Patriarca Cirilo: "intelectual e teólogo que não foge de um debate verdadeiro"
P - Em 5 de dezembro último, faleceu o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Alexei II. Como seu sucessor, foi eleito o metropolitano de Smolensk e Kalinigrado, Cirilo. Em 1º. de fevereiro, Cirilo tomou posse diante de 7 mil fiéis, além de políticos e representantes estrangeiros, inclusive os cardeais Walter Kasper e Roger Etchegaray. O senhor também esteve presente, como integrante de uma delegação da ACN, assim como já havia comparecido aos funerais de Alexei II. Quem é o novo patriarca e qual deverá ser a sua orientação?
R - Para julgá-lo, teremos que dar-lhe tempo. Até a sua eleição como patriarca, ele dirigia o Departamento de Política Externa da Igreja Ortodoxa Russa. Nesta função, ele teve a possibilidade de viajar a vários países do mundo como representante dos interesses da Igreja Ortodoxa Russa. Em sua nova função como patriarca, ele se concentrará mais nas tarefas domésticas e viajará pelo país. Para os intelectuais, a eleição do novo patriarca abre uma boa perspectiva. O patriarca Cirilo é um sacerdote na terceira geração. O bisavô e o pai dele foram sacerdotes e ambos foram defensores fervorosos dos direitos e da liberdade da Igreja Ortodoxa Russa, motivo pelo qual ambos foram presos. Ele é muito inteligente, é um filósofo importante e um teólogo.
Deixe-me usar uma imagem: se você olhar para os hierarcas da Igreja Ortodoxa Russa, verá muitas barbas; olhando para Cirilo, você pode dizer "não faço a barba, faço filosofia". Ele é um intelectual, que não foge de um debate honesto e busca o contato direto com o povo. Em seu futuro trabalho, ele dará ênfase ao trabalho com a juventude. Cirilo tem desempenhado um papel importante na elaboração da primeira Doutrina Social da Igreja Ortodoxa Russa, que foi apresentada no ano 2000 e traz claramente a letra de Cirilo.
P - Como deverá ser a futura relação entre a Igreja e o Estado, em particular, entre o presidente Dmitri Medvedev, o primeiro-ministro Vladimir Putin e o novo patriarca?
R - Como se pode ver durante o funeral do patriarca Alexei II e a cerimônia de entronação do patriarca Cirilo, a relação é muito construtiva. Isto pode ser visto na maneira como o presidente Medvedev e o novo patriarca se aproximaram. Eu penso que existem muitos interesses comuns e o Estado vê claramente o papel e a função que a Igreja tem na sociedade e no futuro do país. Naturalmente, haverá uma separação entre a Igreja e o Estado, mas eu acho que existem as pré-condições para uma cooperação construtiva no futuro.
P - O novo patriarca irá buscar discussões com os intelectuais?
R - Sim, certamente. Ele foi eleito sucessor de Alexei II por uma esmagadora maioria, acima de 70%. Isto significa que a maioria da Igreja o apóia e que essa foi uma decisão em favor de um certo rumo.
P - Alguns jornais comentam que o novo patriarca irá enfatizar o princípio da "união na diversidade", com respeito às outras igrejas ortodoxas. Como deverá ser a relação entre a Igreja Ortodoxa Russa e o Vaticano? O papa Bento XVI cumprimentou o novo patriarca Cirilo e lhe enviou uma carta pessoal por intermédio do cardeal Walter Kasper. Em um discurso recente diante de uma delegação de bispos católicos do Leste Europeu, Bento XVI se referiu ao diálogo com a Igreja Ortodoxa Russa. Ele disse que é importante "que os cristãos respondam juntos, de uma maneira comum, aos grandes desafios culturais e éticos do nosso tempo. Isto se refere à dignidade do homem e aos direitos inalienáveis do homem, a defesa da vida em todas as fases, a proteção da família e outras questões econômicas e sociais urgentes".
R - Sim, de fato, houve reações muito positivas por parte do Vaticano, quando Cirilo foi eleito. Recordemos que o novo patriarca já se reuniu três vezes com o papa Bento XVI; ele esteve no funeral do papa João Paulo II e na posse de Bento XVI.
Se falamos em "sinais de diálogo", devemos mencionar o fato de que o livro do cardeal Joseph Ratzinger Introdução ao cristianismo foi traduzido para o russo anos atrás, com um prefácio de Cirilo, que era chefe do Departamento de Política Externa da Igreja Ortodoxa Russa. Recentemente, o cardeal Tarcisio Bertone publicou um livro chamado A ética do Bem Comum na doutrina da Igreja (Libreria Editrice Vaticana, 2008). Novamente, o prefácio do livro foi escrito pelo então metropolitano Cirilo. Estes são sinais, e eu acho que o diálogo continuar´. O patriarca Cirilo enfocará a sua atenção na questão dos "valores cristãos comuns" e da presença cristã na Europa.
P - Em uma entrevista que fiz em Roma, em maio do ano passado, um dos principais representantes diplomáticos da Igreja Ortodoxa Russa, arcipreste Vsevolod Chaplin, enfatizou que no campo da doutrina social, ambas as igrejas têm bastante em comum e que isto poderia servir como base para um diálogo construtivo no futuro.
R - Essa questão precisa ser aprofundada. Eu penso em questões como a dignidade do homem e da vida. O novo patriarca, que é um teólogo internacionalmente reconhecido, enfocará mais fortemente o tema das raízes cristãs da Europa.
P - O sr. diz que o patriarca Cirilo é um grande intelectual. Os livros dele contêm idéias que atraem a juventude?
R - Eu acho que sim. O patriarca Cirilo não foge do debate com o público. Ele se aproxima ativamente do povo. Ele teu o seu próprio programa de televisão, que vai ao ar todos os sábados de manhã e tem uma boa audiência, apesar do horário.
P - Em novembro do ano passado, o sr. esteve em viagem na Rússia, como parte de uma delegação da ACN. Na presença do núncio apostólico, o sr. foi homenageado pessoalmente pelo metropolitano Cirilo com a Ordem de São Danilo. Qual foi o motivo para tal distinção?
R - É uma homenagem muito alta dada pela Igreja Ortodoxa Russa. Eu não a vejo tanto como um reconhecimento pessoal, mas pelo trabalho da nossa organização, a ACN. É uma expressão de confiança.



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