Newsletter
Email:
Início | Assuntos/Asuntos estratégicos | Eurásia | Terror em Mumbai: "estratégia de tensão" e "terrorismo geopolítico"

Terror em Mumbai: "estratégia de tensão" e "terrorismo geopolítico"

Tamanho da fonte: Decrease font Enlarge font
A grande maioria dos ataques terroristas ocorridos em todo o mundo desde 11 de setembro de 2001 tem sido apresentada como episódios de um "choque de civilizações", um embate entre a "modernidade" ocidental e o fundamentalismo religioso de sociedades islâmicas que rejeitam os cânones civilizatórios que teriam comprovado o seu valor com a vitória na Guerra Fria. Assim, desde os eventos em Nova York e Washington, os ataques em Bali, Mumbai (vários), Jakarta, Madri, Londres, Beslan e outros, têm sido atribuídos ao "radicalismo islâmico", impressão reforçada pela eventual captura de suspeitos que, na maioria das vezes, professam a fé islâmica.

Entretanto, a despeito dessa aparente simplicidade, o fenômeno é bem mais complexo. Na verdade, a maior parte das ações violentas atribuídas ao fanatismo islâmico, mesmo quando envolve a participação direta de terroristas muçulmanos, se insere no contexto de uma geopolítica de terror - uma "estratégia de tensão" - que tem proporcionado o pretexto para a implementação de uma série de medidas excepcionais. Com elas, se pretende manter a hegemonia global e a sobrevida dos privilégios de uma oligarquia supranacional, ameaçados pela crise sistêmica provocada pela "globalização". Efetivamente, o terrorismo tem proporcionado a adrenalina necessária às ações de grupos como os "neoconservadores" - que dominaram a política de Washington durante quase todo o governo de George W. Bush - e a sua teia de relações obscuras com altos interesses econômicos e do complexo industrial-militar estadunidense e seus apêndices.

Por exemplo, pouco antes da eleição presidencial nos EUA, o renomado ideólogo do Establishment Joseph Nye, autor do conceito de que a manutenção do poder é um equilíbrio entre o uso de "poder duro" (militar) e "poder suave" (diplomacia), escreveu um artigo que denota uma disputa de vida ou morte pela reservação do seu sistema hegemônico global, de caráter neocolonial. Intitulado "A surpresa de outubro", o texto foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo de 12 de novembro, e afirma que o único tema que poderia mudar a balança a favor do candidato republicano John McCain, para evitar o triunfo de Barack Obama, seria um ato terrorista de grande envergadura, por meio do qual o aspecto da segurança poderia determinar a tendência eleitoral. De outra forma, disse, os temas dominantes seriam a economia e os aspectos sociais em que os democratas são mais fortes.

Embora não se possa afirmar que os grupos terroristas sejam controlados diretamente por esse ou aquele governo, eles operam em uma obscura e complexa zona de sombras envolvendo redes de inteligência oficiais e oficiosas, organizações criminosas e grupos de militantes reais, costumeiramente infiltrados por agências de inteligência, com estreitos vínculos ao submundo das redes do narcotráfico internacional.

Um caso extremo é o da ISI (Inter-Services Intelligence) paquistanesa, que, além de suas funções de inteligência do Estado, representa um autêntico poder paralelo, com facções e subfacções internas que apóiam às claras grupos extremistas contra os quais o governo de Islamabad está oficialmente em luta. Outras facções da ISI têm conhecidas ligações com outros serviços de inteligência de alcance global, como a CIA estadunidense, o MI-6 britânico e o Mossad israelense. Juntamente com a cúpula do Exército, a ISI representa o verdadeiro "poder por trás do trono" no Paquistão. O fato de que grupos terroristas usam o território paquistanês para treinamento, e que vários deles têm vínculos diversos com o Reino Unido, não é novidade, sendo conhecido pelo menos desde a década de 1980, com a formação dos grupos de mujahidin que combatiam a União Soviética e, depois, deram origem à rede Al-Qaida.

