Coreia do Norte: mais que hora de trocar confrontação por cooperação
O novo teste nuclear realizado pela Coreia do Norte, na segunda-feira 25 de maio, pouco mais de um mês após o teste de um míssil balístico de longo alcance, ressalta uma vez mais o fracasso de qualquer estratégia de engajamento do regime de Pyongyang com base na confrontação e sanções de qualquer natureza. Assim como já havia ocorrido com o teste anterior, em outubro de 2006, está claro que o regime do "Querido Líder" Kim Jong-il não tem qualquer melindre em desafiar a comunidade internacional, aí incluídos os seus estratégicos aliados chineses, em uma orientação que coloca a força militar na primeira linha da sua estratégia de sobrevivência.
Em 2006, o então presidente George W. Bush rotulou o teste nuclear como "intolerável"; seu sucessor Barack Obama preferiu a expressão "ação temerária". Igualmente, como agora, o Conselho de Segurança das Nações Unidas se reuniu emergencialmente e condenou em termos duros a iniciativa norte-coreana. Então, como hoje, a maioria dos países membros das Nações Unidas divulgaram inócuas notas oficiais de condenação, muitas das quais já o haviam feito no mês passado por ocasião do lançamento do míssil. A principal diferença entre os dois eventos é o aparente progresso tecnológico dos norte-coreanos, que, segundo especialistas russos, japoneses e sul-coreanos, aumentaram em uma ordem de grandeza a potência do seu artefato, levando-a para a casa dos 15-20 quilotons, equivalente às bombas nucleares lançadas em 1945 sobre Hiroxima e Nagasaki. Ademais, embora um teste norte-coreano já fosse esperado após o lançamento do míssil, no início de abril, os especialistas internacionais não o esperavam antes de pelo menos alguns meses e a rapidez com que ele ocorreu foi uma grande surpresa para os serviços de inteligência, a despeito de relatos de que Pyongyang teria avisado antecipadamente os EUA e a China sobre a realização do teste.
Em um artigo publicado no Asia Times Online (26/05/2009), o jornalista Donald Kirk, que acompanha in loco os acontecimentos na Península Coreana há mais de três décadas, resume a perplexidade geral e especula sobre as motivações do "Querido Líder":
A questão foi como a Coreia do Norte ocultou todos os preparativos para o teste, sem que ninguém percebesse por observações de satélites ou relatos de inteligência de operativos no terreno, talvez desertores. Uma questão adicional é que tipo de calendário está movendo o adoentado líder norte-coreano Kim Jong-il - e quais as razões pelas quais o Norte se arrisca a perturbar tantos países.
Uma resposta imediata é que a Coreia do Norte vê o teste como um meio de forçar os EUA ao diálogo bilateral - e o reconhecimento da Coréia do Norte como uma potência nuclear plena. "O segundo teste nuclear tem o propósito de exercer uma pressão máxima sobre o governo do presidente Obama", disse Paik Hak-soon, chefe de pesquisas sobre a Coreia do Norte do Instituto Sejong de Seul. "O objetivo é forçá-lo a fazer a escolha crítica: entender o caráter político do problema." Se Obama "não levar a coisa suficientemente a sério", disse Paik, "a Coreia do Norte optará por permanecer uma potência nuclear". (...)
O teste também é visto como um reflexo de uma luta pelo poder dentro da Coreia do Norte, com Kim Jong-il mostrando aos seus generais que ainda está no comando. Kim quer abrir caminho para que o seu terceiro e mais jovem filho, ainda na casa dos 20, o suceda. Alguns analistas acreditam que a luta interna pela sucessão de Kim Jong-il foi o fator majoritário por trás da velocidade com que o teste foi efetuado.
Por ocasião do teste nuclear de 2006, a Resenha Estratégica, publicação do Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa), descreveu assim o contexto do evento, na edição de 4-11/10/2006:
Á parte o caráter paranóide e retrógrado do regime de Pyongyang, é forçoso reconhecer que esse desfecho foi o resultado direto do abandono da opção pela cooperação por parte das lideranças estadunidenses, ainda no Governo Clinton, trocada por uma perigosa - e, afinal, inócua - atitude de intransigência e hostilidade. Como se sabe, em 1994, após longas negociações, os dois países chegaram a um acordo bastante satisfatório, pelo qual os coreanos se comprometiam a congelar o seu programa de produção de plutônio, em troca do fornecimento pelos EUA de dois reatores nucleares de água leve, combustíveis e a suspensão das sanções estadunidenses ao país impostas desde o final da Guerra da Coreia, em 1953. Se Washington tivesse cumprido a sua parte, além de beneficiar a sua própria indústria nuclear necessitada de uma revitalização, sem falar em vários outros setores da sua iniciativa privada, o acordo teria proporcionado um valioso impulso para a política de aproximação com o Norte, posta em prática pela Coreia do Sul, o que representaria um poderoso incentivo para a longamente esperada distensão na última fronteira da Guerra Fria e a normalização das relações políticas na Península Coreana.
