Piromania financeira, proteção contra incêndios e economia real
Na esteira da estrondosa queda global dos mercados acionários, em 10 de outubro, três dias depois, o governo alemão anunciou um programa de 500 bilhões de euros, "para estabilizar os mercados financeiros e evitar efeitos adversos na economia real". A iniciativa de Berlim, tomada em estreita coordenação com outros governos da zona do euro, criou um "fundo de estabilização do mercado financeiro" de 100 bilhões de euros, com o qual o governo garantirá as transações de refinanciamento interbancárias no montante de até 400 bilhões de euros, até 31 de dezembro de 2009. Até 80 bilhões de euros do fundo poderão ser usados para recapitalizar os bancos, incluindo a opção de "adquirir ativos problemáticos" - leia-se derivativos - das instituições financeiras. O acesso ao fundo está vinculado a condições estritas, inclusive "estratégia de negócios, salários dos administradores, pagamentos de dividendos e a presteza em prover empréstimos às pequenas e médias empresas". Igualmente, os padrões contábeis para os ativos financeiros em mercados "ilíquidos" - novamente, derivativos - serão alterados em toda a área da União Européia (UE).
A mais significativa dessas condições é o poder de examinar e intervir nas estratégias de negócios das instituições que recorrerem ao fundo. Ademais, o ministro das Finanças Peer Steinbrück quer dar à Agência Federal de Supervisão Financeira (Bafin) a autoridade geral de examinar e intervir nas estratégias de negócios de todas as instituições financeiras do país.
Por que o governo alemão tomaria uma medida tão radical e inusitada, depois de ter enfatizado fortemente - e corretamente - que a causa primordial e o impacto principal da crise financeira se situavam nos EUA e na Grã-Bretanha? Terá sido por causa do mantra de que a crise financeira é "global" e nenhum país pode se descolar dos EUA?
De fato, tal assertiva é correta, na medida em que a decisão de deixar o Lehman Brothers quebrar proporcionou o golpe final na já bastante abalada confiança entre os bancos, em âmbito internacional. Se a decisão de Washington de deixar o banco à sua própria sorte decorreu de uma avaliação de que grande parte dos prejuízos decorrentes ocorreriam fora dos EUA, este fato não deveria ser descartado como uma mera teoria conspiratória.
Em 15 de outubro, Steinbrück disse ao Parlamento alemão que a bancarrota do Lehman era um acidente de enormes proporções, uma vez que cerca de 400 bilhões de dólares - a metade das operações totais do banco - eram contratos com instituições financeiras européias. No mesmo dia, o diretor da Bafin, Jochen Sanio, afirmou: "Nós ainda estamos lambendo as feridas sofridas com a bancarrota do Lehman."
O motivo argumentado pelo governo alemão para a guinada política foi o colapso da confiança entre os bancos e o conseqüente congelamento do mercado interbancário, mas, certamente, a exposição dos bancos alemães à quebra do Lehman Brothers foi o fator mais relevante. Segundo uma fonte de alto nível no setor financeiro, além do Hypo Real Estate, outras duas grandes instituições financeiras alemãs encontravam-se em condições críticas, em 10 de outubro.
Não obstante, a tese anglo-americana de que "estamos todos no mesmo barco" ignora convenientemente alguns fatos básicos. A Alemanha, por exemplo, não tem uma bolha imobiliária, tem baixos níveis de endividamento doméstico, empresarial e estatal (comparada aos EUA e ao Reino Unido), uma taxa de poupança de 11%, dois terços do sistema bancário sob controle público, um vasto saldo comercial e, acima de tudo, uma largamente intacta e tecnologicamente competitiva base industrial e de pequenas e médias empresas.
Por outro lado, a força alemã na economia real e o seu vasto excedente comercial têm uma vulnerabilidade: além da China e do Japão, a Alemanha é a terceira maior nação credora do mundo. E quase 60% dos empréstimos dos bancos alemães se dirigiram ao exterior, em 2007, a maioria deles para a UE, mas o mercado dos EUA também tem sido significativo. Evidentemente, tamanha exposição a devedores externos significa uma enorme vulnerabilidade.
Ao apresentar o pacote financeiro de emergência ao Parlamento, e logo após apontar para as conseqüências da quebra do Lehman Brothers, Steinbrück empregou a seguinte metáfora: "Quando os mercados financeiros do mundo estão pegando fogo, primeiro, é preciso apagar o fogo - mesmo se for um incêndio provocado."
A cúpula financeira mundial
Em seguida, Steinbrück afirmou: "Nós devemos assegurar-nos de que os incendiários não poderão fazer a mesma coisa novamente. E os materiais combustíveis devem ser banidos, ao mesmo tempo em que a proteção contra incêndios deve ser aprimorada." Em outras palavras: juntamente com o enfrentamento imediato da crise de administração financeira, deve ser criada uma nova arquitetura institucional para o sistema financeiro internacional. Na semana anterior, Steinbrück apresentou as suas "oito regras de tráfego" para a "eficiência sustentável" dos mercados financeiros no apoio ao desenvolvimento econômico real (Resenha Estratégica, 17/10/2008). Da mesma forma, ele propõe que o Fundo Monetário Internacional (FMI) seja "reorganizado", com novos estatutos e um corpo técnico "bastante diferente", com qualificações profissionais diferentes das atuais.
