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Brasil: o "celeiro do mundo" e seus gargalos

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Segundo o relatório “Perspectivas Agrícolas 2010-2019”, emitido em conjunto pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os países em desenvolvimento vão ser a grande força do crescimento da produção, do consumo e do comércio agrícola nos próximos dez anos, e o Brasil deve ser uma das estrelas do processo: “É no Brasil que a alta da produção agrícola será, de longe, a mais rápida”, diz o documento (BBC Brasil, 15/06/2010).

A demanda dos países em desenvolvimento é impulsionada pelo aumento da renda per capita e pela urbanização, reforçada pelo crescimento populacional que é duas vezes maior do que nos países desenvolvidos. A tendência é de um aumento no consumo de produtos como carnes e alimentos processados, o que deve favorecer os produtores de bovinos e frangos. Além disso, com uma classe média em expansão, o consumo de alimentos nos países em desenvolvimento deve depender menos de mudanças no preço e na renda.

Com relação à produção, a FAO e a OCDE estimam que a maior parte da expansão da oferta mundial de oleaginosas, como soja, estará concentrada no Brasil, Estados Unidos e Argentina. Os EUA devem continuar a ser o maior produtor global, mas quase 70% do aumento das exportações virá do Brasil, elevando de 26% para 35% sua fatia no comércio mundial até 2019. Nesse ritmo, o país poderá se tornar o maior exportador mundial de oleaginosas em 2018, superando os EUA.

Outro segmento em que o Brasil pode aumentar sua presença é nas exportações de lácteos, diz o documento. A produção de leite deve crescer 2,3% ao ano, em razão do incremento da produtividade e investimentos.

Por outro lado, o relatório mostra que os países desenvolvidos continuarão a dominar as exportações de trigo (52% do total mundial), grãos forrageiros (59%), carne suína (80%), queijo (63%) e leite em pó (66%).

Um outro aspecto importante abordado pelo relatório são os subsídios agrícolas, cujos níveis nos países emergentes tendem a aumentar, mas continuam muito abaixo das bilionárias subvenções praticadas na maioria dos países industrializados. Em 2008, elas atingiram 250 bilhões de dólares nestes últimos, contribuindo para derrubar os preços internacionais e gerando uma concorrência desfavorável aos países produtores menos desenvolvidos. Os campeões de subsídios são os EUA e a União Europeia, com 30% e 40% do total, respectivamente. No Japão e na Coreia do Sul, 90% da subvenção são também vinculados à produção (Valor Econômico, 14/06/2010).

A constatação do relatório FAO/OCDE sobre a proeminência do Brasil na produção agrícola vindoura vem apenas confirmar o que muitos, a começar pelo célebre agrônomo estadunidense e Prêmio Nobel da Paz Norman Borlaug, já apontavam como o “celeiro do mundo” no século 21. Contudo, além dos conhecidos gargalos que constrangem a produção agrícola brasileira, dentre os quais a clamorosa dependência externa com fertilizantes e a persistente vulnerabilidade logística, há que se considerar a necessidade de o País aumentar, de forma progressiva e planejada, a exportação não apenas de commodities agrícolas, mas de alimentos processados. Porém, para que essa meta seja atingida, há que se remover um outro “gargalo”, o excessivo domínio que cartéis mundiais de commodities exercem sobre boa parte da cadeia produtiva de bens agrícolas nacionais. Por aqui, ainda falta uma maior sintonia de interesses e agendas entre o Estado e os setores produtivos, que possibilite tais resultados.

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