MSIa: Unasul: videochanchada diplomática em Bariloche Unasul: videochanchada diplomática em Bariloche ================================================================================ Geraldo Luís Lino e Lorenzo Carrasco on 11 September, 2009 11:01:00 A cúpula presidencial da União de Nações Sul-americanas (Unasul), realizada em Bariloche, Argentina, em 28 de agosto, foi um completo desastre sob todos os aspectos. Oito horas de discussões inflamadas dos mandatários, transmitidas ao vivo pela televisão como uma tragicomédia, evidenciaram que o incipiente processo de integração regional encontra-se ameaçado pelo fardo ideológico do “bolivarianismo” encabeçado pelo venezuelano Hugo Chávez. Convocada para deliberar sobre assuntos de segurança que competem a todas as nações da região, em especial o processo insurrecional que levou a Colômbia a aprofundar o acordo militar que mantém com os EUA, a reunião sequer conseguiu produzir uma declaração final inteligível, o que levou o peruano Alan García a afirmar que quem a ler “não vai entender nada”. Talvez a única sombra de realidade do evento, que mostra negativamente os temas realmente meritórios de entendimento, foi o anúncio feito pelo pivô do encontro, o colombiano Álvaro Uribe, de que havia contraído a gripe suína. O pessimismo quanto às perspectivas da integração regional é generalizado. A cientista política brasileira Mônica Hirst, do Departamento de Ciência Política e Estudos Internacionais da Universidade Torcuato di Tella de Buenos Aires, conta com o papel moderador do Chile e do Brasil para salvar o projeto de integração da "crônica de uma morte anunciada" vista em Bariloche. Ela considera que a crise atual do processo "é muito grave", como foi evidenciado pelo "exacerbado protagonismo presidencial" na cúpula da Unasul (O Estado de S. Paulo, 30/08/2009). A análise do jornalista Clóvis Rossi, na Folha de S. Paulo de 30 de agosto, é ainda mais cáustica: "De reunião em reunião, a Unasul só consegue demonstrar que está distante de justificar o 'União' que abre o seu nome." Com ironia e propriedade, Rossi afirma que o comunicado final da cúpula produziu "uma das mais patéticas platitudes já encontradas em textos diplomáticos de uma região em que obviedades enchem arquivos e arquivos". De fato, só se pode concordar diante de palavras como: "Forças militares estrangeiras não podem... ameaçar a soberania e a integridade de qualquer nação sul-americana." Para tornar ainda mais surrealista a situação, uma nova reunião foi convocada para setembro, desta feita envolvendo chanceleres e ministros da Defesa, para retomar a discussão sobre a presença de efetivos militares estadunidenses na Colômbia - na qual, muito provavelmente, o impasse se manterá. E, para complicar, todo esse processo está abrindo caminho para uma retomada do surrado discurso sobre uma "nova corrida armamentista" na região. Como já se percebe em reportagens midiáticas, o acirramento dos ânimos entre os vizinhos parece enevoar a percepção de alguns fatores básicos: 1) a América do Sul é a região do planeta que tem os menores gastos militares proporcionalmente às dimensões das suas economias; 2) praticamente todos os equipamentos militares adquiridos recentemente pelos países da região têm visado a substituir material obsoleto; e 3) em termos estritamente militares, nenhum país da região tem condições efetivas de projetar poder sobre algum vizinho, exceto em um caso excepcional como uma altamente improvável decisão do governo da Venezuela de decidir à força o seu contencioso secular sobre o território do Essequibo, na Guiana (cujas consequências políticas seriam catastróficas para Caracas). Em meio a esse cenário de discórdias e cizânias, em que os governos da região não conseguem superar velhos vícios como os antolhos ideológicos e a incapacidade de olhar para a frente sem certas amarras do passado, já há quem proponha um "recuo estratégico" na integração regional, uma pausa para respiro e retomada de posições, para ajustar o processo aos requisitos da realidade. Ainda que, por conta de fatos como o que se viu em Bariloche, sejamos tentados a concordar, um reposicionamento do processo integrativo não pode de modo algum implicar numa parada do mesmo: o que se necessita é enquadrá-lo nos requisitos reais da crise sistêmica global, concentrando-o em aspectos potencialmente capazes de superar as picuinhas ideológicas, como o estabelecimento de grandes projetos compartilhados de infra-estrutura viária e energética. Para tanto, porém, o Brasil precisa assumir um papel bem mais amadurecido do que o que vem demonstrando, sem se deixar levar pelos arroubos adolescentes da "tróica bolivariana". Caso contrário, corremos o risco de amargar outros "cem anos de solidão".