Possivelmente, assim como ocorreu com a implosão do bloco socialista encabeçado pela União Soviética, uma normalização do intercâmbio da Coreia do Norte com o restante do planeta e a inevitável exposição das suas população aos benefícios proporcionados pelas economias modernas, acabaria por debilitar internamente e, em última análise, inviabilizar o regime do "Grande Líder" Kim Jong-il em um futuro não muito remoto.
Também no Asia Times Online, o cientista político Kim Myong-Chol, japonês de origem coreana e considerado uma espécie de porta-voz não-oficial de Pyongyang, faz considerações semelhantes sobre o novo teste, em um artigo intitulado "Kim Jong-il muda para o Plano B". Diz ele:
A mudança para o Plano B é o resultado de uma revisão crítica dos três primeiros meses do governo de Barack Obama e dos 16 anos dos dois governos anteriores de Bill Clinton e George W. Bush. O Plano A estabelecia que a RPDC [República Popular Democrática da Coreia, nome oficial do país] considerasse a exploração de um atalho para uma independência, paz e prosperidade reforçadas, por meio de um entendimento com os EUA. O Plano A obrigava o governo de Kim Jong-il a negociar o abandono do seu programa de armas nucleares como parte de uma desnuclearização verificável de toda a Península Coreana, em troca da decisão estratégica de Washington de coexistir pacificamente com Pyongyang. O Plano A assumia que os EUA decidiriam deixar para trás a sua política de hostilidade frente à RPDC, concluíssem um tratado de paz com a Coreia do Norte e se comprometessem de uma forma verificável que não a atacariam com armas nucleares e convencionais. Ele também assumia que os EUA estabeleceriam relações plenas com a Coreia do Norte, mostrariam respeito pela sua soberania e independência, suspenderiam as sanções impostas a ela e lhe proporcionariam óleo combustível e reatores nucleares de água leve... A despeito do Plano A, os EUA permaneceram hostis à Coreia do Norte enquanto ela se inclinava ao seu desarmamento nuclear, pintando-a como um Estado criminoso e ameaçando derrubar o seu regime. (...)
O Plano B estabelece que a RPDC siga adiante como um Estado plenamente dotado de armas nucleares, com uma política de opção militar em primeiro lugar e, em seguida, crescendo para converter-se num país poderoso e próspero. Ele coloca em segundo plano a política de buscar a reconciliação com os ardilosos EUA, uma superpotência desamparada com uma economia estropiada, que está perdendo guerras no Iraque e no Afeganistão.
Para concluir, retomamos o nosso texto de 2006, cujas considerações se mantêm plenamente atuais - o que sugere que as forças hegemônicas que controlam os principais centros de poder no Hemisfério Norte se aferram à preservação de um modus vivendi que o enfoque confrontacionista não consegue mais sustentar.
"Agora, o impasse é evidente. Dificilmente, sanções econômicas e mais isolamento político impostos a um regime quase autista irão dissuadi-lo de prosseguir com a ampliação do seu arsenal, além de impor mais sofrimento à depauperada população norte-coreana. Além disso, como advertiram vários comentaristas graduados do próprio Establishment estadunidense e enfatizaram algumas capitais estratégicas, como Moscou e Pequim, qualquer opção militar está fora de consideração - até mesmo pela óbvia capacidade de deterrência obtida por Pyongyang. Diante dessa realidade, talvez seja a hora de pelo menos alguma capital relevante do planeta tomar a iniciativa de propor uma retomada da abordagem cooperativa para o imbróglio, em uma escala ainda mais ampla que a proposta na década passada, deixando de lado ameaças cujo resultado mais provável será uma radicalização ainda maior por um regime que se recusa a aceitar a evolução da dinâmica histórica (obsessão que, de resto, também é válida para os seus principais algozes).
"Hoje, mais do que nunca, o mundo precisa de um novo arranjo financeiro, um 'New Deal global', inspirado nas lições de Franklin Roosevelt para começar a retirar os EUA do atoleiro da Grande Depressão da década de 1930. Da mesma forma, faz falta a sua inspiração para a industrialização e modernização da economia mundial no pós-guerra, em contraposição ao que chamava 'métodos coloniais britânicos do século XVIII' (como disse diretamente a Winston Churchill). Inspiração que, embora enfraquecida, ainda se mostrou no programa Átomos para a Paz nas décadas de 1950-60, com o qual os EUA proporcionaram treinamento de pessoal e equipamentos, inclusive reatores de pesquisa, para numerosos países do mundo, em um período no qual a energia nuclear ainda era vista com grande otimismo (antes do surgimento do movimento ambientalista).
"As alternativas são claras. Se a disposição de confronto e punição prevalecer sobre um novo e sério impulso para a cooperação com Pyongyang, os riscos de retrocesso e insegurança não se limitarão à Península Coreana, mas se estenderão a todo o mundo. Por isso, será fundamental uma mudança de mentalidade, tanto entre os governos como entre formadores de opinião e os setores educados das próprias sociedades."



del.icio.us
Digg
Comentários (0 postado):
Poste seu comentário