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Haiti, tragédia de uma época

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image A devastação sofrida pelo Haiti exigirá novos princípios para a reconstrução do país (Ag Brasil)

A Humanidade já presenciou tragédias maiores em número de vítimas. Na década de 1930, uma série de enchentes catastróficas deixou mais de 5 milhões de mortos na China. No mesmo país, os terremotos de 1920 e 1976 provocaram quase meio milhão de mortes. O que arrasou Tóquio em 1923 matou 143 mil pessoas. A tsunami no Índico, em 2004, mais de 230 mil. Mas, pelo menos na História contemporânea, talvez, nenhuma outra catástrofe tenha provocado uma devastação tão profunda na infraestrutura física e nas próprias instituições de um país como o terremoto que destruiu a capital do Haiti, Porto Príncipe, na noite de 12 de janeiro. Do palácio presidencial às favelas, passando por hospitais, escolas, a universidade, a catedral, as instalações da missão das Nações Unidas, mais de 80% das construções da cidade foram destruídas ou seriamente comprometidas pelo sismo, cujos efeitos foram maximizados por ter ocorrido a pouca profundidade e a pequena distância da cidade.

Essa percepção ampliou a comoção causada pela tragédia, cujo horror foi amplificado pela constatação de que, em pleno século XXI, os haitianos não dispunham dos recursos mais elementares para enfrentar emergências do gênero (como, aliás, já ficara evidenciado nas inundações de 2008), sendo quase totalmente dependentes de ajuda externa. Tal fato motivou uma corrente internacional de solidariedade poucas vezes vista, que será crucial não apenas para tentar impedir que a sociedade haitiana mergulhe no caos social, mas, não menos, assegurar a reconstrução do sofrido país caribenho.

Quanto a isso, é fundamental que certas lições sejam apreendidas. Por ocasião da intervenção militar supranacional de 2004, já era evidente que o Haiti necessitaria de muito mais que uma pacificação política imposta pelos capacetes azuis da ONU. Como reiteramos diversas vezes na época, a "defesa da democracia" por si só não passava de um pretexto para a manutenção de um modelo neocolonial, o qual deixava de lado a tarefa mais relevante de criar condições para a reconstrução do país com base no fortalecimento das estruturas do Estado nacional, com recursos para a infra-estrutura física e o perdão da dívida nacional, que nunca chegaram. Em vez disto, os recursos de ajuda foram pulverizados por intermédio de uma rede de ONGs internacionais, o que em nada contribuiu para reforçar as estruturas institucionais haitianas. Agora, será preciso recomeçar de zero, para estabelecer não um novo modelo de intervencionismo, mesmo que humanitário, mas as bases do Estado haitiano, no contexto de um sistema de relações entre nações soberanas que não seja paternalista e/ou intervencionista.

Por isso, a tragédia haitiana, de proporções verdadeiramente apocalípticas, é também a tragédia de um modelo de civilização, no qual o colonialismo mantido durante a Guerra Fria foi o principal vetor da estagnação do Haiti na segunda metade do século XX. Esperemos, pois, que o choque causado pelas imagens dantescas das ruínas de Porto Príncipe, juntamente com a experiência da atuação conjunta de vários países, que deverá estender-se muito além dos trabalhos de socorro, possam contribuir para a conscientização global sobre a necessidade de se promover uma verdadeira reconstrução de toda a Civilização em bases verdadeiramente cristãs.

Para o Brasil, cujo governo parece determinado a "adotar o Haiti", fica o ensinamento que mais de cinco anos e meio de liderança da missão da ONU no país já deveriam ter consolidado: a reconstrução da sociedade e do Estado haitianos irá requerer novos princípios e novas diretrizes, diferentes das que têm norteado a atuação da missão internacional e da miríade de Organizações Não-Governamentais (ONGs) assistencialistas que ali atuam. Aparentemente, tal fato é de pleno conhecimento das lideranças militares e civis responsáveis pela coordenação da operação, com a sua vasta experiência no local. É preciso que tal condição seja complementada pela determinação política para convencer a comunidade internacional da imprescindível mudança de rumo.

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