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Malthus está de volta?

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image A surrada teoria malthusiana da escassez de recursos não passa de um instrumento político (www.ethanolsummit.com)

A crise mundial de alimentos, motivada pela estratosférica escalada dos preços ao longo do último ano, tem proporcionado um pretexto para uma reintrodução do desacreditado fantasma do malthusianismo no primeiro plano da política internacional. Pegando carona na alta dos preços do petróleo e nas discussões sobre o aquecimento global que antecederam a cúpula do G-8 em Hokkaido, Japão, os seguidores de Thomas Malthus têm aproveitado todas as oportunidades para tentar "reabilitar" as vetustas idéias do professor de Economia Política da Escola de Haileybury, o centro de treinamento dos altos funcionários da Companhia das Índias Orientais britânica. A motivação dos malthusianos e seus avatares ambientalistas não se prende a um surto de saudosismo, mas ao embate de idéias e conceitos que está definindo a reconfiguração da ordem mundial, após mais de três décadas de prevalência do paradigma hobbesiano-malthusiano-social darwinista que resultou na presente crise sistêmica global.

Um caso exemplar de malthusianismo agudo é o do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, que tem se empenhado ativamente em prol da consolidação da pretendida agenda de redução global do consumo de combustíveis fósseis nas próximas décadas, igualmente endossada pelo G-8. Em um artigo publicado em 3 de julho, no Washington Post e outros jornais ("Ação global para salvar o crescimento global"), o secretário proporcionou uma amostra representativa de tais argumentos.

O texto inicia com uma meia-verdade característica: "O crescimento global é o leitmotif da nossa era. A grande expansão econômica que se encontra na sua quinta década tem elevado os níveis de vida em todo o mundo e erguido bilhões de pessoas para fora da pobreza." Isto, como se fosse possível comparar o desenvolvimento logrado nas três primeiras décadas do pós-guerra com o cenário resultante da "financeirização" da economia iniciada na década de 1970. Da mesma forma, nenhuma palavra sobre o comprovado aumento das desigualdades sociais, tanto entre os países como na maioria deles.

Em seguida, o secretário escancara:

Enquanto isso, as mudanças climáticas e a degradação ambiental ameaçam o futuro do nosso planeta. O crescimento populacional e o aumento das riquezas implicam em níveis de estresse sem precedentes sobre os recursos da Terra. Malthus está novamente em voga. De repente, tudo parece estar em falta: energia, ar limpo e água potável, tudo o que nos alimenta e em que se baseiam os nossos modernos meios de vida.

Ora, como sabe qualquer observador minimamente atento do cenário mundial, os problemas alimentícios, energéticos e de poluição atmosférica e hídrica nada têm a ver com o descompasso entre população e recursos apregoado por Malthus, mas, em grande medida, com a aplicação exacerbada das políticas econômicas ultraliberais ensinadas por ele em Haileybury e que, metamorfoseadas na mainstream do pensamento econômico, justificaram a "globalização" financeira das últimas décadas. Evidentemente, não se poderia esperar qualquer concessão do secretário a esse respeito.

Em outro trecho do artigo, Ban Ki-moon explicita a agenda malthusiano-ambientalista:

Com as mudanças climáticas, da mesma forma, o desenvolvimento sustentável se destaca grandemente na solução. A maioria dos especialistas concorda em que estamos nos aproximando do fim da energia barata. As tecnologias alternativas estão entre as nossas melhores esperanças para obter energia mais limpa e acessível. Aqui, também, está em marcha uma "revolução verde"... A nossa tarefa, como líderes nacionais e internacionais, é apoiar o direcionamento e a aceleração dessa nascente transformação econômica. Necessitamos mudar o comportamento social e os padrões de consumo em todo o mundo desenvolvido. E devemos ajudar os países em desenvolvimento a "esverdear" o mais amplamente possível as suas economias, com a disseminação de tecnologias amigáveis ao clima.

