia, nem do Sudeste Asiático. Esse é o objetivo principal. Portanto, os EUA lutarão pelo Donbass [Leste da Ucrânia] até o último ucraniano.

Para ele, o controle dos recursos naturais ucranianos, tanto as terras agricultáveis como os depósitos de gás de folhelhos, constituem apenas “um benefício paralelo. Mais um sério golpe nas nossas defesas, com o desmantelamento dos vínculos entre as indústrias de defesa da Ucrânia e da Rússia. Isto já foi feito”.

As perspectivas da Ucrânia, para Reshetnikov, não são das mais positivas. Ao longo do ano, ele crê que haverá

um processo de degradação ou, até mesmo, um colapso total. Muitos estão apenas se escondendo diante do nazismo real [no governo de Kiev – n.e.]. Mas as pessoas que entendem que a Ucrânia e a Rússia estão conectadas na base, ainda não se manifestaram. Nem em Odessa, nem em Kharkhov, nem em Zaporozhye, nem em Chernigov [cidades do Leste não envolvidas diretamente nos recentes conflitos]. Este silêncio não durará para sempre. E a tampa da chaleira irá saltar, inevitavelmente.

Reshetnikov não considera que o “isolamento mundial” da Rússia, como o qualificou Chuikov, seja tão relevante, sugerindo que as ações diplomáticas russas na Europa estão produzindo frutos positivos:

(…) Nós subestimamos a percepção do nosso presidente, que sabe que existem alguns processos de bastidores de desenrolando na Europa. Eles nos dão esperança de que, por enquanto, nós possamos defender os nossos interesses com outros métodos e meios.

Um dos maiores perigos para a Rússia, na sua avaliação, é o crescimento explosivo do extremismo religioso na Ásia Central:

Essa é uma tendência extremamente perigosa para o nosso país. Há uma situação muito difícil no Tadjiquistão. A situação é instável no Quirguistão. Mas a primeira explosão poderá ser no Turcomenistão… Então, a situação é dura. E não apenas em conexão com a penetração, na região, de militantes do Estado Islâmico. De acordo com as informações mais recentes, os EUA e a OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] não irão deixar o Afeganistão, e manterão as suas bases por lá… Isso é parte de um plano geral de cerco e pressão sobre a Rússia, empreendido pelos EUA, para derrubar o presidente Vladimir Putin e dividir o país. Uma pessoa comum, certamente, não acredita nisso, mas as pessoas que possuem mais informação estão bastante cientes disso.

Perguntado sobre qual seria a região mais perigosa, em termos estratégicos, ele respondeu:

O Sul está muito perigoso. Mas ainda existem estados tampões – as antiga repúblicas soviéticas da Ásia Central. Enquanto, no Oeste, a guerra já está na fronteira. Praticamente, em nosso território. A batalha, agora, não é entre ucranianos e russos, mas uma guerra de dois sistemas. Alguns acreditam que são “a Europa” e outros, a Rússia. Porque o nosso país não é apenas um território, é uma grande civilização separada, que trouxe o seu próprio paradigma a todo o mundo. Primeiro, é claro, o Império Russo, como um modelo da civilização ortodoxa oriental. Os bolcheviques o destruíram, mas produziram uma nova ideia civilizatória. Agora, estamos às portas de uma terceira. E a veremos em cinco ou seis anos. Eu acho que será uma boa simbiose das ideias anteriores. (…) E os nossos “colegas ferozes” [referência ao Ocidente – n.e.] entendem isso muito bem. Por isso, começaram a nos atacar de todos os lados.

Sobre a luta contra o terrorismo, em particular, do Estado Islâmico, o oficial não mediu palavras:

(…) Os EUA criam terroristas, os alimentam, treinam e lhes dão o comando da gangue inteira: “Vão.” Eles podem eliminar um ou outro “cão raivoso” desse bando, mas o resto será atiçado ainda mais.

Em seguida, Reshetnikov explicitou como ele e seus pares veem a estrutura hegemônica dos EUA, quando Chuikov lhe perguntou se os presidentes estadunidenses seriam “apenas instrumentos”:

Existe uma comunidade de algumas pessoas virtualmente desconhecidas da sociedade, que não só instala os presidentes estadunidenses, mas determina as regras do “grande jogo” para todos. Elas são, em particular, corporações financeiras transnacionais. Mas não apenas elas.

Está ocorrendo uma reformatação do sistema econômico e financeiro mundial. Há uma óbvia tentativade se repensar toda a estrutura do capitalismo, sem abandoná-lo. (…) Essas forças nas sombras estabeleceram a tarefa de eliminar o nosso país como um ator sério no cenário mundial. Afinal de contas, a Rússia carrega uma alternativa civilizatória para todo o Ocidente unido.

Ademais, o mundo está experimentando um crescimento explosivo do sentimento antiestadunidense. A Hungria, onde forças conservadoras de extrema-direita estão no poder, e os esquerdistas na Grécia – forças diametralmente opostas – praticamente, se reuniram e se revoltaram contra os ditames dos EUA no Velho Continente. A revolta está fervendo na Itália, Áustria, França e assim por diante. Se a Rússia se mantiver firme, então, emergirão na Europa processos que são detrimentais para as forças que aspiram à dominação mundial. E elas sabem disso.

No entanto, ele não crê que as lideranças políticas europeias possam escapar ao “abraço amigável” dos EUA:

Nunca. Os EUA os mantêm presos a várias correntes: a máquina de impressão [de dólares] da Reserva Federal, a ameaça das revoluções coloridas e até mesmo a ameaça de eliminação física de políticos indesejáveis.

As afirmativas de Reshetnikov deixam uma forte impressão de que o grupo nacionalista agrupado em torno de Putin, do qual ele próprio é integrante destacado, contempla o confronto com o bloco ocidental encabeçado pelos EUA como um autêntico conflito civilizatório, entre duas concepções de mundo de difícil conciliação. Certamente, essa visão não se refere a uma mera reedificação do conflito ideológico da Guerra Fria com nova roupagem, mas a uma agenda genuína para a construção de uma ordem internacional cooperativa e receptiva aos interesses das diversas nações – ao mesmo tempo, incompatível com qualquer agenda hegemônica.

 

 

1 Comentário

  1. Luiz Felipe Haddad disse:

    Excelente texto. A Rússia é um país muito importante, inclusive em termos de valores que no Ocidente estão sendo cada vez mais desprezados. Não se pode comparar seu sistema de hoje com o da antiga União Soviética. As provocações dos Estados Unidos, ao pretexto de defender a Ucrânia, estão criando um quadro perigoso de ressurgimento da guerra fria. Deus queira que países como Alemanha, França e Reino Unido se oponham a essa política.

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