A quebra do "barômetro financeiro"
A semana passada, que registrou o maior índice histórico de perdas nas bolsas de valores globais, colocou ao mundo à beira do abismo financeiro. Em nossas análises, várias delas postadas neste sítio, nos referimos não poucas vezes aos níveis alarmantes do "barômetro financeiro" mundial. Agora, não podemos referir-nos mais a uma medida escalar, porque os parâmetros métricos se tornaram disfuncionais. A escassez de crédito, tanto no sentido estritamente financeiro, como no sentido amplo da credibilidade do sistema, indicam uma realidade em que, efetivamente, podem deixar de existir parâmetros confiáveis para determinar o valor da produção e dos serviços, já não na economia de ficção do mundo financeiro especulativo, mas na economia de produção física, porque não é fácil separar o joio do trigo nas redes da economia mundial.
O resultado da "orgia tóxica" da oligarquia financeira mundial é que, atualmente, menos de 5% das transações monetárias mundiais estão relacionadas ao comércio internacional de bens e serviços ligados à economia real, ficando o restante atrelado às múltiplas operações com "inovações financeiras" cada vez mais sofisticadas, surrealistas e alheias ao mundo real. Em 1980, a massa de instrumentos monetários e financeiros era aproximadamente equivalente ao PIB mundial de cerca de 9 trilhões de dólares. Em 2005, a proporção ativos financeiros/PIB havia subido para cerca de 3:1, sem contar os derivativos financeiros, cujo montante nem mesmo o Banco de Compensações Internacionais (BIS) sabe avaliar corretamente. Atualmente, contra um PIB global de 55 trilhões de dólares, a maioria das avaliações coloca a massa de derivativos na casa alta das centenas de trilhões, aproximando-se da marca quase inimaginável do quatrilhão de dólares. Provavelmente, grande parte das medidas emergenciais que vêm sendo tomadas para assegurar liquidez aos grandes bancos do Hemisfério Norte se deve ao temor pânico do estouro da bolha de derivativos, cujo potencial explosivo é exponencialmente superior ao da bolha imobiliária estadunidense.
Por isso, as regras e truques clássicos não funcionam mais e o mundo se vê diante da urgência de estabelecer novos "padrões métricos" que preservem as funções básicas da economia real. Embora possam conter momentaneamente o pânico que se alastrou pelos mercados financeiros em todo o mundo, as medidas emergenciais anunciadas até agora em vários países, mesmo em conjunto, não produzirão qualquer efeito duradouro para deter o colapso do sistema financeiro internacional. Não se pode conter uma infecção grave, mantendo a vitima dentro de um "lixão", alegoria apropriada para qualificar uma economia mundial distorcida pelas políticas de desregulamentação das atividades financeiras da oligarquia financeira anglo-americana e seus aliados.
Por isso, se persistir a tendência de se tentar "salvar o sistema", injetando maciças somas de dinheiro nas instituições falidas, poder-se-á produzir rapidamente um colapso hiperinflacionário e um aterrorizante cenário de retrocesso civilizatorio. A crise sistêmica está sepultando a concepção equivocada de que o mero somatório dos interesses e ações individuais pode produzir o bem comum - para cuja promoção nenhuma instituição humana se mostrou superior ao velho e consagrado Estado nacional soberano (que, a propósito, está sendo acionado para as urgentes operações de salvamento e recuperação das áreas atingidas pelo cataclisma financeiro).
Cabe aos Estados nacionais definir o rumo do desenvolvimento e do progresso de suas economias, além de regulamentar e supervisionar o sistema financeiro para que este seja orientado para as necessidades daquelas. Quando necessário, devido ao desinteresse ou à inadequação dos agentes privados, o Estado pode e deve tornar-se ele próprio o empreendedor econômico, especialmente no tocante à infra-estrutura física da qual depende fundamentalmente a saúde da economia - transportes, energia, comunicações, saneamento etc. -, o mesmo valendo para a educação, saúde pública e pesquisa científico-tecnológica.
É preciso restituir à moeda a sua função precípua de meio de troca, retirando-a da condição de mercadoria com a qual vinha sendo tratada de forma crescente. Para devolver à moeda a sua primazia, será preciso substituir a "cultura da dívida", na qual a injeção de dinheiro na economia tem sido feito predominantemente pelo sistema bancário privado, em troca da emissão de títulos governamentais, segundo o modelo dos bancos centrais "independentes" modelados no Banco da Inglaterra e no Sistema da Reserva Federal dos EUA. Como vimos anteriormente (Resenha Estratégica, 1º./10/2008), cresce o argumento de que a intermediação financeira deve ser majoritariamente retirada das mãos privadas e confiada aos Estados nacionais. Estes precisam ser dotados da capacidade de emitir crédito soberano a juros baixos e injetá-lo na economia para autofinanciar, por exemplo, os projetos de infra-estrutura que sustentam a economia real.
Quanto às paridades entre as moedas dos diversos países, é evidente que o atual regime de taxas de câmbio "flutuantes" terá que ser trocado por algum padrão de taxas relativamente fixas ou com uma faixa de variação estreita, análogo (embora não exatamente igual) ao vigente até a década de 1970.
O mundo tem que fazer com que o crescimento econômico e o desenvolvimento voltem a se sustentar sobre bases reais, com a geração permanente de excedentes de produção física e meios de troca e a introdução constante de inovações geradoras de índices crescentes de produtividade real - e não pela "arbitragem" financeira ou a busca obsessiva de mão-de-obra barata, responsável pelo achatamento global de salários e poder aquisitivo que está fazendo encolher as classes médias e ampliar as desigualdades sociais na maioria dos países.
O retorno à economia real de produção e serviços associados representa a única maneira de evitar a longa recessão e/ou depressão para o futuro imediato. Deverá estabelecer-se uma coordenação internacional, em âmbito continental e/ou regional, para promover a implementação de grandes projetos de infra-estrutura em todos os continentes, que, não apenas proporcionaria uma base sólida para a reconstrução econômica mundial, como também contribuiria para reduzir tensões e conflitos para os quais as soluções militares clássicas se mostram cada vez mais inócuas.
Finalmente, é necessária uma urgente coordenação internacional para o estabelecimento de um novo sistema financeiro internacional orientado por tais princípios. O G-20 econômico, que reúne as 20 maiores economias do mundo (representando cerca de 90% do PIB e 80% do comércio mundial) pode ser um fórum adequado para as discussões iniciais, que seriam posteriormente estendidas aos demais países.
No tocante ao Brasil, urge uma coordenação imediata no âmbito dos chefes de Estado da América do Sul, para acelerar o aprofundamento da integração regional - deixando de lado e superando as rusgas juvenis e as visões paroquiais que a têm dificultado, que não apenas proteja as economias da região, mas também lhe assegure um peso maior na reconfiguração da ordem econômico-financeira global.



del.icio.us
Digg
Comentários (0 postado):
Poste seu comentário