Newsletter
Email:
Início | Assuntos/Asuntos estratégicos | EUA | G-2: a ilusão da hegemonia

G-2: a ilusão da hegemonia

Tamanho da fonte: Decrease font Enlarge font
"O relacionamento entre os EUA e a China irá delinear o século XXI, o que o torna tão importante quanto qualquer relacionamento bilateral no mundo. Essa realidade deve fundamentar a nossa parceria. Essa é a responsabilidade que sustentamos."

As palavras do presidente Barack Obama, proferidas na abertura do Diálogo Estratégico e Econômico EUA-China, realizado em Washington em 27-28 de julho, dão o tom de uma nova concepção defendida por alguns setores do Establishment estadunidense para orientar a atitude global do país nas próximas décadas. A idéia é uma parceria estratégica com a China para assegurar a hegemonia dos EUA nos assuntos mundiais, não mais como o "hegemon" supremo, mas formando um "G-2" com o gigante asiático, atualmente o seu maior credor e fornecedor de bens de consumo de baixo custo.

A proposta não significa necessariamente que tais grupos admitam a China como uma potência em pé de igualdade com os EUA, mas o mero reconhecimento de que a simbiose entre as duas economias é crucial para a sustentação do atual modelo de "financeirização" da economia mundial comandado por Wall Street e a consequente preservação do papel especial do dólar como moeda de reserva global. De fato, quatro décadas de hegemonia compartilhada com a extinta URSS e duas de supremacia quase isolada no período pós-Guerra Fria enraizaram hábitos e idéias que dificilmente serão abandonados voluntariamente pelas elites dirigentes estadunidenses, como se depreende das palavras da secretária de Estado Hillary Clinton em Washington. Rejeitando abertamente os prognósticos sobre um "mundo multipolar", ela deu o recado aos chineses e ao mundo, quase repetindo as palavras de uma conferência proferida dias antes no Conselho de Relações Exteriores (CFR):

Embora as relações passadas entre os EUA e a China têm sido influenciadas pela idéia de um equilíbrio de poder entre grandes nações, o novo pensamento do século XXI nos move de um mundo multipolar para um mundo de múltiplas parcerias.

A proposta de formação de um "G-2 informal" entre os dois países começou a ser explicitada no início do ano por pesos pesados do pensamento estratégico estadunidense, do calibre de Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski, como sugestão ao presidente eleito Barack Obama. A expressão foi mencionada por Brzezinski em um discurso em Pequim, em janeiro, como parte das celebrações do 30º. aniversário do restabelecimento das relações plenas entre os dois países, após três décadas da ruptura ensejada pelo triunfo da revolução comunista de 1949.

Na ocasião, Brzezinski afirmou que o "G-2" proposto aprofundaria a cooperação entre as duas potências além dos arranjos do G-8 e do G-20, abrangendo toda sorte de temas de alcance global, desde mudanças climáticas às ameaças de proliferação nuclear - passando, obviamente, pela economia.

Não obstante, embora seja tentadora para tais círculos e esteja sendo considerada uma possibilidade real por observadores estrangeiros que não conseguem enxergar o mundo sem a hegemonia estadunidense (vide o editorial "A aliança estratégica do G-2", do jornal O Estado de S. Paulo de 29/07/2009), a idéia está longe de contar com o consenso do Establishment. Um exemplo é um artigo publicado na edição de maio-junho da revista do CFR Foreign Affairs, com o título "A miragem do G-2: por que os EUA e a China não estão prontos para aprimorar laços". Escrito por dois senior fellows especialistas em assuntos asiáticos da ultra-seleta entidade, Elizabeth C. Economy e Adam Segal, o artigo ressalta que "uma relação bilateral ampliada pode não ser possível para a China e os EUA, uma vez que os dois países têm interesses e valores que não combinam". Para eles, "mesmo após 30 anos de engajamnto, os EUA e a China ainda discordam sobre como o mundo deveria funcionar".

De acordo com Economy e Segal:

Os EUA devem, por conseguinte, resistir à tentação de iniciar um diálogo bilateral de alto perfil e grandes expectativas e, em vez disto, abraçar uma abordagem bem mais flexível e multilateral para com a China. Em outras palavras, Obama deveria continuar a trabalhar com a China para enfrentar problemas globais, mas ele também necessita alistar o mundo para lidar com os problemas criados pela ascensão da China.

Outra vez, maldisfarçada nas entrelinhas, a velha visão hegemônica que não admite qualquer tipo de compartilhamento de uma supremacia global, ainda que esta se mostre cada vez mais ilusória e insustentável, tanto no campo econômico-financeiro como no estratégico-militar. E essa percepção não provém de militantes e intelectuais esquerdistas, mas de profundos conhecedores e insiders do próprio sistema hegemônico, como o renomado historiador Chalmers Johnson, autor de uma trilogia fundamental sobre o militarismo estadunidense e o seu impacto negativo na estatura global do país: Blowback: os custos e as conseqüências do Império Americano, As aflições do Império e Nêmesis: os últimos dias da República Americana (os dois primeiros publicados no Brasil pela Editora Record, em 2007). Johnson, que é membro registrado do Partido Republicano, acaba de escrever mais uma contundente síntese da atual situação dos EUA ("Três boas razões para liquidar o nosso Império", Tomdispatch.com, 30/07/2009). Vale a pena prestar atenção em suas palavras:

Por mais ambiciosas que sejam os planos domésticos do presidente Barack Obama, um assunto não reconhecido tem o potencial para destruir quaisquer esforços de reformas que ele possa lançar. Pensem nele como se fosse o gorila de 400 kg na sala de estar estadunidense: a nossa longamente mantida dependência do imperialismo e do militarismo nas nossas relações com outros países e o vasto e potencialmente ruinoso império global de bases que a acompanha. O fracasso em se começar a lidar com o nosso inchado establishment militar e o seu uso perdulário em missões para as quais é desesperançosamente inadequado irá, antes cedo do que tarde, condenar os EUA a um devastador trio de consequências: superextensão imperial, guerra perpétua e insolvência - levando o país a um provável colapso similar ao da ex-União Soviética.

Fica o registro.

Adicionar no: Add to your del.icio.us del.icio.us | Digg this story Digg

Comentários (0 postado):

Poste seu comentário comment

  • email Enviar para amigo
  • print Versão para impressão
  • Plain text Versão texto