Custos do impasse afegão
Em um recente depoimento no Subcomitê de Apropriações de Defesa da Câmara dos Deputados, oficiais do Pentágono admitiram que cada galão (3,8 l) de combustível enviado às tropas estadunidenses no Afeganistão custa nada menos do que 400 dólares aos contribuintes. "É um número que ignorávamos e é assustador", admitiu, atônito, o presidente do subcomitê, deputado John Murtha.
Apenas os Fuzileiros Navais utilizam 800 mil galões de gasolina por dia em suas operações. Uma simples conta mostra que o custo diário do combustível para os Marines é de 320 milhões de dólares.
Em um contundente artigo publicado em 22 de outubro (Information Clearing House), o ex-subsecretário do Tesouro Paul Craig Roberts (Governo Reagan), um ferrenho crítico da superextensão imperial dos EUA, disparou:
(...) Somente um país totalmente fora de controle desperdiçaria recursos dessa maneira". Enquanto o governo dos EUA desperdiça 400 dólares por galão, para matar mulheres e crianças no Afeganistão, milhões de estadunidenses têm perdido os seus empregos e suas casas e experimentam o tipo de miséria que é o cotidiano de povos pobres do Terceiro Mundo... Cada soldado que temos no Afeganistão custa 750 mil dólares por ano. Os soldados, que estão em risco de vida e de mutilação, ganham uma miséria, mas todos os serviços privatizados para os militares estão nadando em lucros. Uma das grandes fraudes perpetradas contra o povo estadunidense foi a privatização de serviços que os militares dos EUA, tradicionalmente, desempenhavam para si próprios. Mas os "nossos" líderes eleitos não podiam resistir a quaisquer oportunidades de criar riquezas privadas à custa dos contribuintes, que pudessem ser recicladas aos políticos em contribuições de campanha.
Roberts pode estar equivocado em um ponto. Na mesma sessão do Congresso, o custo per capita anual de cada militar estadunidense no país asiático foi apontado em um milhão de dólares. Ou seja, os 40 mil homens adicionais que o general Stanley McChrystal, comandante geral das forças estadunidenses, está solicitando ao presidente Barack Obama, implicariam em custos extras da ordem de 40 bilhões de dólares anuais.
Para complicar o quadro, o ambaixador estadunidense em Cabul, o general da reserva Karl Eikenberry, que chefiou as tropas dos EUA no país em 2007, enviou a McChrystal um memorando no qual se opunha terminantemente ao envio de mais homens ao Afeganistão, considerando a medida inútil diante da corrupção e a escassa confiabilidade do governo do presidente Hamid Karzai, cuja recente reeleição foi acompanhada de acusações de fraudes maciças (The Times, 13/11/2009).
Porém, ainda mais sugestiva da situação afegã é a notícia de que os militares estadunidenses estão pagando aos talibãs pela segurança dos seus comboios de abastecimento, para não serem atacados nas longas e perigosas rotas que são obrigados a percorrer. Segundo o jornal The Guardian de 13 de novembro, um preço padrão da propina é 1.500 dólares por caminhão e, com frequência, os comboios têm sido escoltados por veículos dos próprios talibãs. Com isso, um montante estimado entre 10-20% dos custos logísticos das tropas dos EUA na área acabam nas mãos dos seus inimigos declarados. Apesar de paradoxal, a medida foi uma solução paliativa utilizada no Iraque para reduzir a ação das milícias sunitas que infernizavam as tropas invasoras lideradas pelos EUA.
Em sua coluna de 8 de novembro, no International Herald Tribune, o renomado jornalista William Pfaff ressaltou as consequências da situação: "A nação confronta, agora, uma crise política na qual o assunto se tornou uma disputa não-declarada entre o poder do Pentágono e o de um presidente eleito há pouco. Barack Obama ainda tem que declarar a sua decisão sobre a guerra no Afeganistão, e há todas as razões para acreditar que ele seguirá a opinião dos militares... Agora [o Pentágono] domina as relações exteriores dos EUA, com mil bases em todo o mundo e comandos regionais como procônsules imperiais. Tanto o general McChrystal como o seu superior, general David H. Petraeus, têm sido mencionados como futuros candidatos presidenciais. O último general que se tornou presidente dos EUA foi Dwight Eisenhower. Ele foi o que advertiu os estadunidenses sobre 'o complexo industrial-militar'."



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