Um "Plano Marshall" para o Oriente Médio
15 de novembro (MSIa) - Essas e outras manifestações de próceres do Establishment de Washington mostram que os "realistas" estão cientes da inviabilidade do acalentado projeto de dominação dos recursos energéticos da vasta região que se estende do Oriente Médio à Ásia Central, por meio de intervenções políticas e militares para promover a "democracia", o estabelecimento de uma rede de bases militares avançadas, com maior ou menor presença de efetivos das Forças Armadas estadunidenses, e uma aliança inquestionável com Israel. Projeto quanto ao qual havia pouca discordância entre as facções do Establishment, exceto no tocante à forma de consolidá-lo. Entretanto, os catastróficos desdobramentos das operações militares no Afeganistão e no Iraque, a humilhante derrota militar de Israel frente ao Hisbolá, a obstinação do Irã em prosseguir com o seu programa nuclear e, agora, o revés político de Bush e seu grupo, mudaram inteiramente o panorama e criaram um impasse que, definitivamente, não poderá ser superado com iniciativas do tipo "negócios como sempre", que impliquem em imposições hegemônicas ostensivas ou disfarçadas. Um exemplo destas é a sugestão do ex-secretário de Estado Henry Kissinger para uma redistribuição de áreas de influência entre os EUA e a Federação Russa, que se encarregaria de "tomar conta" do Irã.
Embora nenhum integrante das elites dirigentes estadunidenses tenha até agora dado o primeiro passo nessa direção, é evidente que a substituição da confrontação pela cooperação representa a melhor alternativa para começar a resolver os impasses estratégicos no Oriente Médio e, ao mesmo tempo, o acesso dos EUA aos recursos energéticos da região. A todas as luzes, será preciso retomar o impulso anticolonialista que Franklin Roosevelt pretendia consolidar após a II Guerra Mundial, o qual foi abortado com a promoção da Guerra Fria pelos círculos oligárquicos anglo-americanos mais empedernidos. Nas últimas décadas, na ausência de um impulso real de progresso, a propensão legítima dos povos de se libertar de quaisquer injunções hegemônicas externas tem emergido sob formas ostensivas e radicais de segregação étnica, religiosa e de cunho racista, que têm ensangüentado todo o Oriente Médio.
Para superar esse imbróglio, será necessário nada menos que o estabelecimento de um "Plano Marshall" para a região, o qual iria requerer a cooperação entre todos os povos que a habitam para um esforço sinergético de desenvolvimento socioeconômico. Embora possa hoje parecer utópica, tal proposta proporcionaria uma eficiente válvula de escape para as tensões regionais, reduzindo drasticamente o apelo das formas violentas de manifestações de insatisfação, principalmente entre os jovens palestinos e de países árabes infestados pelo desemprego e a falta de perspectivas de futuro e, conseqüentemente, oferecendo a Israel uma garantia de segurança e paz muito mais efetiva do que a ilusória proteção de muros ou mesmo das suas poderosas - mas não onipotentes - Forças Armadas.
Ao mesmo tempo, Israel poderia aportar a tal esforço a contribuição vital da sua capacidade científico-tecnológica-industrial, de longe a mais avançada da região, além de se beneficiar de uma redução do seu enorme orçamento militar (proporcionalmente, o maior do mundo) e do redirecionamento destes recursos financeiros para finalidades produtivas.
Quanto ao financiamento de um tal programa, uma reduzida fração dos 350 bilhões de dólares até agora enterrados pelos EUA no Iraque (apenas em custos diretos) poderia dar a partida um processo que se pagaria em poucos anos, principalmente, com a mais que provável participação de outros atores, como a União Européia, a China, a Federação Russa e outros.
Talvez seja uma ironia da História que George W. Bush e seus sequazes tenham sido escalados para colocar um ponto final em uma era dinástica de hegemonia estadunidense. Desafortunadamente, ainda não são muitos os que vislumbram um papel diferente e positivo para os EUA na reconfiguração da ordem mundial que se encontra em marcha acelerada. O Oriente Médio pode ser um campo de provas para esse recomeço



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