MSIa: Londres quer "carbonizar" soberanias nacionais Londres quer "carbonizar" soberanias nacionais ================================================================================ Geraldo Luís Lino on 29 May, 2009 11:17:00 Duas das mais claras manifestações da natureza misantrópica e da agenda neocolonialista do movimento ambientalista internacional vieram à luz nas últimas semanas, demonstrando a intenção de condicionar o desenvolvimento socioeconômico e o progresso das nações a critérios "ambientais" definidos por conceitos pseudocientíficos e ideológicos. É difícil dizer qual das duas é mais ultrajante: o estudo "Uma arquitetura institucional para as mudanças climáticas", do Departamento para o Desenvolvimento Internacional (DFID) do governo britânico, que, entre outras medidas para combater o suposto aquecimento global antropogênico, propõe a criação de uma agência internacional com poderes policiais para controlar o consumo de combustíveis fósseis; ou o "Índice Verde" da Sociedade Geográfica Nacional dos EUA, que considera países subdesenvolvidos como a Índia, Brasil e China os campeões mundiais de "consumo sustentável". O estudo do DFID é uma das mais elaboradas propostas já feitas para a implementação de um sistema internacional de limitação e controle coercitivo das emissões de carbono de cada país, que, na prática, estabeleceria um "padrão-carbono" (denominado "produtividade de carbono") para determinar o desenvolvimento socioeconômico e o progresso da humanidade e, não menos, funcionar como uma das pedras angulares das relações internacionais no século XXI. O objetivo é assim explicitado: "Bajular todas as sociedades para colocá-las no rumo de um futuro de baixos índices de carbono, partindo de qualquer ponto em que se encontrem hoje." Os grifos são do original e o verbo inglês empregado é cajole, que o Webter's New Collegiate Dictionary define como "persuadir com lisonjas deliberadas, especialmente em face de relutância" ou "enganar com palavras suaves ou falsas promessas" - ambas as quais se aplicam à perfeição. O documento estabelece a "produtividade de carbono" como o índice-chave para a economia mundial nas décadas vindouras, definindo-o como a quantidade de gases de efeito estufa necessária para produzir uma unidade de PIB. Tal índice deverá quadruplicar até 2030, para que se possa lograr uma estabilização das emissões de carbono. Até lá, o estudo projeta um aumento de 20% da população mundial e admite que: "* a desigualdade aumentará inevitavelmente, dado que quase todo o crescimento populacional ocorrerá em países em desenvolvimento, com os países menos desenvolvidos experimentando o aumento mais rápido; "* o suprimento de recursos-chave será limitado - com demandas insatisfeitas por terra, água, alimentos e o direito de emitir gases de efeito estufa." Observe-se que o "direito de emitir gases de efeito estufa" já é considerado um recurso natural em pé de igualdade como os demais. De fato, um dos cenários mais delirantes do estudo determina que "as permissões de [emissões de] carbono se tornam o sangue do sistema financeiro mundial: a nova moeda de reserva do mundo". O cerne do esquema proposto é o estabelecimento de uma meta de emissões globais a ser atingida em um certo prazo e de adesão obrigatória para todas as nações, sob pena de severas punições para as não-aderentes. A partir desse número seriam estabelecidas cotas de emissões para cada país, baseadas em critérios a serem negociados, que variam desde as "responsabilidades históricas" (as emissões pretéritas dos países industrializados) ao PIB per capita - devendo, a longo prazo, convergir para emissões per capita. Para tanto, será necessário criar mecanismos de aplicação forçada. Segundo o texto: Qualquer arquitetura institucional necessitará de sistemas para assegurar que os compromissos sejam cumpridos e, em particular, impedir que os países de fora do sistema se beneficiem com os esforços dos outros. Isto implica em um significativo compartilhamento de soberania, maiores poderes coercitivos em âmbito internacional e investimentos significativos em vigilância e pesquisa. (...) Alguns argumentos citados são ostensivamente fascistas: Parece inevitável que, em última análise, um acordo climático de longo prazo irá requerer uma abordagem "tudo ou nada" no que tange à participação internacional. Ou os países tomam parte ativa no sistema (e, assim, têm acesso aos arranjos internacionais sobre finanças, comércio, desenvolvimento, energia e outros recursos e, talvez, até mesmo segurança), ou ficam de fora do sistema internacional e são efetivamente barrados de todas as formas de cooperação internacional. Em outras palavras, as inadimplências de carbono [carbon defaults] se tornariam um assunto de peso tão grande como as inadimplências [financeiras] soberanas ou o não-cumprimento de uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas... Não obstante, mesmo os participantes voluntários no arcabouço climático são passíveis de enfrentar um regime coercitivo de inspeções, inclusive inspeções não anunciadas, e responsabilidades legais, tanto para as suas permissões de emissões como para quaisquer permissões que comprem por intermédio dos mercados (a assim chamada "responsabilidade dos compradores"). Na prática, o resultado não diferiria muito do processo de inspeções intrusivas da Agência Internacional de Energia Atômica em países suspeitos de desenvolver programas ilegais de armas nucleares. Para implementar semelhante regime "ecofascista", o estudo propõe duas medidas: * proteger e, se possível, ampliar a independência e a autoridade do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas, inclusive, "respondendo em particular às críticas de cientistas climáticos e a quaisquer desafios à sua independência"; e * criar uma "robusta" entidade de vigilância global do desempenho no controle das