Como é verde a "fumaça de Satanás na Igreja"
Entre os dias 8 e 10 de junho, realizou-se em Brasília um simpósio promovido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e outras entidades, inclusive a organização católica alemã Misereor, dedicado a discutir as mudanças climáticas e outros assuntos ambientais. A reunião traz ao Brasil as conclusões de outro simpósito intitulado "O Bem Comum global perante a escassez de recursos", promovido conjuntamente pelo Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM) e a Miseror, no Vaticano, em 6-7 de março últimos. O documento final, embora tenha feito considerações corretas sobre os efeitos da crise deflagrada pela globalização financeira, esteve repleto de considerações ambientalistas apegadas á visão malthusiana, ao clamar pela consolidação de "um novo paradigma cultural como base de um modo de vida que reconheça a limitação dos bens naturais" assim contribuindo a divulgar a visão catastrofista anticientifica sobre os fenômenos climáticos (Resenha Estratégica, 1º./04/2009).
A julgar por um artigo publicado na Folha de S. Paulo de 7 de maio, com o título "A Igreja Católica ante o aquecimento global", tudo indica que em Brasília foram repetidas não apenas as mesmas falácias, mas, também, que tais círculos eclesiásticos se apegaram ao antigo conceito pagão da Mãe-Terra. Em uma tentativa de colocar a Igreja Católica na vanguarda das discussões sobre o tema, esses setores se distanciam do apego à busca da verdade e adotam as versões predominantemente pseudocientíficas, que beiram o obscurantismo de várias maneiras: científico, por se negarem a ouvir os numerosos cientistas sérios de todo o mundo que têm demonstrado a falta de fundamentos dos argumentos sobre o aquecimento global antropogênico; e social, porque as consequências das propostas dos alarmistas (em geral, malthusianos furibundos, como Al Gore, Maurice Strong e outros) não implicam unicamente em frear o crescimento populacional, mas potencializar um virtual genocídio, ao obstaculizar o desenvolvimento da maior parte dos habitantes do planeta.
Ademais, a campanha do aquecimento global antropogênico abarca tantas falsidades que passam por verdades estabelecidas, que, no tocante às ameaças ao meio ambiente, bem poderiam servir de argumento para uma continuação de Anjos e demônios, o novo sucesso literário-cinematográfico do propagandista anticatólico Dan Brown. Depois de lê-la, poderíamos parafrasear o papa Paulo VI em sua célebre crítica de 1972 aos desvios litúrgicos de prelados ideologicamente motivados - como é verde a "fumaça de Satanás" na Igreja.
Não pode ser outra a dedução do conteúdo do artigo escrito por D. Pedro Luiz Stringhini, bispo-auxiliar da arquidiocese de São Paulo, e o teólogo e filósofo Roberto Malvezzi, assessor da CELAM para assuntos ambientais, que abre com uma "lição teológica":
Jesus ensinou seus discípulos a ler "os sinais dos tempos". Não é o olhar de um cientista sobre a realidade, embora ele também seja essencial. Nesse caso, "sinais dos tempos" é uma categoria teológica que nos ajuda a interpretar como Deus se manifesta diante dos acontecimentos da história. Hoje, literalmente, temos que olhar os sinais dos tempos. Entre tantas mudanças que acontecem na humanidade e no planeta que habitamos, uma parece mais desafiadora que todas as outras: o aquecimento global. (...)
Em seguida, vem um surpreendente parágrafo de adesão à Hipótese Gaia, um bizarro coquetel de pseudociência com misticismo criado pelo cientista inglês James Lovelock e adotado por grande parte dos ambientalistas, a qual considera o planeta como um ser vivo de direito próprio:
Segundo grande parte dos cientistas, a Terra se comporta como um ser vivo e está num processo de aquecimento, com consequências gravíssimas e irreversíveis para a humanidade e toda a comunidade de vida que a habita. A previsão de que a Terra pode aquecer entre 2 e 6 graus [centígrados] assusta a comunidade científica e todos aqueles que têm acesso a essas informações.
