Obama no Cairo: potencial divisor de águas
O discurso proferido pelo presidente Barack Obama na Universidade Al-Azhar, no Cairo, em 4 de junho, pode sinalizar um divisor de águas na orientação da política exterior estadunidense prevalecente no último meio século, abrindo a possibilidade de mudanças de rumo efetivas em vários pontos até agora considerados intocáveis pelo Establishment hegemônico. Embora, como tenha sido observado por vários comentaristas, seja preciso esperar para ver se a retórica será seguida por ações práticas, pela primeira vez desde o governo de John Kennedy (1961-63), um ocupante da Casa Branca coloca em questão explicitamente algumas das diretrizes fundamentais da atuação dos EUA no mundo do pós-guerra, em especial depois que a lógica insana da Guerra Fria sepultou os planos anticoloniais e progressistas de Franklin Roosevelt (1933-45) para a reconstrução e modernização econômica mundiais.
Ressalvas à parte, e sem esquecer que no plano econômico seu governo tem seguido fielmente o roteiro estabelecido pela alta finança "globalizada", o fato é que Obama quebrou tabus e transmitiu uma mensagem de grande impacto, cujas repercussões podem ser avaliadas, principalmente, por certas reações internas de representantes do Establishment.
Talvez, o principal dos tabus superados tenha sido o que até mesmo comentaristas conservadores como Patrick Buchanan estão chamando o fim do "alinhamento automático" do governo dos EUA com a política externa de Israel, seguramente, o item que provocou as reações mais inflamadas, tanto em Tel Aviv como em Washington. Obama foi direto. Por um lado, ressaltou que "os fortes laços dos EUA com Israel são bem conhecidos" e "inquebráveis", baseados no "reconhecimento de que as aspirações por uma pátria judaica tem raízes em uma história trágica que não pode ser negada".
Porém, do outro lado, ousou exprimir o que nenhum dos seus antecessores em décadas teve coragem de fazer: reconhecer o sofrimento do povo palestino e as suas "aspirações legítimas à dignidade, oportunidades e um Estado próprio". E não ficou nisto, ressaltou que, "durante mais de 60 anos, eles têm experimentado a dor do deslocamento". Por deslocamento, leia-se a expulsão dos palestinos de suas terras e propriedades, que antecedeu à criação de Israel, em 1947, conhecida entre eles como a "Nakba" - a catástrofe.
Obama foi ainda mais longe, reconhecendo o Hamas como representante legítimo de parte do povo palestino - atitude oposta à de George W. Bush - e instou o grupo a "reconhecer que eles têm responsabilidades". "Para desempenhar um papel na concretização das aspirações palestinas, para unificar o povo palestino, o Hamas deve por um fim na violência, reconhecer acordos passados, reconhecer o direito de Israel à existência", afirmou.
Porém, logo em seguida, Obama enfatizou:
Ao mesmo tempo, os israelenses devem reconhecer que, assim como o direito de Israel a existir não pode ser negado, tampouco pode o da Palestina. Os EUA não aceitam a legitimidade da continuação dos assentamentos israelenses. Essas construções violam acordos prévios e solapam os esforços para se atingir a paz. É hora de esses assentamentos serem interrompidos.
A surpresa, a fúria e o cinismo do lobby sionista nos EUA podem ser avaliadas nas palavras da deputada democrata Shelly Berley, que protestou: "Minha preocupação é que estejamos aplicando pressão no lado errado dessa disputa. Eu acho que os interesses dos EUA seriam melhor servidos se estivéssemos pressionando os iranianos para eliminar o potencial de uma ameaça nuclear do Irã, e menos tempo pressionando os nossos aliados e a única democracia no Oriente Médio a interromper o crescimento natural dos seus assentamentos [grifos nossos]."
Farejando os novos tempos, a principal entidade representativa do lobby sionista estadunidense, o Comitê Americano-Israelense de Assuntos Públicos (AIPAC, em inglês) se antecipou à viagem de Obama e conseguiu nada menos que 329 assinaturas no Congresso como endosso a uma carta ao presidente, pedindo-lhe que o governo trabalhe com Israel em âmbito "mais estreito e privado".
Entretanto, não menos relevante foi o outro duplo tabu quebrado por Obama ao referir-se aos "direitos e responsabilidades das nações sobre as armas nucleares" - considerações dirigidas tanto ao Irã como a Israel. Primeiro, fez história ao reconhecer a interferência direta dos EUA na derrubada do governo do premier iraniano Mohammed Mossadegh, em 1953: "Em meio à Guerra Fria, os EUA tiveram um papel na derrubada de um governo iraniano democraticamente eleito."
Depois, reconheceu que o Irã tem direito à exploração pacífica da energia nuclear, fazendo, ao mesmo tempo, uma crítica pouco velada à política de "apartheid tecnológico" que tem orientado o tema:
Eu entendo aqueles que protestam que alguns países têm armas [nucleares] que outros não têm. Nenhuma nação individual deveria pegar e escolher que nação detém armas nucleares. E é por isso que eu tenho reafirmado enfaticamente o compromisso dos EUA de buscar um mundo em que nenhuma nação tenha armas nucleares. E qualquer nação - inclusive o Irã - deve ter o direito ao acesso aos usos pacíficos da energia nuclear, se cumprir as suas responsabilidades com o Tratado de Não-Proliferação Nuclear... E eu estou esperançoso de que todos os países na região possam compartilhar desse objetivo [grifos nossos].
