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Kurt Richebächer e "modelo neo-americano de capitalismo"

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 [N.E. - Esta edição da Carta do Reno é um tributo à memória do grande economista alemão Kurt Richebächer, a cujas lúcidas análises recorremos com freqüência para o entendimento da crise financeira global em curso.]

Dias atrás, um amigo me disse que o Dr. Kurt Richebächer havia morrido em 24 de agosto último, aos 88 anos. Será que deixei de ver os obituários dos principais periódicos econômicos alemães? Provavelmente, não.

Nas últimas duas décadas, o grande economista e analista financeiro, ex-economista-chefe do Dresdner Bank e editor do boletim mensal Richebächer Letter não era muito popular entre os que lidavam com assuntos econômicos na Alemanha. Porém, a influência de Richebächer estava presente, embora de forma não muito visível - tanto na Alemanha, como nos EUA. Em meados de junho, durante uma conversa com um jovem banqueiro de investimentos de um dos principais bancos alemães, na casa dos 30 anos, ele me disse: "Você sabia que Richebächer está muito doente? Mas continua com o estado de espírito em alta, porque está vendo o castelo de cartas financeiro desmoronando nos EUA. Ele se sente justificado." O fato de que um jovem banqueiro de investimentos alemão conheça Richebächer e a sua análise econômica é, certamente, um sinal de esperança.

De fato, os acontecimentos no sistema financeiro durante as semanas imediatamente anteriores à sua morte provaram que Richebächer estava certo. Esclareçamos: Richebächer não era um "profeta do apocalipse" financeiro; qualquer fixação em alguma crise de derrocada global e terminal estava fora do seu pensamento. Nos últimos anos, eu e meu colega Lothar Komp tivemos três longas discussões com Richebächer. Ele nos disse que não prognosticava qualquer repetição da crise financeira e econômica mundial da década de 1930, mas que ocorreria uma grande crise estrutural com centro nos EUA. Esta crise centrada nos EUA teria efeitos irradiantes bastante sérios na Europa, mas, tanto na Europa como no resto do mundo, onde a economia real ainda estivesse mais ou menos intacta, a crise faria com que as pessoas recobrassem o bom senso - eventualmente, até mesmo nos EUA.

Richebächer era um apaixonado promotor do capitalismo. Para ele, era auto-evidente que um sistema econômico comunista era disfuncional. Mas o capitalismo, advertia, pode evoluir em caminhos diferentes. A "competição sistêmica" não ocorria entre o capitalismo e o socialismo, mas entre diferentes tipos de capitalismo. Richebächer fazia uma distinção entre o "capitalismo clássico" e o "capitalismo neo-americano decadente".

"A essência do capitalismo clássico é a formação de capital a longo prazo, derivada de altos níveis de poupança - com um forte sentido de responsabilidade pelas futuras gerações. Os fatores decisivos são taxas de poupança elevadas e taxas elevadas de investimentos na economia real, começando pela indústria. Altos níveis de poupança e investimentos geram crescimento econômico, lucros crescentes e rendimentos crescentes. A formação de capital físico novo é a base da riqueza e do bem-estar. Isto significa a diferença entre produção e consumo e é a única fonte de riqueza macroeconômica e de níveis de vida elevados. Construir novas fábricas e produzir novos bens de capital leva a novos empregos e receitas em alta", me disse Richebächer, em uma dessas ocasiões.

De outra forma: "Qual é o núcleo do modelo neo-americano de capitalismo desde a década de 90? São os executivos-chefes caçando freneticamente lucros rápidos e fáceis - nas bolsas de valores. Eles entram em transações financeiras e compram de volta as suas ações. Eles fazem fusões e aquisições, downsizing, reestruturações e cortes de custos. E isto se tornou possível com um público que não está mais poupando, enquanto o sistema financeiro gera crédito sem qualquer restrição. Tudo visa a especulação e o consumo. A responsabilidade dos executivos-chefes começa e termina no 'valor do acionista' de curto prazo. Isto é capitalismo decadente e degenerativo, no sentido em que a poupança e a formação/acumulação de capital, o cerne do capitalismo clássico, estão desaparecendo. Aqui, o que estamos vendo é um consumo exagerado e irrestrito à custa das futuras gerações, que herdarão um estoque desgastado de bens de capital, uma montanha de dívida externa e enormes volumes de papéis sem valor - ações e títulos. Podemos chamar isso de capitalismo 'empobreçam-seus-filhos'."

