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Os “canhões de agosto”

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Na Alemanha, como no resto da Europa, começou a sério o período de férias de verão. Até o final de agosto, a política irá se desenrolar no que os alemães chamam Sommerloch - literalmente, "buraco de verão". Todo tipo de esquisitices políticas é apresentado na mídia como "importantes acontecimentos", dos quais ninguém se lembrará em setembro.

Mas, pode-se argumentar, as duas guerras mundiais do século XX não começaram em agosto? Então, George W. Bush e Dick Cheney, imersos no completo desastre que atende pela alcunha de política externa estadunidense, não poderiam desfechar ataques aéreos e de mísseis contra o Irã, em algum momento deste verão? Alguns analistas sérios na Europa pensam que Bush/Cheney não deixarão seus cargos sem um "big bang" real. E que eles atacarão o Irã antes que a campanha presidencial estadunidense efetivamente decole, mais para o final do ano. Em sua maioria, não crêem que Israel, com a sua sólida capacidade de deterrência nuclear, seja a principal força que tem impulsionado os planos belicistas contra o Irã.

Entretanto, a maioria dos analistas estratégicos europeus acredita que Bush/Cheney não dispõem mais da força política para iniciar outra guerra, principalmente, uma cujas conseqüências deixariam longe os desastres no Iraque e no Afeganistão. Eles ressaltam a enorme energia política que foi preciso mobilizar na preparação da invasão do Iraque, entre 11 de setembro de 2001 e março de 2003. Hoje, essa energia política não está mais disponível. O Governo Bush está em frangalhos e a sua popularidade doméstica encolhe a olhos vistos. Os EUA estão quase completamente isolados na esfera internacional, com as notáveis exceções do governo da Polônia e de uma crescente lista de ex-chefes de governo, como José Maria Aznar, Silvio Berlusconi, Tony Blair e outros menos citados. A maioria dos estrategistas europeus espera que Bush et alii promovam uma mescla de sanções econômicas e operações paramilitares de desestabilização, políticas e encobertas, contra Teerã. Não obstante, tais ações agressivas não excluiriam negociações paralelas com o Irã, em esquemas bilaterais ou multilaterais.

Os tempos em que os europeus contavam com o Congresso dos EUA para fazer alguma coisa razoável ficaram muito para trás. A decisão do Senado, em 13 de julho, por 97 votos a zero, de responsabilizar o Irã pelo aumento das baixas militares estadunidenses no Iraque, é apenas o exemplo mais recente.

Os europeus contam, sim, com o Establishment dos EUA ou, pelo menos, uma facção significativa dele, que ainda é capaz de fazer avaliações duras e com base no mundo real. E atacar o Irã não oferece qualquer "saldo estratégico" - é exatamente o oposto.

Para se ter alguma idéia do pensamento desses setores do Establishment, deve-se olhar para o Grupo de Estudos Iraquianos, o debate entre Henry Kissinger, Brent Scowcroft e Zbigniew Brzezinski, promovido pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), em 14 de junho, ou ainda o componente estadunidense da "Comissão Kissinger-Primakov", que se reuniu com o presidente russo Vladimir Putin em Moscou, em 13 de julho. Tais personagens podem não ser exatamente modelos de estadistas, mas também não são propriamente aventureiros belicistas, como os "neoconservadores" que dominam a Casa Branca.

Porém, embora não seja plausível que os "canhões de agosto" venham a trovejar, na forma de mísseis de cruzeiro e bombas de precisão despejadas sobre o Irã, o que está sendo visto como uma ameaça real entre os estrategistas europeus é a perspectiva de novos ataques terroristas - na Europa e, possivelmente, na Alemanha. Por que? Porque, presentemente, existe uma bizarra "convergência de interesses" entre grupos terroristas islâmicos e o que se pode chamar o "fator Cheney" em Washington (para se ter uma idéia do que isto significa, basta dar uma olhada na lista de membros do
Comitê sobre o Perigo Presente, o mais novo think-tank dos "neocons").

No momento, o espaço de manobras políticas de Cheney encontra-se consideravelmente reduzido. Certos artigos bastante críticos a seu respeito, recentemente publicados em jornais de primeira linha do Establishment, como o Washington Post e o New York Times, sinalizam que uma parcela significativa dos estratos dirigentes estadunidenses já esgotou a paciência com o vice-presidente. Mas, o que poderia acontecer, se houver um grande ataque terrorista como o de março de 2004, em Madri? Na esteira de um tal evento, haveria uma "janela de oportunidade" para ações políticas e militares que não seriam possíveis de outra forma. Analistas europeus estão certos de que tais idéias estão sendo contempladas por Cheney e seus acólitos.

