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México: petróleo para derrotar o novo colonialismo

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image O presidente Lázaro Cárdenas, que nacionalizou o petróleo mexicano

O discurso de Andrés Manuel López Obrador, durante a cerimônia comemorativa do 70º aniversário da nacionalização do petróleo mexicano, em 18 de março, reconhece que a soberania e o destino da nação estão em jogo na presente campanha em defesa da permanência desse recurso vital nas mãos do Estado nacional. "Temos a convicção de que somente o povo pode salvar o povo, que somente o povo pode salvar a nação. E, hoje, com essa idéia à frente, estamos enfrentando o maior de todos os desafios que nos coube viver", disse ele às dezenas de milhares de pessoas reunidas na Praça da Constituição, no centro da capital mexicana.

Trata-se de um desafio que ocorre no contexto de uma situação mundial crítica, na qual os recursos energéticos, especialmente o petróleo, gás natural e urânio, estão definindo áreas de conflito entre os interesses hegemônicos anglo-americanos e associados, de um lado, e os ainda limitados esforços de recuperação do papel dos Estados nacionais soberanos. Um exemplo destes últimos tem sido a retomada do controle estatal sobre os vastos recursos energéticos da Federação Russa sob a liderança de Vladimir Putin, recolocando-os ao serviço de um programa de longo prazo para a reconstrução nacional e a recuperação da estatura internacional do país. Esforço, este, que tem incluído uma firme investida contra a máfia oligárquica que havia se apoderado de empresas e recursos naturais, em favor de interesses privados, inclusive estrangeiros.

No México, a tentativa de desestatização da empresa petrolífera Pemex seria o ato culminante do domínio do país por uma máfia semelhante à russa, encastelada na cúpula do poder desde a presidência de Carlos Salinas de Gortari (1988-94) e consolidada nos regimes de Ernesto Zedillo (1994-2000) e Vicente Fox (2000-06), a qual foi responsável pela escandalosa fraude eleitoral de julho de 2006, que impediu a chegada de López Obrador à presidência da República. Uma máfia que tem se aproveitado ao extremo de uma série de negociatas proporcionadas no âmbito do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) e ligada aos interesses dos "neoconservadores" dos EUA, aí incluídos os laços com as redes do ex-presidente de governo espanhol José María Aznar, representadas na cúpula do poder pelo secretário de Governo Juan Camilo Mouriño.

A intenção explícita desses grupos é revogar na prática os termos do Artigo 27 da Constituição Federal, o qual estabelece a soberania nacional sobre "o domínio direto de todos os recursos naturais".

Nesse contexto, é relevante que em sua menção ao decreto de nacionalização do petróleo, López Obrador tenha mencionado a importância da relação do presidente Lázaro Cárdenas, que a promulgou em 1938, com o estadunidense Franklin Roosevelt. Em suas palavras, para o decreto

se entrelaçaram três condições preciosas: tivemos a fortuna de contar com um presidente popular, com sensibilidade política e, sobretudo, patriota, o general Lázaro Cárdenas del Río... Também foi decisivo que nos EUA estava no governo o presidente Franklin Delano Roosevelt, um dos maiores políticos do mundo no século XX. Durante a sua presidência, ele aplicou uma política de boa vizinhança com todos os países do continente americano. Nessa época, ele reconheceu a soberania de Cuba e do Panamá e ordenou a retirada militar estadunidense da Nicarágua e do Haiti. A autenticidade de sua política de boa vizinhança teve o seu melhor exemplo no respeito à soberania do nosso país. Em uma carta, o general Cárdenas reconhece: "Meu governo considera que a atitude assumida pelos EUA, no caso da expropriação das companhias petroleiras, vem afirmar uma vez mais a soberania dos povos deste continente, que com tanto empenho tem sustentado o estadista do país mais poderoso da América, o excelentíssimo senhor presidente Roosevelt."

Da mesma forma, também influiu o fato de que, em 12 de março de 1938, dias antes do decreto de expropriação, Hitler invadia a Áustria com suas tropas e a II Guerra Mundial estava deflagrada de fato. Esta circunstância político-militar fez entender ao governo estadunidense que era preferível a via da negociação e contar com um governo antifascista em sua fronteira Sul, do que o uso da força contra o nosso país.