Se não estivéssemos informados sobre a autoria do artigo, poderíamos supor de que se tratasse de um texto do "teólogo da libertação" Leonardo Boff, um ativo propagandista da Hipótese Gaia e do ambientalismo. Quanto ao seu substrato "ético-filosófico", tanto a Hipótese Gaia em particular, como o ambientalismo em geral, representam uma tentativa de ressacralização da natureza - e uma consequente dessacralização do ser humano. Trata-se de uma espécie de retorno ao conceito panteísta pré-cristão de que Deus está em todas as coisas, ou à heresia de Pelágio (século IV), segundo a qual a natureza seria suficiente para a salvação do homem. Alguns dos ambientalistas mais entusiasmados vêem no culto a Gaia o esboço de uma religião universal, que transcenda todos os povos e culturas. Na visão dos adeptos de Gaia, o ser humano deveria comportar-se como uma versão pós-moderna do "nobre selvagem".
Em outras passagens, os autores endossam plenamente todos os cenários catastrofistas popularizados pelos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e pelo arquimalthusiano ex-vice-presidente estadunidense Al Gore, embora não os mencionem. Além disto, dão crédito aos números alarmistas de um relatório divulgado na semana passada pelo Fórum Humanitário Global, ONG dirigida pelo ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, segundo o qual o aquecimento global já estariam causando 300 mil mortes anuais - já devidamente desqualificado por vários cientistas que demonstraram a falta de rigor científico do estudo.
Demonstrando um total desconhecimento dos fatos científicos reais, os autores afirmam que "tantos fatos inéditos acontecendo ao mesmo tempo nos dizem que a natureza está em mudança".
De fato, a natureza está "em mudança", uma vez que este é o seu estado permanente. Desde o surgimento das primeiras formas de vida, há mais de 4 bilhões de anos, jamais houve qualquer condição que pudesse ser considerada como "equilíbrio" - palavra-chave no vocabulário ambientalista. Ao contrário, a história geológico-biológica da Terra é marcada por um processo de evolução caracterizado por uma sucessão de níveis crescentes de organização de energia, matéria e informação, o qual tem se acelerado ao longo do tempo geológico. Desde a sua entrada em cena, ao mesmo tempo em que se diversificavam em formas crescentemente complexas, os seres vivos assumiam um papel cada vez mais ativo na transformação contínua do meio físico, ou seja, na imposição de níveis superiores de organização à matéria inerte, os quais, por sua vez, favoreciam o aparecimento de espécies mais evoluídas. O homem e seus recursos técnicos representam, por assim dizer, a culminância desse processo evolutivo, em um estágio qualitativamente - ou ontologicamente - superior. Como afirma o paleontólogo francês Jean-Michel Dutuit - e ressalta a teologia cristã -, o homem é a evolução que se torna consciente de si mesma.
De resto, seria de todo conveniente que os autores e os participantes do seminário de Brasília tomassem nota das advertências do próprio Papa Bento XVI sobre o tipo de exageros catastrofistas que têm permeado as discussões sobre o aquecimento global, feitas durante a assembléia plenária da Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, de 3-6 de novembro de 2006, dedicada ao tema "A possibilidade de predição na ciência: precisão e limitações". Na ocasião, o Pontífice fez uma breve palestra em que não apenas reiterou a inexistência de qualquer oposição fundamental entre a ciência e a religião, mas também desfechou um vigoroso golpe contra o alarmismo pseudocientífico. Embora não tenha feito menção a qualquer variante do fenômeno em particular, as palavras do Papa parecem ter sido dirigidas diretamente aos ambientalistas e sua ideologia misantrópica e anticientífica:
"A possibilidade de predição científica suscita também a questão das responsabilidades éticas do cientista. Suas conclusões têm de estar guiadas pelo respeito da verdade e pelo reconhecimento honesto, tanto da precisão como das inevitáveis limitações do método científico. Certamente, isso significa evitar desnecessariamente predições alarmantes quando não estão sustentadas por dados suficientes ou ultrapassam a capacidade atual da ciência para fazer previsões. Ao mesmo tempo, deve-se evitar o contrário, ou seja, calar, por temor, frente aos autênticos problemas. A influência dos cientistas na formação da opinião pública em virtude e seu conhecimento é muito importante como para ser socavada por uma indevida precipitação ou por uma publicidade superficial."



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