Por sua vez, a chanceler Angela Merkel disse ao Parlamento que apóia a proposta de convocação de uma cúpula financeira mundial, a ser realizada no final de novembro, incluindo o G-7, a Rússia, China, Índia, Brasil e outros "países emergentes". Segundo ela, o Encontro Ásia-Europa (ASEM, em inglês), que será realizado em 24 de outubro, em Pequim, será um evento-chave para a preparação da cúpula financeira. A cúpula da ASEM envolve os 27 chefes de governo da UE e 18 de países asiáticos, inclusive a China, Índia, Japão, Coréia do Sul e os membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN).
Provavelmente, o uso por Merkel da expressão "cúpula financeira mundial" não é uma mera questão de semântica. O premier britânico Gordon Brown prefere um termo diferente - um "novo Bretton Woods". O presidente Nicolas Sarkozy e outras autoridades francesas, o ministro da Economia italiano Guido Tremonti e até mesmo o presidente alemão Horst Köhler têm falado sobre um "Bretton Woods II". Evidentemente, todos eles têm em mente as duas décadas e meia de estabilidade e solidez regulatória do sistema de Bretton Woods original.
Porém, deve ficar claro que um "novo Bretton Woods" é incompatível com as realidades multipolares do mundo atual. O sistema de Bretton Woods original significou a dominação absoluta das finanças mundiais pelos EUA, tendo a Grã-Bretanha como sócia minoritária. Mesmo depois que o Governo Nixon aboliu o sistema de Bretton Woods, em 1971, o dólar estadunidense permaneceu como a moeda de reserva mundial. Depois de desacoplar o dólar do ouro, os EUA puderam expandir astronomicamente o volume de dólares em circulação em âmbito internacional. Nas décadas seguintes, esses dólares compraram riquezas reais em todo o mundo, como demonstram os crescentes déficits comerciais estadunidenses. Embora os EUA se tornassem cada vez mais endividados em relação ao resto do mundo, a sua gigantesca dívida externa era denominada em sua própria moeda. E aqui chegamos às raízes da presente crise financeira. Portanto, a nova arquitetura financeira multipolar emergente implicará no encerramento do papel do dólar como moeda de reserva global - o cerne de Bretton Woods e do sistema monetário pós-1971 de "taxas de câmbio flutuantes".
Isso explicaria por que, até agora, os EUA e o Reino Unido vinham se opondo à conferência financeira internacional com o formato "G-7 + BRIC + outros países emergentes", proposto por Sarkozy e Merkel. Porém, nos últimos dias, a posição anglo-americana parece ter sofrido uma mudança, antes da visita de Sarkozy aos EUA e ao Canadá. O significado real dessa mudança terá que esperar as eleições presidenciais estadunidenses, em 4 de novembro.
Proteção e estímulo à economia real
Nas próximas semanas, além de prosseguir com a administração da crise, a Alemanha e a Europa em geral terão que empenhar-se na proteção da economia real das conseqüências da crise financeira. Segundo fontes de alto nível no governo, estão em preparação grandes programas de investimentos públicos na Alemanha e outros países da UE. Os programas nacionais serão coordenados em escala continental, em um esforço para estabilizar e estimular as economias em todos os países do bloco europeu. Acima de tudo, segundo tais fontes, há um pleno acordo sobre o assunto dentro da Alemanha e entre a Alemanha e os demais governos da UE.
Ao mesmo tempo, a cooperação econômica com a Rússia, Ásia e América Latina deverá ser expandida e melhorada. Neste aspecto, a cúpula da ASEM terá uma grande relevância, assim como a proposta de Sarkozy para a criação de um "espaço econômico conjunto" entre a UE e a Rússia.
Em 15 de outubro, o até então ultraliberal Frankfurter Allgemeine Zeitung entrevistou o executivo-chefe de três grandes fabricantes alemães de máquinas-ferramentas. O jornal lhes perguntou sobre os seus níveis de pessimismo. As respostas foram as mesmas: eles não estavam pessimistas. Joachim Rohwedder, da Rohwedder AG, empresa líder mundial em tecnologia de automação, resumiu o pensamento de seus pares: "Nós deveríamos estar contentes com a China e os outros países emergentes, que têm ganhado tal força no mundo que a dominação do mercado estadunidense acabou. Hoje, nós somos capazes de compensar as conseqüências de uma recessão nos EUA."
Em meio às frenéticas negociações governamentais e parlamentares para a aprovação do pacote de emergência financeira, Merkel compareceu a uma conferência organizada pela Associação Alemã dos Fabricantes de Máquinas-Ferramentas (VDMA). Ali, enfatizou que o sistema financeiro deve "servir à economia real" e que o "descolamento" das finanças da economia real deve ser revertido.
Sem dúvida, vivemos tempos de rápidas mudanças.



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