Não é novidade que ataques terroristas sejam promovidos por elementos dentro dos serviços de inteligência, como ocorreu de forma bastante documentada com a "estratégia de tensão" na Itália das décadas de 1970 e 1980. Mais freqüentemente, porém, o modus operandi é "deixar acontecer" - não detenha os terroristas quando for possível. Isto, possivelmente, se aplica aos ataques de 11 de setembro de 2001 e pode ser tentado novamente.

Em 11 de julho, o chefe do Departamento de Defesa Interna dos EUA, Michael Chertoff, declarou ter um "forte pressentimento" de que haverá um grande ataque terrorista neste verão. Em 17 de julho, foi liberada uma versão desclassificada de uma "Estimativa Nacional de Inteligência" (originalmente publicada em 21 de junho), na qual os 16 serviços de inteligência dos EUA concordam na avaliação de que os terroristas da rede Al-Qaida conseguiram se reagrupar e amplias as suas capacidades, o que aumentaria de forma significativa a ameaça de um grande ataque terrorista. Curiosamente, a avaliação aponta como alvo mais provável a Europa, e não os EUA. Para especialistas de segurança europeus, na Europa, a Alemanha seria o alvo prioritário para um ataque de "terrorismo cego".

Mas, por que grupos terroristas islâmicos estariam considerando um ataque contra alvos na Alemanha? Simples: a Alemanha detém a maior concentração de forças e instalações militares estadunidenses fora dos EUA - com exceção do Iraque. A principal rota aérea de suprimentos para as forças estadunidenses no Iraque passa pela base aérea de Ramstein, nos arredores de Kaiserslautern. Existem cerca de 200 mil membros militares e civis das Forças Armadas estadunidenses no país. Além disto, tropas alemãs estão integrando a força da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) no Afeganistão, onde os bombardeios aéreos estadunidenses e as baixas entre a população civil estão em alta. Sem falar no fato de que a Alemanha tem uma população muçulmana de três milhões de pessoas.

Embora a Alemanha tenha tido a sua cota de assassinatos terroristas, no início das décadas de 1970 e 1990, com a única exceção do "ataque da Oktoberfest" em Munique, em 1980, que matou 13 pessoas, não tem havido casos de "terrorismo cego" no país. Evidentemente, um grande ataque na Alemanha teria enormes repercussões internacionais, principalmente nos EUA.

Recentemente, o ministro do Interior Wolfgang Schaeuble pediu um draconiano reforço das medidas de segurança antiterror, referindo-se a graves ameaças terroristas contra a Alemanha. Ato contínuo, ele foi publicamente censurado pelo presidente alemão Horst Koehler, por suas propostas extremadas, que incluíam a detenção preventiva e até mesmo "assassinatos seletivos" de suspeitos de terrorismo, que, mais tarde, argumentou serem meras "questões" que precisavam ser discutidas.

Existem duas explicações, provavelmente complementares, para o "balão de ensaio" de Schaeuble. A primeira é que ele realmente espera um ataque terrorista em breve e quer se garantir contra futuras acusações de negligência. A segunda é que ele pretende replicar, "legal" e operacionalmente, o arcabouço antiterrorista estadunidense na Alemanha. Vários especialistas em segurança têm acusado Schaeuble de querer "acostumar" o público alemão com as políticas antiterror estadunidenses (ou israelenses). Como disse um deles: "Schaeuble quer colocar a lei à frente da ordem. Isto é colocar as coisas de cabeça para baixo. E é tanto perigoso como contraproducente." Porém, dado o passado nazista da Alemanha, é difícil imaginar que a "detenção preventiva" ou "assassinatos seletivos" de suspeitos de terrorismo possam vir a ser aceitos pela população alemã.

Outro grande tema do verão é a chamada "nova Guerra Fria", falatório que se intensificou após a recente decisão da Rússia de se retirar do Tratado de Forças Convencionais na Europa (conhecido pela sigla CFE). Em termos militares práticos, a iniciativa russa é irrelevante, já que Moscou não tem qualquer intenção de agrupar secretamente tropas para invadir os Estados Bálticos, a Polônia (via enclave de Kalinigrado) ou a Geórgia. Da mesma forma, o Kremlin não pretende ocupar militarmente a Ucrânia ou a Bielo-Rússia.

