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Haiti: hora de mudar as regras do jogo

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Há quatro anos à frente da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (MINUSTAH), o Brasil foi solicitado pelo governo haitiano e pela ONU a manter por mais um ano as suas tropas e o comando das forças de paz no país. Enfrentando uma série de crises políticas e surtos de violência, agravados pelos danos causados pelos furacões Hanna e Ike, que deixaram mais de 500 mortos e milhares de desabrigados, a situação do país mais pobre do Hemisfério Ocidental, de fato, não recomenda de modo algum a retirada da missão da ONU, cujo mandato precisa ser renovado anualmente.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo de 9 de setembro, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon já teria sugerido a manutenção do Brasil à frente da MINUSTAH e, da mesma forma, o Itamaraty já teria antecipado que o País aceitará o engargo. Não obstante, segundo o correspondente Jamil Chade, a chancelaria pretende pressionar para que a missão da ONU enfatize os trabalhos de reconstrução física do Haiti, com a correspondente alocação de recursos financeiros para tanto. Atualmente, são os engenheiros militares da força multinacional que executam uma boa parte desses trabalhos, de uma maneira quase informal. De acordo com o jornalista, a ONU hesita em ampliar o mandato da missão para incluir tais tarefas.

Desde 2004, o Brasil mantém 1.200 militares no Haiti e comanda um efetivo total de 7.100 militares de 18 países (reforçados por cerca de 1.900 agentes policiais de 39 países), operação que tem sido apontada como modelar. Por conta disso, o País tem cacife para assumir uma atitude mais pró-ativa e colocar uma pressão bem mais forte sobre a ONU e os organismos multilaterais, no sentido de enviar ao Haiti os recursos financeiros longamente prometidos e jamais entregues, para a reconstrução e ampliação da infra-estrutura física do castigado país. Sem tal providência, capaz de gerar atividades econômicas e empregos, colocando em marcha uma nova dinâmica socioeconômica, dificilmente será possível reduzir as tensões sociais e a violência que justificam a presença da missão da ONU.

De nossa parte, reiteramos as palavras de Silvia Palacios, publicadas na edição da segunda quinzena de março de 2004 do jornal Solidariedade Ibero-americana, poucas semanas após o golpe de Estado que depôs o presidente Jean-Bertrand Aristide, quando os EUA e a França já propunham que o Brasil encabeçasse uma missão interventora:

Qualquer proposta de intervenção externa que não inclua uma iniciativa de longo prazo para a reconstrução e o desenvolvimento do país, permitindo resgatar a sua população da pobreza e da miséria abjetas que a assolam e dar-lhe um sentido positivo de futuro, será infrutífera. Mais do que de soldados estrangeiros, o Haiti precisa de ajuda econômica para a construção de uma sociedade moderna. Se tais vulnerabilidades fundamentais não forem devidamente enfrentadas, os conflitos internos que têm marcado a história do país voltarão a se manifestar - e, possivelmente, exacerbar-se - assim que as forças estrangeiras se retirem.

Quatro anos e meio depois, tais palavras mantêm uma desalentadora - e, para os haitianos, trágica - atualidade.

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