A relevância desse contexto histórico não é de interesse meramente acadêmico. A ação de Cárdenas constituiu um fato histórico na luta pela erradicação do colonialismo no mundo, causa com a qual o próprio Roosevelt se comprometera já em sua primeira eleição presidencial, em 1932. Com o seu New Deal e a posterior preparação econômica dos EUA para a II Guerra Mundial, Roosevelt criou as condições para a superação, após o conflito, do modelo imperial britânico compartilhado pelas companhias petrolíferas estabelecidas no México. O seu propósito ficou claramente manifestado ao seu aliado-rival, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, nas diversas reuniões que tiveram para estabelecer a estratégia de guerra, fatos relatados por seu filho Elliott, testemunha ocular delas, no livro Como meu pai os via (existe uma edição brasileira de 1947).

O exemplo anticolonialista mexicano foi, mais tarde, seguido por diversos governos nacionalistas em outros países, como o do primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh, que nacionalizou a Anglo-Iranian Oil Company em 1951 e o de Getúlio Vargas, que criou a Petrobras em 1953 (o mesmo ano em que Mossadegh foi deposto por um golpe de Estado promovido pela inteligência anglo-americana).

Desafortunadamente, a morte de Roosevelt, em abril de 1945, permitiu a substituição imediata de suas propostas para o pós-guerra pela "lógica" insana da Guerra Fria, abrindo caminho para o estabelecimento de um condomínio de poder global entre dois poderes neocoloniais, cuja inviabilidade intrínseca ficou evidenciada com a derrocada do bloco soviético, no período 1989-91, e está sendo agora, com o derretimento do sistema financeiro "globalizado" e os limites da força militar como instrumento hegemônico.

De fato, a queda do Muro de Berlim, em 1989, sinalizou o ponto de inflexão para o plano de submissão da soberania do México e a consolidação do poder da máfia de Salinas de Gortari, sob a premissa de uma suposta inevitabilidade da submissão do país ao poderio unilateral avassalador dos EUA. Com a falaciosa tese do "fim da História", adredemente disseminada em todo o mundo como uma nova revelação, encerrava-se também a soberania mexicana.

Posteriormente, em meio às turbulências provocadas pelo fracasso militar no Afeganistão e no Iraque e pela instabilidade financeira, que já se manifestava, a fraude eleitoral de 2006 respondia, em última instância, à necessidade de se obter uma "tranqüilidade política" ao sul do rio Bravo (Grande, nos mapas estadunidenses). Não obstante, o que ganhou o Establishment foi um mero adiamento de dois anos no derretimento financeiro sistêmico, o qual poderia ter sido deflagrado pelas ondas de choque emitidas por uma presidência mexicana que não se enquadrasse nos arreglos hegemônicos. Ademais, os estrategistas do Establishment não podiam imaginar que, em uma época de vastos recursos midiáticos e eletrônicos, pudesse surgir um movimento popular de resistência pacífica para confrontar o cambaleante regime de Felipe Calderón.

Outra vez, a luta nacionalista em defesa da soberania mexicana ocorre em um instigante contexto internacional. A derrocada do sistema financeiro vem acompanhada da reemergência dos ideiais do Estado nacional soberano. Os recursos petrolíferos representam a última alavanca para a recuperação da soberania mexicana. Mas a luta no México não responde apenas ao relógio político nacional, cujos ponteiros as forças oligárquicas tentam desesperadamente manipular. Em realidae, é o relógio da História universal que está marcando as horas nas ruas das cidades mexicanas, conclamando o país a proporcionar novamente a pauta na luta contra o neocolonialismo e as decrépitas oligarquias transnacionais que têm nele um modo de vida.

Vale concluir com as palavras de Lázaro Cárdenas, citadas por López Obrador: "Nem a pressão econômica, nem o anúncio da presença de esquadras estrangeiras em águas mexicanas, fariam tanto dano à vida política do México, como o que se causaria com a devolução pacífica das jazidas petrolíferas às companhias expropriadas. Retroceder ou perder o que se ganhou seria uma traição à Pátria."

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