Por outro lado, com a suspensão do CFE, que só entrará em vigor em cinco meses, a Federação Russa enviou um forte sinal diplomático em resposta aos planos dos EUA de instalar um sistema de mísseis antibalísticos (conhecido pela sigla BMD), na Polônia e na República Checa. Embora, em termos tecnológicos, a Rússia não teria dificuldades para neutralizar tal sistema no caso de um conflito real, ele representa um "ruído" que o Kremlin não está disposto a aceitar passivamente.

Pode-se supor que o presidente Putin tenha usado a sua reunião com Bush, no retiro familiar de Kennebunkport, em 1º. de julho (na presença de Bush pai, que, juntamente com Bill Clinton, havia feito o convite para o encontro), para deixar isso claro às suas contrapartes estadunidenses. A despeito das variadas interpretações feitas sobre o evento, o fato é que a Rússia está, simplesmente, farta das sucessivas provocações baratas geopolíticas contra ela, oriundas do eixo Washington-Londres. Daí a decisão de responder na mesma medida a cada uma dessas provocações, ao mesmo tempo em que evita cuidadosamente alienar os seus parceiros europeus, que, por sua vez, estão profundamente frustrados pelas óbvias tentativas de Washington, usando qualquer pretexto imaginável, de enfiar uma cunha entre eles e Moscou. A obstinada resistência russa contra uma "independência" do Kosovo sancionada pelas Nações Unidas deve ser vista nesse contexto.

Quase ao mesmo tempo em que o presidente polonês Lech Kaczynski era recebido por Bush na Casa Branca, para reiterar o compromisso com o plano BMD em seu país, o ministro das Relações Exteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier, visitava os Estados Bálticos. Na oportunidade, ele reafirmou o tradicional apoio alemão aos três países, mas também os instou a normalizar as relações com a Rússia. Foi particularmente relevante que o governo da Estônia tenha agradecido a ele por sua discreta intermediação durante a recente crise entre Tallinn e Moscou, em torno da remoção do monumento aos soldados russos do centro da capital estoniana.

E, se certos setores esperavam que o novo presidente francês, Nicolas Sarkozy, esfriasse as relações com a Rússia, alinhando-se à agenda geopolítica de Washington e Londres, ele está se lhes revelando um grande desapontamento - devidamente ajudado pela visão estratégica de Putin: em 11 de julho, Moscou anunciou a parceria entre a estatal russa Gazprom e a gigante petrolífera francesa Total para a exploração do enorme campo de gás natural de Shtokman, no mar de Barents.

A atitude de Sarkozy frente à Rússia tem contrastado visivelmente com a do recém-empossado premier britânico Gordon Brown, que preferiu promover uma escalada de tensões com Moscou, em torno do nebuloso caso Litvinenko. Sintomaticamente, o anúncio britânico da expulsão de quatro diplomatas russos foi feito enquanto Brown se encontrava em Berlim, para a sua primeira visita oficial à chanceler Angela Merkel, que, certamente, não apreciou a gentileza.

Com a imediata resposta russa à medida, fica a incógnita sobre os efeitos de longo prazo sobre as relações entre as duas capitais. A City londrina se ressente fortemente com a cooperação política e econômica entre Berlim, Paris e Moscou, mas outros interesses empresariais britânicos, e não apenas eles, muito provavelmente, se empenharão para que tais manobras geopolíticas não saiam de controle.

Da mesma forma, no Establishment dos EUA, parece haver uma clara intenção de não deixar que as provocações geopolíticas contra Moscou fujam ao controle. Em 13 de julho, Putin se reuniu em sua casa de campo com a "Comissão Kissinger-Primakov", cujo nome oficial é "Rússia-EUA: Olhando para o Futuro" e foi criada na reunião de Kennebunkport, como um canal de bastidores para negociações estratégicas entre os dois lados. Os membros estadunidenses do grupo incluem figuras do mais alto escalão do Establishment, como o próprio Kissinger, o ex-negociador de armamentos estratégicos Thomas Graham, o ex-senador Sam Nunn, o ex-secretário do Tesouro Robert Rubin, o ex-secretário de Estado George Shultz, o executivo-chefe da Chevron, David O'Reilly, e o economista Martin Feldstein.

É significativo que os desdobramentos dessas conversas estejam sendo acompanhados com muito mais atenção na Europa do que os fatos oriundos da Casa Branca ou do Congresso.

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