Embora não as mencione, as "tecnologias alternativas" a que o secretário se refere são as favoritas dos ambientalistas - solar, eólica, geotérmica, biomassa e outras fontes de reduzida densidade de fluxo energético, muito mais adequadas para abastecimentos locais do que para grandes concentrações urbanas e industriais. Ademais, embora incluam a geração hidroelétrica entre as fontes "limpas", os ambientalistas não explicam as conseqüências potenciais de suas propostas, uma vez que três quartos da energia primária e dois terços da eletricidade hoje consumidas no planeta dependem do carvão, petróleo e gás natural (apenas cerca de 2% da eletricidade é gerada pelas fontes ditas "alternativas"). Não é difícil constatar que, salvo por alguma revolução tecnológica (como o domínio da fusão nuclear), será virtualmente impossível ampliar consideravelmente a oferta de energia a todo o setor em desenvolvimento com o recurso às "alternativas" defendidas pelo secretário e os que pensam como ele.

Curiosamente, parece que o malthusianismo começa a perder força no país e entre os círculos dos quais se originou. Um editorial da revista The Economist de 9 de junho ("Pensamentos animadores sobre população") sugere que alguns círculos do Establishment britânico podem estar repensando alguns dos cânones que têm orientado as suas políticas nos últimos séculos. O texto admite que:

Virtualmente, para cada artigo de orientação verde publicado na The Economist, pode-se esperar que inspire pelo menos uma carta argumentando que a causa básica dos vários problemas ambientais do mundo é que, simplesmente, não há lugar para os 6,7 bilhões de pessoas que nele vivem. A recente alta nos preços dos alimentos, que ocasionou protestos na Itália e motins no Haiti, voltou a atrair atenção para o assunto. Em 3 de junho, quando Ban Ki-moon disse a uma cúpula alimentícia em Roma que a produção agrícola global teria que aumentar 50% até 2030, muitos verdes consideraram privadamente se isto era possível.

As preocupações com a população remontam a Thomas Malthus... As idéias de Malthus, inovadoras quando foram publicadas [no final do século XVIII], permanecem sedutoras hoje em dia por causa da sua simplicidade... O conceito da "capacidade de suporte", a população máxima que um dado habitat pode suportar, é um dos fundamentos da ciência da ecologia. (...)

Para os editorialistas, o que os malthusianos não levam em conta é

o desenvolvimento tecnológico - especificamente, a combinação de pesticidas, melhor irrigação e novas cepas de cultivos que constituem a chamada "Revolução Verde". A tecnologia tem ampliado vastamente a produtividade agrícola, permitindo que a produção de alimentos mantenha o passo com a inusitada explosão da população global do século XX. Hoje, novos avanços, como a engenharia genética e os cultivos hidropônicos, prometem impulsos adicionais.

O parágrafo final dá uma pista sobre um possível motivo de uma tal guinada ideológica entre tais círculos das elites dirigentes do Reino Unido:

(...) O melhor de tudo é que o fator que parece se correlacionar mais fortemente com a fertilidade decrescente é o desenvolvimento econômico e, especialmente, a educação das mulheres. De fato, enquanto os ambientalistas se preocupam com uma população crescente, financistas e políticos no Ocidente se preocupam com as que estão diminuindo. Se o crescimento e o desenvolvimento globais continuarem, as preocupações com a superpopulação poderão vir a ser, em retrospecto, um fenômeno singular do século XX.

De fato, considerando que todos os países industrializados avançados têm hoje índices de fertilidade feminina abaixo da taxa de reposição da população, o envelhecimento de suas populações é um fato registrado, com as conseqüentes preocupações sobre a inevitável inviabilização dos sistemas de seguridade social e até mesmo o encolhimento dos mercados. Quem sabe?, tais considerações estejam fazendo com que pelo menos alguns daqueles veteranos candidatos à hegemonia global estejam repensando antigas convicções.

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