Aliança eurasiática e “abalos tectônicos” globais
A formação de uma ampla aliança eurasiática está em marcha, no contexto de uma série de dramáticas mudanças no cenário mundial, que deverão ocorrer em uma escala de meses, em decorrência do declínio da capacidade de influência política, militar e econômica dos EUA. A avaliação é do estrategista estadunidense W. Joseph Stroupe, que a divulgou no sítio GeoStrategy Map e no Asia Times de 19 de agosto.
Segundo ele, "um crescente vácuo de poder resultante do declínio econômico, diplomático e militar dos EUA, combinado com uma intensificação da oposição à sua política externa crescentemente militarizada e unilateral, estão alimentando um realinhamento disseminado e acelerado de Estados da região eurasiática, onde tais Estados buscam, de forma crescente, um curso de maior independência dos EUA e um alinhamento mais próximo com seus parceiros eurasiáticos". O processo inclui uma "cooperação que está se aprofundando continuamente, nas esferas econômica, diplomática e até militar, entre a União Européia, a Rússia, os Estados da Ásia Central, a Índia, a China, o Sudeste Asiático, o Japão e as Coréias. Para todos os atores na região eurasiática, as possibilidades são muitas, grandes e bastante excitantes".
Para Stroupe, a Rússia deve desempenhar o papel pivotal dessa aliança, pelo fato de ser a única nação realmente eurasiática. "Sua geografia abre muitas possibilidades realistas e práticas para um intercâmbio econômico muito mais profundo e lucrativo entre todos os parceiros potenciais ao longo da região eurasiática. A longamente desejada criação da chamada Rota da Seda, com rodovias, ferrovias e outros eixos de infra-estrutura, para efetuar diversas conexões entre todas as nações situadas entre a China e a Europa Ocidental, já está bem avançada", afirma.
Stroupe diz que esse processo é uma conseqüência do declínio dos EUA, que "não podem mais ditar e controlar os eventos globais e regionais como antes... A aura da virtual onipotência dos EUA, apoiada pelo seu poderio militar inigualável, foi severamente golpeada e está em colapso. Está à vista de todo o mundo a incapacidade dos militares da última superpotência em subjugar e controlar efetivamente os fatos pós-invasão em duas potências pequenas e relativamente insignificantes, o Iraque e o Afeganistão".
A percepção e a realidade do declínio militar dos EUA está proporcionando a várias nações uma reconsideração sobre a conveniência de manter ou formar acordos e alianças militares com Washington, além de incentivar outras a procurar obter sistemas de armas e adotar estratégias para moderar ou neutralizar a influência militar estadunidense em suas regiões, considera Stroupe.
Ademais, afirma, a instabilidade econômica dos EUA está levando as nações eurasiáticas a considerar seriamente o que fazer no caso de um colapso do dólar: "Na atmosfera criada pelo declínio econômico dos EUA, a Europa e a Ásia estão buscando solidificar as suas próprias condições econômicas, de forma significativa e intencionalmente independente da economia estadunidense."
Um aspecto crucial dessa cooperação é a busca de segurança energética, que gira em torno da cooperação com a Rússia e os países da Ásia Central. Para Stroupe, esta tendência deverá se acelerar no futuro imediato, tendo no petróleo um importante "lubrificante" para a consolidação da aliança eurasiática.
Inspirando-se na geologia para avaliar o cenário global, Stroupe adverte que "o sistema internacional está sendo efetivamente reordenado de forma tal que facilita a ocorrência futura de abalos tectônicos maciços... as interconexões básicas entre placas tectônicas figuradas estão sendo enfraquecidas e reorientadas, e enormes pressões para mudanças maciças estão se acumulando firmemente sob a superfície". Porém, diz, será necessário "um evento catalisador ou uma série de eventos catalisadores", para abalar tais interconexões básicas remanescentes, de modo a permitir a reorientação global. Entre as crises que poderão deflagrar tal terremoto, ele alinha os eventos na Península Coreana, o confronto China-Taiwan, Iraque, Irã e o restante do Oriente Médio: "Qualquer um deles tem, definitivamente, o potencial para criar um terremoto de proporções suficientes para liberar todas as forças de mudança subsuperficiais acumuladas. Há até mesmo a possibilidade distinta de que uma região possa explodir em crise e, rapidamente, atrair as demais, uma a uma, a um vórtex de crise e distúrbios."
O estrategista finaliza advertindo que "o intervalo de tempo para a ocorrência desses maciços abalos tectônicos deve ser medido em meses, em vez de anos. Na reordenação econômica e geopolítica global, como centro de poder, a vindoura aliança eurasiática será, efetivamente, um fator formidável".



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