emissões, "um Comitê Internacional de Controle Climático" (ICCC, em inglês), que funcionaria "como um banco central independente, com poderes para estabelecer taxas de juros para atingir uma meta ou banda de inflação". Como se percebe, os autores do documento pretendem estender à área energética o mesmo modelo de controle majoritariamente privado do sistema financeiro por meio de bancos centrais "independentes", que está na raiz da presente crise global. Poucas vezes as intenções dos altos círculos oligárquicos hegemônicos foi explicitada tão claramente. Se tal esquema de pesadelo for efetivamente implementado, contra todas as evidências de que o impacto das emissões de carbono de origem humana na dinâmica climática global é irrisório, os supertecnocratas não-eleitos do IPCC e do ICCC assumirão poderes verdadeiramente ditatoriais sobre as políticas de desenvolvimento de todos os países do planeta, as quais ficarão igualmente condicionadas aos apetites dos mercados de "créditos de carbono". Além de uma nova fonte de recursos para a preservação do cassino financeiro global, um perfeito arreglo de "governo mundial" estabelecido sobre as soberanias nacionais. A divulgação do estudo obedece ao propósito de influenciar a 15ª. Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (COP-15),que se realizará em Copenhague, em dezembro próximo, na qual deverá ser estabelecido o arranjo institucional que substituirá o Protocolo de Kyoto após o término do seu mandato, em 2012. O "Índice Verde" Para quem acha que já viu tudo em termos de cinismo e misantropia no que concerne às questões ambientais, o "Índice Verde" (Greendex) de comportamento ambiental dos consumidores de 17 países proporciona uma manifestação extra da aparentemente infinita capacidade criativa dos adeptos dessa ideologia anticivilizatória. Criado pela Sociedade Geográfica Nacional e pela empresa internacional de pesquisas de opinião GlobeScan, o Greendex é definido como "um índice cientificamente estabelecido (sic) de consumo sustentável para o comportamento real dos consumidores e estilos de vida materiais", sendo medido em quatro áreas: habitação, transporte, alimentos e bens de consumo. Levantado pela primeira vez em 2008, quando o Brasil foi o primeiro colocado, o Greendex 2009 pesquisou 17 mil pessoas em 17 países e avaliou o impacto ambiental dos seus hábitos de consumo. Para descrever os resultados, passemos a palavra a um dos principais jornais do país-campeão deste ano, The Times of India, com alguns trechos da sua nota recheada de ironia dedicada ao tema em 14 de maio: Aquele banho de água fria que muitos indianos tomam porque não há eletricidade... aquele matka [pote feito de areia utilizado para manter a água fresca] que usam porque não podem comprar uma geladeira... e as longas caminhadas que fazem até o local de trabalho e de volta à casa, porque o transporte privado é caro e o público, deficiente... Bem, há um lado positivo nessa vida dura. Os indianos podem ser verdes de inveja com os estilos de vida impelidos a consumo no Ocidente, mas os seus próprios meios de vida frugais e modestos os catapultaram ao topo do Índice Verde mundial, fazendo deles os habitantes mais ambientalmente amigáveis do planeta Terra. (...) os consumidores indianos retiraram os brasileiros do topo do pódio, com um índice Greendex de 59,5. Os chineses mantiveram o terceiro lugar, com 55,2. Na lanterna da tabela dos 17 países pesquisados, estão os superconsumistas estadunidenses (43,7), canadenses (47,5) e japoneses (49,3). Então, o que colocou os indianos no topo da tabela verde? O resultado foi obtido com um desempenho acima da média em todos os quatro subíndices, inclusive o primeiro lugar em alimentos e bens. Os indianos são os mais frequentes consumidores de alimentos produzidos domesticamente, com 35% comendo o que produzem várias vezes por semana ou diariamente [leia-se predominantemente produção de subsistência - n.e.]. Eles são também os que menos frequentemente comem carne, que requer mais energia para produzir. (...) Os consumidores indianos também lideraram no subíndice de bens. A sua condição superior se deve em parte ao fato de terem níveis abaixo da média de posse de grandes aparelhos domésticos e eletrônicos... Eles ficaram em terceiro lugar no subíndice de transporte, baseado no segundo lugar em proximidade do local de trabalho e no penúltimo lugar na probabilidade de possuir um carro ou caminhão. (...) No tocante à habitação, os indianos só perdem para os brasileiros. Os fatores contribuintes para a sua alta pontuação incluem uma baixa incidência de aquecimento doméstico (41%) e água quente corrente (38%) e uma alta incidência... de uso de energia solar para aquecimento de água (15%). Levando-se em consideração que a pesquisa da GlobeScan foi feita via Internet, com mil internautas de cada país, os números citados pelo jornal indiano não revelam o cenário real dos países subdesenvolvidos que a Sociedade Geográfica Nacional considera exemplares nos cuidados com o meio ambiente, uma vez que os usuários de computadores ainda são minorias em suas populações. A tabela completa pode ser consultada no sítio da sociedade. Ao colocar como "campeões ambientais" a Índia, a China e o Brasil e, na parte inferior da tabela, alguns dos países com maiores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), a Sociedade Geográfica Nacional reforça a mensagem recorrente do ambientalismo internacional desde as suas origens nas décadas de 1960-70: o desenvolvimento e o progresso são deletérios para o meio ambiente e, portanto, a despeito dos "excessos" cometidos pelos países industrializados, os subdesenvolvidos do mundo deveriam se conformar com a sua condição inferior em favor da preservação do ambiente global. E, como se viu com o estudo do DFID, os planos para manter o status quo, à força se preciso, já estão avançados.