Irã: Establishment resiste ao suicídio
30 de agosto (MSIa) - Enquanto Israel lambe as profundas feridas do contundente revés experimentado no Líbano, influentes setores do Establishment anglo-americano se empenham para evitar uma catástrofe ainda maior no Oriente Médio, que resultaria de um ataque militar ao Irã, o qual os "neoconservadores" de Washington e seus comparsas em Tel Aviv insistem em não retirar da mesa. Na quinta-feira 31 de agosto, vence o prazo estabelecido pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas para que o Irã encerrasse as suas atividades de enriquecimento de urânio. Como Teerã já afirmou oficialmente que as "negociações sérias" para as quais se diz disposta não incluem a exigência, os "neocons" e seus sócios israelenses tendem a se tornar ainda mais agressivos em suas ameaças. Não obstante, a oposição contra tal agenda é cada vez mais ativa, em Washington e Londres, com importantes apoios vindos de Paris e Moscou.
Em 17 de agosto, um grupo de 22 oficiais-generais da reserva, estrategistas e ex-diplomatas estadunidenses divulgou uma carta aberta ao presidente George W. Bush, rechaçando qualquer ação militar e instando-o a buscar uma solução diplomática para o contencioso nuclear com o Irã. Encabeçada pelo general dos Fuzileiros Navais Joseph Hoar, que comandou as tropas dos EUA no Golfo Pérsico após a guerra de 1991, e o ex-diretor de Política de Planejamento do Departamento de Estado, Morton Halperin (Governo Clinton), a carta propõe o estabelecimento de "negociações diretas com o Irã sem pré-condições" e enfatiza que "a presente crise deve ser resolvida pela diplomacia, e não pela ação militar".
Em entrevistas posteriores, o general Hoar criticou também o apoio estadunidense incondicional às ações de Israel no Líbano e enfatizou que os EUA não têm qualquer capacidade de efetuar operações terrestres contra o Irã, acrescentando que, como se sabe desde a II Guerra Mundial e Israel constatou a duras penas, o poderio aéreo é ineficaz em tais casos. "Nunca estivemos em uma posição tão desvantajosa no tocante a golpear um oponente potencial", ressaltou.
A proposta de negociações diretas com Teerã vem sendo discutida há meses entre círculos de política exterior estadunidenses, tendo como um de seus principais proponentes o ex-conselheiro de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski (Governo Carter).
Possivelmente, a influência desses setores se fez sentir na decisão do Departamento de Estado de conceder um visto de entrada nos EUA ao ex-presidente iraniano Mohammed Khatami, oficialmente, para participar de um congresso ecumênico. Embora não estejam previstos contatos oficiais com funcionários do governo, tal oportunidade para o estabelecimento de contatos diretos com uma das mais importantes lideranças moderadas iranianas não deverá ser desperdiçada. O próprio Carter estaria diretamente envolvido na inciativa.
Ao mesmo tempo, o governo da Rússia, por intermédio do ministro da Defesa Sergei Ivanov, se manifestou contrário à adoção de sanções econômicas contra o Irã. A posição francesa foi explicitada pelo chanceler Philippe Douste-Blazy, afirmando a intenção de "evitar a escalada do conflito no mundo islâmico e com o Irã", enquanto reconhecia o país como um "ator importante no Oriente Médio".
Por outro lado, a mais contundente condenação das políticas "neocons" veio do Real Instituto de Assuntos Internacionais (RIIA) londrino, mais conhecido como Chatham House. No último dia 23, o mais tradicional núcleo do Establishment anglo-americano divulgou o relatório "Irã, seus vizinhos e as crises regionais", o qual reconhece que "a influência do Irã no Iraque superou a dos EUA, e o país está rivalizando crescentemente com os EUA como o principal ator na encruzilhada entre o Oriente Médio e a Ásia".
Escrito por 18 especialistas britânicos em assuntos do Oriente Médio e Eurásia, o estudo tem como suas principais conclusões:
* A "guerra ao terror" removeu os regimes do talibã (Afeganistão) e de Saddam Hussein (Iraque), os dois principais rivais regionais do Irã, além de reforçar a sua influência regional.
* O fracasso de Israel em derrotar o Hisbolá reforçou a posição do Irã como o principal ponto focal contra as políticas conduzidas pelos EUA.
* Se for seriamente ameaçado, o Irã tem o potencial para inflamar ainda mais toda a região.
* Um ataque militar patrocinado (sic) pelos EUA seria devastador para o Irã e seus efeitos se estenderiam além de toda a região do Golfo Pérsico.
Resta ver se a influência de tais grupos nos dois lados do Atlântico será suficiente para neutralizar a agenda suicida dos "neocons".



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