Os acerbos ataques de Richebächer ao "modelo neo-americano de capitalismo" não significavam que ele fosse anti-americano. De modo algum. O seu boletim Richebächer Letter era publicado nos EUA e a maioria dos seus leitores eram estadunidenses. Mas ele não suportava a propaganda ideológica e os logros escancarados que vinham dos EUA. Mensalmente, ele dissecava os dados econômico-financeiros estadunidenses no boletim e os resultados das suas análises eram devastadores: no nível microeconômico, muita "contabilidade criativa", em especial no tocante aos lucros corporativos; no macroeconômico, muitas fraudes estatísticas nos números oficiais - dados de produtividade, formação de capital, crescimento econômico e níveis de emprego, além de inflação real subestimada.

O resumo da avaliação que fazia sobre a economia dos EUA era o seguinte: "Desequilíbrios econômicos e excessos financeiros sem precedentes deixaram a economia e o sistema financeiro dos EUA mais vulneráveis do que nunca. Há problemas muito sérios em toda parte: no setor bancário, nos mercados de crédito, no tocante à valorização das ações, lucros corporativos, carga de endividamento de empresas e famílias, taxa de poupança negativa, o gigantesco déficit comercial e o dólar supervalorizado. As esperanças de uma 'aterrissagem suave' da economia dos EUA não têm qualquer base na realidade."

Diante de tal análise, não é de se admirar o que o ex-presidente da Reserva Federal Paul Volcker disse sobre Richebächer: "Às vezes, eu acho que o trabalho de cada presidente do Fed é tentar provar que Richebächer está errado."

O fato de que o "modelo neo-americano de capitalismo" tenha ganho tamanha influência na Europa e na Alemanha, em particular, enfurecia Richebächer. Ele desprezava os executivos-chefes alemães que se deixavam seduzir pelo modismo do "valor do acionista". Ele os rotulava de "analfabetos econômicos" e dizia que o que faziam era "absurdo" e "irresponsável". Mas ele sustentava que o estoque de capital industrial e os altos níveis de poupança ainda existentes na Alemanha dariam ao país a chance de evitar uma "profunda crise estrutural econômica e financeira", da qual dizia que os EUA não poderiam escapar.

Tem sido dito que Richebächer era um seguidor da "Escola Austríaca de Economia". Pode ser que sim, mas, durante as muitas horas de conversas com ele, só o ouvia mencionar três economistas: Wilhelm Lautenbach, Walter Stützel e John Maynard Keynes. Lautenbach e seu discípulo Stützel tinham um entendimento claro da poupança e dos investimentos como os pilares do desenvolvimento macroeconômico e, sobre esta base, entendiam o que o crédito podia (e não podia) fazer para estimular a economia. O seu pensamento econômico foi de grande importância para o ressurgimento econômico da Alemanha nas décadas de 1950-60. Quanto ao keynesianismo, Richebächer dizia que era preciso distinguir entre "o keynesianismo americano orientado para o consumo" e o "keynesianismo orientado para os investimentos da Europa continental".

Richebächer elogiava o presidente do Dresdner Bank, Jürgen Ponto, que foi assassinado em 1977. Segundo ele, Ponto era um homem com um pensamento de longo prazo e, em sua gestão, o banco financiava projetos de longo prazo - e estes projetos produziam um bom retorno para o banco.

Richebächer não era homem de ficar olhando nostalgicamente para o passado. Mas eu acho que ele confiava em que, mais cedo do que se pensa, as pessoas iriam querer conhecer mais sobre as alternativas ao "modelo neo-americano de capitalismo". Isto, porque, como dizia, "mais cedo do que se pensa, haverá uma grande fuga dos riscos" acumulados por um capitalismo deformado, no qual a economia real foi separada do sistema financeiro. E isto foi o que teve início no último verão.

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