MSIa: Afeganistão, sumidouro de impérios Afeganistão, sumidouro de impérios ================================================================================ Lorenzo Carrasco on 18 December, 2009 01:00:00 A decisão do presidente Barack Obama sobre o envio de mais 30 mil homens ao Afeganistão, para um declarado esforço de estabilização do país antes do início da retirada das tropas dos EUA, anunciada para julho de 2011, em pouco ou nada o diferencia de seu antecessor quanto à intenção de preservar a ênfase militarista na condução da política hegemônica estadunidense. Em realidade, a eleição do Afeganistão como a "guerra necessária", em aparente contraste com a "guerra de escolha" de George W. Bush no Iraque, constitui um intento de manter o "Grande Jogo" geopolítico na Ásia Central enfocado, não contra o terrorismo, mas contra o desenvolvimento eurasiático, que constitui o principal objetivo estratégico do poder anglo-americano decadente. Como se sabe, a invasão do Afeganistão foi planejada com meses de antecedência sobre os ataques de 11 de setembro de 2001, seguindo um roteiro esboçado anteriormente por estrategistas do Establishment do calibre de Zbigniew Brzezinski, em seu livro The Grand Chessboard (O grande tabuleiro de xadrez), publicado em 1997. Os ataques apenas proporcionaram o pretexto "oficial" para uma ação militar que já estava decidida - haja vista a inusitada rapidez com que foi iniciada, menos de um mês depois deles. Em termos estritamente militares, a manutenção das tropas dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) no país não se justifica, pelo menos quanto ao seu efeito sobre os inimigos declarados, a al-Qaida e o Talibã. No discurso proferido na Academia Militar de West Point, Obama afirmou que "estamos no Afeganistão para evitar que um câncer se espalhe novamente através daquele país". Não obstante, como informou ao Senado o ex-chefe da estação da CIA no Paquistão, Bob Grenier, não restam mais de cem homens da al-Qaida no Afeganistão, pois a rede terrorista encontra muito mais facilidades no vizinho Paquistão. Quanto ao Talibã, os militantes islâmicos só têm aumentado a sua presença permanente no território afegão, passando de 72%, em 2008, para 80% este ano. Como Obama já antecipou o início da retirada das tropas estrangeiras, tudo o que os insurgentes têm que fazer é esperar. Ou seja, não há futuro político para o país que não passe pela incorporação do Talibã às estruturas de governo. Por isso, é evidente que Obama, ou não quer contrariar ou, realmente, acredita em uma visão geopolítica crescentemente disfucional e sem futuro, que coloca a confrontação militar no topo da pauta política para a crucial região eurasiática, cujo desenvolvimento constitui o cerne da reconstrução socioeconômica mundial pós-"globalização financeira". Assim sendo, da mesma forma como ocorreu com a invasão soviética de 1979-89, o atual conflito afegão pode acabar simbolizando, a inviabilidade da manutenção de hegemonias baseadas no poderio militar. Ao Afeganistão, fica o papel de sumidouro de potências, como se deu com as três guerras anglo-afegãs e a invasão soviética, que acabou sendo uma das marcas da dissolução da URSS. Esperemos que Obama aprenda a lição antes da humilhação.