Um desses grupos extremistas "protegido" pela agência é o Lashkar-i-Taiba (Exército dos Misericordiosos), baseado no lado paquistanês da Cachemira e que tem perpetrado uma série de ataques contra a Índia. Entretanto, o grupo - que, como todas as entidades terroristas, costuma assumir as suas ações - negou qualquer envolvimento no ataque a Mumbai, contrariando a afirmativa do único terrorista sobrevivente do ataque, de que teria sido treinado pelo LiT. Para aumentar a confusão, fotografias de alguns dos terroristas os mostram exibindo adornos usados por extremistas hindus e o próprio governo de Nova Délhi afirmou que os terroristas foram treinados no Paquistão, mas por um ex-militar indiano. Sintomaticamente, em setembro último, um alto oficial da inteligência militar indiana foi detido e confessou a sua participação em atentados cometidos com a intenção de incriminar militantes islâmicos.

Não obstante, é pouco provável que o Establishment paquistanês em conjunto fizesse vista grossa para uma tal operação. Como afirma o analista militar da agência russa Novosti, Ilya Kramnik (2/12/2008):

Olhando para os desdobramentos, podemos ver que o que menos precisa o "primeiro suspeito", o Paquistão, é de um envolvimento [no caso]. O país se encontra embrulhado em um conflito doméstico estreitamente ligado à operação dos EUA e seus aliados no Afeganistão. Nessas condições, arriscar-se a um bastante provável conflito militar com a Índia, apoiando um ataque desses, seria suicídio para quaisquer forças paquistanesas. (...)

Nem o Paquistão, nem a Índia, podem se beneficiar de ataques terroristas mútuos ou de uma escalada do conflito, por causa de possíveis resultados trágicos. O mais provável é que os dois lados unam forças para tentar descobrir aqueles que lideraram os terroristas de fora e os treinaram, bem como os mentores da ação.

Kramnik conclui sua análise com uma instigante possibilidade:

Quem poderia ter planejado esse ataque e poderia ganhar com ele? Primeiramente, não se pode descartar a natureza audaciosa da própria organização terrorista, que pode não ser controlada e não prestar contas a ninguém. Entretanto, não é impossível que alguma força externa que esteja procurando desestabilizar a região e uma possível escalada do conflito entre a Índia e o Paquistão seja o pagador e planejador do ataque.

Entretanto, os indícios sugerem que podemos encontrar-nos no limiar de uma nova fase de terrorismo. Comentando os ataques, o arguto jurista e analista sul-africano Saber Ahmed Jazbhay escreve, no sítio Media Monitors Network ("Quem apertou o botão repetir da História?", 1º./12/2008):

"Nenhum jornal observou ou comentou um fato extraordinário, o de que aqueles jovens com mochilas não fizeram quaisquer exigências, como fariam terroristas, exceto por uma duvidosa carta divulgada em nome de uma organização nebulosa e até agora desconhecida, os 'Mujahidin do Decã', que suspeito ser apenas uma cobertura para algo maior e mais sinistro, exigindo mais 'respeito pelos muçulmanos'. Será que eles tinham problemas 'com o sistema' e se tornaram buchas de canhão para aqueles cuja agenda é semear a instabilidade e o terror...? Pensem sobre isso.

"Aqueles que executaram a operação com precisão militar não eram, certamente, amadores, mas terroristas profissionais altamente treinados e motivados, que estavam preparados para morrer pela sua causa e que suspeito serem parte de uma agenda geopolítica maior. E a natureza e a escala operacionais da sua empresa sugerem que eles não eram zelotas religiosos, pois em momento algum eles foram observados cantando ou demonstrando qualquer fervor religioso, como aqueles que, alegadamente, lançaram os seus aviões seqüestrados no World Trade Center."

Adicionar no: Add to your del.icio.us del.icio.us | Digg this story Digg

Comentários (0 postado):

Poste seu comentário comment

  • email Enviar para amigo
  • print Versão para impressão
  • Plain text Versão texto