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EUA-China: "modelo G-2", concubinato tolerado

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image A visita de Barack Obama a Pequim pode sinalizar um acordo tácito para a preservação do status quo (Newsday)

Os EUA e a China pretendem converter a economia mundial em una zona de tolerância ao livre comércio, um concubinato de conveniência. Assim pode ser descrito o entendimento tácito entre os EUA e a China para a consolidação de um "G-2 informal", que permita vantagens mútuas: ao primeiro, a preservação do status hegemônico do dólar e do sistema financeiro a ele atrelado (com a sua colossal montanha de capital fictício); à segunda, manter por algum tempo mais o seu motor de crescimento alimentado por exportações baratas para todo o mundo, em grande medida oriundas de empresas transnacionais baseadas em seu território. Embora nenhum alto dirigente dos dois países tenha usado tal expressão, o caráter do arreglo ficou evidenciado na recente visita do presidente Barack Obama a Pequim, durante a sua primeira turnê asiática como ocupante da Casa Branca.

O conceito do G-2 vem sendo discutido desde o final de 2008 nos altos círculos do Establishment estadunidense, tendo sido inicialmente vocalizado em público por Zbigniew Brzezinski e, apesar de estar longe de ser consensual entre tais grupos e de ser oficialmente rejeitado pelas lideranças chinesas, parece estar sendo implementado de uma maneira tácita e informal, por Washington e Pequim. A tendência foi oportunamente descrita pelo jornalista Clóvis Rossi, da Folha de S. Paulo (18/11/2009), num artigo com o significativo título "Encontro é certidão de batismo do G-2".

No texto, Rossi comenta as declarações do embaixador estadunidense em Pequim, Jon Huntsman, e do presidente chinês Hu Jintao, tirando as necessárias conclusões:

"Só há realmente dois países no mundo que podem, juntos, resolver certos assuntos, seja energia limpa, mudança climática, segurança regional, Irã, Coreia do Norte, Afeganistão e Paquistão, chegando até à economia global", deixou claríssimo Huntsman, no briefing para os repórteres norte-americanos que cobrem a visita. Vai ser muito difícil, quase impossível, conseguir uma declaração tão explícita de algum diplomata, de qualquer país, sobre como encara o gerenciamento do planeta.

É claro que os chineses, discretos como são, jamais exporiam, de público, uma visão tão nítida. Mesmo assim, o presidente Hu Jintao listou uma vasta coleção de temas em que ele e Obama estão "dispostos a atuar em benefício mútuo", coleção que, de alguma forma, equivale à lista de Huntsman: "Estamos dispostos a aprofundar nossa cooperação em contraterrorismo, aplicação da lei, ciência, tecnologia, espaço exterior, aviação civil, exploração espacial, infraestrutura de ferrovias de alta velocidade, agricultura, saúde e outros campos", para não mencionar "um progresso ainda maior no fortalecimento de laços de militares para militares". (...)

(...) as duas partes reconhecem, como escreveu o jornalista Keith Richburg para o Washington Post, que "as economias norte-americana e chinesa - a maior do mundo e a grande economia que cresce mais rapidamente, respectivamente - tornaram-se inextricavelmente ligadas, trancadas em uma espécie de codependência que nenhum dos lados acha que é particularmente saudável, mas que, no momento, nenhum dos dois vai se mover para romper".

O único problema é que o "modelo G-2" é inviável, exceto a curto prazo, não apenas em termos políticos, como econômico-financeiros e sociais. O motivo é simples: a sua base é o esquema de troca de ativos em dólares por produtos manufaturados de baixo custo de mão-de-obra, que permitiu aos EUA inflar a colossal bolha financeira especulativa das últimas décadas, cujo estouro deflagrou a presente crise global. Até mesmo um notório arauto de certos interesses do Establishment britânico, como o jornalista do Daily Telegraph Ambrose Evans-Pritchard, admite o fato. Em sua coluna de 15 de novembro, ele sintetiza:

(...) A China ainda está exportando supercapacidade [produtiva] para o resto de nós em grande escala, com consequências deflacionárias... Ao manter o yuan fixo a 6,83 frente ao dólar, para fomentar as exportações, Pequim está despejando o seu desemprego no exterior... Enquanto a China fizer isso, outros tigres [asiáticos] também o farão. É claro que os capitalistas ocidentais são cúmplices. Eles alugam trabalhadores baratos e plantas baratas em Guangdong e, depois, fazem lobby no Capitólio para evitar que o Congresso [dos EUA] faça algo a respeito. Isto é arbitragem de mão-de-obra.

Essa "arbitragem", um dos principais pilares da "globalização" financeira das últimas décadas, é também a principal força motriz da desindustrialização, compressão salarial e aumento das desigualdades sociais, que têm se verificado em muitos países, a começar pelos próprios EUA. Mas a China também está às voltas com os desequilíbrios sociais crescentes, resultantes das características desse modelo insustentável. E tais efeitos se estendem a todo o mundo, como se percebe de forma crescente na América do Sul, onde a enxurrada de importações asiáticas tem provocado grandes prejuízos para as indústrias locais e já representa uma séria ameaça ao cambaleante processo de integração regional (como se observa com os contenciosos comerciais entre a Argentina e o Brasil).

Assim, os membros do G-2 não representam um casamento legítimo visando a reprodução do bem-estar econômico, mas apenas um concubinato que somente contribuirá para a difusão da enfermidade "livrecambista". Resta ao mundo apelar para o protecionismo e evitar os contágios provenientes dessa zona de tolerância.

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