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EUA: quem são os “rebeldes do chá”?

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Desde o início de 2009, um novo movimento político tem agitado os EUA, com ruidosas manifestações públicas contra os pacotes de estímulo concedidos aos grandes bancos, novos impostos, o “grande governo” e o descumprimento das promessas políticas feitas pelo presidente Barack Obama. O movimento se autointitula Tea Party, ou Festa do Chá, em referência à chamada Festa do Chá de Boston de 1773, episódio em que cidadãos enraivecidos com os impostos cobrados pelo governo colonial britânico sobre o produto atiraram ao mar a carga de chá de três navios ancorados no porto da cidade. Até agora, o movimento não havia atraído a atenção da mídia de fora dos EUA, mas a realização da sua primeira convenção nacional, na semana passada, começou a mudar este fato.

 

Realizada em Nashville, Tennessee, a convenção do Tea Party proporcionou uma oportunidade para que as propostas do movimento fossem melhor conhecidas. E o que se viu ficou longe de entusiasmar. Ao contrário, misturada com causas louváveis, como a defesa dos valores familiares e uma certa rejeição ao rentismo, está a velha propensão ao excepcionalismo estadunidense, a noção de que o país representa o pináculo da Humanidade civilizada e, por conseguinte, teria a “missão divina” de impor seus valores ao resto do mundo.

 

Essa visão sectária ficou evidenciada no discurso de uma das estrelas da convenção, o ex-deputado e ex-pré-candidato presidencial republicano Tom Tancredo, que sentenciou: “Não é verdade que todas as culturas são iguais. Algumas são melhores. A nossa é a melhor de todas (Folha de S. Paulo, 6/02/2010).”

 

Tancredo também propôs a reintrodução de medidas como “testes de alfabetização cívica”, como os empregados décadas atrás em alguns estados do Sul para restringir os votos dos negros. Para ele, tais medidas evitariam a eleição de um presidente como Obama.

 

Os discursos de Tancredo e de outros oradores, ostensivamente orientados contra o “multiculturalismo”, mal conseguiam disfarçar um ranço racista e contrário aos imigrantes (principalmente os hispânicos), que alguns tratavam por “invasores”.

 

Em uma entrevista, Tancredo se defendeu das acusações de racismo:

 

[Isso] não tem nada a ver com cor ou etnicidade ou essas porcarias... tem tudo a ver com pessoas vindo para os EUA e querendo ser estadunidenses. Sob o culto do multiculturalismo, nós não fazemos mais com que eles façam isso e isto terá grandes implicações.

 

Outro orador, o pastor evangélico Rick Scarborough, foi mais direto:

 

Os EUA são um país de imigrantes ilegais, mas a esquerda o transformou num país de invasores. Olhem para a Europa e a crescente invasão da Inglaterra. Eles estão praticando a lei da sharia e eu acho que essa gente vai combatê-los... Se tivermos que nos tornar 30% hispânicos, não seremos mais os EUA. Isto seria uma coisa ruim (The Independent, 6/02/2010).

 

De qualquer maneira, a força do movimento e o seu potencial político não podem ser desprezados, uma vez que ele está atraindo e reunindo muitos que, anteriormente, não tinham disposição para a política partidária. Em entrevista ao The Independent, o ex-vendedor de café aposentado Jack Smith, vice-presidente da seção do Tea Party no condado de Gilmer, Geórgia, sintetizou o sentimento de muitos que passaram a sentir-se “parte de algo”: “É tudo como se fosse uma grande família.”

 

O potencial eleitoral do Tea Party ficou evidenciado na recente eleição do republicano Scott Brown para a vaga senatorial do falecido democrata Edward Kennedy em Massachusetts, resultado que representou um duro golpe para os democratas e o presidente Barack Obama.

 

A rejeição a Obama é, aliás, o principal traço de união dos militantes do Tea Party, segundo o analista John Zogby, presidente da empresa de pesquisas Zogby International (Center for Research on Globalization, 6/02/2010), o que tem levado o movimento a inclinar-se para as posições defendidas pelo Partido Republicano. Em Nashville, a grande estrela foi a ex-governadora do Alasca e ex-candidata à vice-presidência Sarah Palin, que está trabalhando ativamente para disputar a sucessão de Obama em 2012.

 

No final das contas, embora sejam uma consequência da corrupção rampante da vida política estadunidense e a sua ostensiva conversão em uma plutocracia com uma pátina “democrática”, os “rebeldes do chá” não representam qualquer alternativa séria a esse processo. Uma das melhores definições sobre eles foi proposta pelo ativista político Joel S. Hirschhorn, em um artigo divulgado no sítio canadense Center for Research on Globalization (10/02/2010):

 

“[...] O apoio persistente a um governo federal menor e tantas outras platitudes abertamente manifestas revelam inconsistências e uma hipocrisia aberta sobre o que os zelotas do Tea Party estão dispostos a fazer para mostrar as suas crenças verdadeiras... Eu quero ouvir deles um apoio muito maior às necessárias funções de governo. Menos governo não significa, necessariamente, melhor governo.

 

“Com pensamento crítico, os zelotas do Tea Party devem reconhecer que não foi ação governamental excessiva que causou a Grande Depressão, mas menos ação governamental para restringir as ações rapaces entre os bancos e outras instituições financeiras. O problema central não é o governo excessivo, mas a corrupção do governo pelo setor corporativo privado e outros interesses especiais. Mesmo assim, ouço muito pouco por parte daquela gente sobre as maneiras que empregariam para eliminar a corrupção abrangente da plutocracia bipartidária. A sua conversa mole sobre liberdade e respeito à Constituição não se baseia em mais que retórica vazia.”

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