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Bento XVI e o significado da arte

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Em 22 de novembro último, o papa Bento XVI proferiu um memorável discurso na Capela Sistina, dirigindo-se a 250 artistas de renome internacional, entre poetas, pintores, cineastas, músicos e outros, reunidos para celebrar o décimo aniversário da célebre Carta aos artistas, de João Paulo II. Nesta última, seu antecessor referiu-se aos artistas como "guardiães da beleza", dedicados à busca de novas epifanias da beleza.

A iniciativa ocorre em um momento crucial para a humanidade. Embora o tema do discurso fosse a beleza, o Pontífice aproveitou a ocasião para pedir aos artistas que empregeum os seus talentos no serviço do bem comum. O apelo é relevante em um momento histórico caracterizado de forma crescente por convulsões sociais, guerras, pessimismo, hedonismo, materialismo e secularismo. Enquanto a maioria da humanidade se vê escravizada pela luta cotidiana pela sobrevivência e uma pequena minoria, motivada pela cobiça pelo poder, explora os recursos do planeta e o trabalho de milhões de pessoas em nome dos lucros financeiros, muitas outras abandonaram a sua fé e confiança no futuro e passaram a viver o presente, de um momento a outro.

A arte e a beleza, disse o papa, são instrumentos indispensáveis para redespertar o que torna o homem verdadeiramente humano, a sua razão criativa, e os artistas têm a responsabilidade de liderar a humanidade na retomada do caminho da sua verdadeira vocação, a "natureza transcendente" do homem.

Referindo-se aos magníficos afrescos da Capela Sistina, em especial ao Julgamento final de Michelangelo Buonarotti, o Pontífice afirmou que ele "nos lembra que a história humana é movimento e ascensão, uma tensão contínua rumo à plenitude, rumo à felicidade humana, rumo a um horizonte que sempre transcende o momento presente". Porém, ressaltou, "a dramática cena retratada nesse afresco também coloca diante dos nossos olhos o risco da queda definitiva do homem, um risco que ameaça engolfá-lo, sempre que ele permitir se deixar levar pelas forças do mal. Assim, o afresco emite um forte brado profético contra o mal, contra todas as formas de injustiça".

No afresco, Michelangelo confronta o homem com a enciclopédia da sua história, cujo desfecho é o tema do livre arabítrio do ser humano. Se o homem decide viver de acordo com a sua natureza transcendente, ele pode tornar-se uma fonte de bondade e criatividade e deixar obras-primas dos seus talentos e artes na Terra - obras que são, elas próprias, reflexos da criatividade divina. Porém, se ele decidir contrariar a sua vocação para viver "à imagem de Deus", ele convida o mal e cria o Inferno na Terra. Na pintura, Michelangelo nos tarnsmite uma importante mensagem histórica, apresentando-nos "o Alfa e o Ômega, o Início e o Fim da História, e nos convida a seguir a trilha da vida com alegria, coragem e esperança. A beleza dramática da pintura de Michelangelo, suas cores e formas, se transforma numa proclamação de esperança".

O afresco de Michelangelo é a expressão vívida de algo que corresponde ao espírito do nosso tempo, disse o papa, "marcado por elementos negativos na esfera social e econômica, no enfraquecimento da esperança, uma falta de confiança nas relações humanas, que dá origem a sinais crescentes de resignação, agressão e desespero". Porém, ressaltou, a beleza tem a qualidade especial de fazer o homem "redescobrir o seu caminho, que o faz erguer os seus olhos para o horizonte. A beleza autêntica, seja natural ou artística, nos libera da escuridão, a transfigura e a torna radiante e bela".

Igualmente, o papa citou Platão, cujo mestre Sócrates definia a beleza como uma expressão da bondade. Para Platão, "a beleza genuína proporciona ao homem um choque saudável, retirando-o de si próprio. Ela abre o seu coração e a sua mente e lhe dá asas, levando-o para cima".

Seguindo as pegadas de Platão, ao longo da História, muitos poetas e artistas têm descrito essa qualidade específica que a beleza expressa em várias formas de arte. Essencialmente, todos demonstraram a existência de uma unidade entre beleza, bondade e esperança. No final do século XIX, o russo Fiódor Dostoiévski dizia que o homem pode viver sem ciência e sem pão, mas não pode viver sem beleza. A francesa Simone Weil comparava a beleza na arte a algo equivalente à experiência da "encarnação de Deus" no mundo.

Entretanto, o Pontífice também advertiu sobre os falsos profetas da beleza, aqueles que a veem como algo cosmético, ou os que a associam ao prazer hedonista - uma beleza que "escraviza" e "aprisiona" o homem e o priva de alegria e esperança. Trata-se de uma forma de beleza superficial que, com frequência, é uma expressão diferente da cobiça do homem pelo poder, a sua vontade de possuir e dominar outros seres humanos. Em contraste, a verdadeira beleza expressa a real vocação do homem e lhe proporciona abarcar o significado de sua existência. "Ela nos leva além de nós mesmos e se torna um caminho para o transcendente, rumo ao Mistério final, rumo a Deus", afirmou.

Esse momento de "transcendência", inspirado nas Escrituras Sagradas, no Antigo e no Novo Testamento, na história dos patriarcas, teve reflexos tanto na espiritualidade ocidental como na oridental, nos símbolos da arte cristã, como as belas catedrais românicas e góticas, as pinturas e construções da Renascença e nas obras musicais e poéticas. Recordando a carta de seu antecessor, Bento XVI ressaltou que, nela, João Paulo II devotou uma grande atenção à questão da criatividade, mostrando que cada artista, ao experimentar a tensão de criar uma obra-prima, experimenta pessoalmente um momento muito específico de criatividade, que é um reflexo do espírito divino.

Para João Paulo II, por meio da sua criação artística o homem se assemelha mais do que nunca à imagem de Deus. Ao exercer o domínio criativo sobre o Universo que o rodeia e ao criar suas obras, o artista transmite ao espírito humano uma centelha da sua própria sabedoria, convidando-o a compartilhar da sua força criativa.

Michelangelo Buonarotti, um dos mais talentosos pintores do Renascimento, produziu o Julgamento Final entre 1536 e 1541. No afresco, como destacou Bento XVI, o artista apresentou o drama e o mistério do mundo desde a Criação até o Julgamento Final, dando um rosto a Deus Pai, a Cristo Juiz e ao homem, em sua árdua jornada desde a aurora até a consumação da História. Porém, a humanidade não está predeterminada a terminar a sua vida em desespero, "mas, graças ao entusiasmo, toda vez que a humanidade perde o seu rumo, ela será capaz de se reerguer e retornar novamente ao caminho correto. Neste sentido, já se disse com profunda inspiração que a beleza salvará o mundo".

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