Ainda refletindo sobre o passado, Obama reconheceu que as tensões entre o Islã e o Ocidente "foram alimentadas pelo colonialismo que negou direitos e oportunidades a muitos muçulmanos e por uma Guerra Fria em que países de maioria muçulmana eram, muito frequentemente, tratados como prepostos e sem consideração pelas suas aspirações próprias".
E um último aspecto relevante do discurso foi a admissão dos limites da força militar como instrumento de política exterior, inclusive para os próprios EUA - o que, em grande medida, reflete a acirrada pugna intestina que se trava em Washington em torno da preservação do poderosíssimo complexo de segurança nacional (ou, como o batizou Dwight Eisenhower, industrial-militar) em sua hiperatrofiada forma atual. Em suas palavras:
(...) Pois a história humana tem sido frequentemente um relato de nações e tribos - e, sim, religiões - subjugando umas às outras em busca dos seus próprios interesses. Porém, nessa nova era, tais atitudes são autoderrotistas. Dada a nossa interdependência, qualquer ordem mundial que eleve uma nação ou grupo de pessoas sobre outro, inevitavelmente, fracassará. Por isso, seja lá o que pensarmos do passado, não devemos ser prisioneiros dele. Os nossos problemas devem ser tratados por meio de parcerias; o nosso progresso deve ser compartilhado.
E, em um reconhecimento explícito do esgotamento do impulso militarista do Pentágono, afirmou:
Agora, nós também sabemos que a força militar sozinha não irá resolver os problemas no Afeganistão e no Paquistão. É por isso que planejamos investir 1,5 bilhão de dólares por ano, nos próximos cinco anos, para ajudar os paquistaneses a construir escolas e hospitais, estradas e negócios, e centenas de milhões para ajudar aqueles que foram deslocados. É por isso que estamos providenciando mais de 2,8 bilhões de dólares para ajudar os afegãos a desenvolver a sua economia e proporcionar os serviços dos quais as pessoas dependem.
Igualmente, Obama enfatizou a intenção de retirar todas as forças militares do Afeganistão e do Iraque e ressaltou que os EUA nem pretendem manter bases em nenhum dos dois países, nem exigir acesso privilegiado aos seus recursos.
Comentando o discurso em seu portal, em 6 de junho, o conceituado jornalista William Pfaff (que vive em Paris há três décadas) observou:
Isso é, seguramente, um golpe tão duro para os planejadores do Pentágono como foi para Israel a sua declaração sobre a comunidade de assentados. Pareceria uma renúncia ao programa militar estadunidense de cercar o mundo com bases estratégicas, perseguido nos últimos 30 anos. É uma surpresa tão grande como as declarações de Obama sobre Israel. E pode ser muito mais importante para os EUA e seu futuro. Aguarda-se a elaboração.
Como dito anteriormente e foi ressaltado por Pfaff, será preciso aguardar antes de se soltarem fogos por conta de uma eventual guinada política estadunidense. Não obstante, muito irá depender também da atitude interna das forças cidadãs que foram mobilizadas pela campanha de Obama e, em certa medida, se frustraram com a falta de uma clara mudança de rumo como a proporcionada, por exemplo, por Roosevelt, em 1933. A propósito, encerramos com uma avaliação do jornalista e cineasta Danny Schechter, em um artigo divulgado em 7 de junho no sítio canadense Global Research:
"Pode-se ver Obama como um cínico tortuosamente calculado, dizendo uma coisa e fazendo outra. Pode-se vê-lo como um prisioneiro de forças maiores que empurram todos os políticos para o abraço de interesses especiais que servem ao status quo mascarados como 'a política do possível'.
"Ou pode-se ainda ser otimista porque ele está passando por cima das cabeças dos pesos mortos em serviço em todo o mundo. 'Obama está passando por cima das cabeças de elites, tentando estabelecer a legitimidade moral como um líder, transformando popularidade em políticas', escreve Robert Marquand no Christian Science Monitor. 'O que estamos vendo não é enganação, mas um esforço sincero para atingir corações e mentes, apelando aos melhores instintos e à natureza racional de outros. É um enfoque revolucionário.' (...)
"Qual é a nossa função como cidadãos? Se você está lendo isto, presumivelmente, é para ser mais crítico, mais analítico, capaz de fazer distinções, desejando conviver com e desafiar as contradições, consciente de que as instituições têm mais impacto do que os indivíduos.
"Amemos ou odiemos Obama, ele estará aqui, descontando o impensável, pelos próximos anos. Ele não é Deus. Ele é ou deveria ser um servidor público, e a tarefa do público não é servi-lo, mas desafiá-lo e responsabilizá-lo. Não se pode deixar que a 'análise' leve à paralisia.
"Estes são tempos perigosos, quando as pessoas que querem arruinar as perspectivas de mudança estão mais mobilizadas do que as que querem assegurar tais mudanças. Vivemos em uma máquina de ruídos com poucos movimentos de massas e um monte de confusões em massa. Em vez de dizer ao Twitter o que você está fazendo, diga-nos o que está pronto para fazer."
Certamente, tal recomendação não se aplica apenas aos cidadãos estadunidenses.



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