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'Mais quatro anos': Bush não recebeu mandato para guerra

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(09.11.2004)

Em uma entrevista coletiva na manhã da quinta-feira 4, um triunfante presidente George W. Bush sentenciou: "Esta semana, os eleitores da América estabeleceram a direção da nossa nação pelos próximos quatro anos. Eu estou honrado pelo apoio dos meus caros cidadãos e pronto para o trabalho." Como era de se esperar, sua primeira prioridade foi bélica: "Estamos travando uma guerra contínua contra o terror e cada estadunidense tem interesse no desfecho dessa guerra... Nós perseveraremos até que o inimigo seja derrotado. Permaneceremos fortes e resolutos. Temos um dever solene de proteger o povo estadunidense e o faremos."

As palavras de Bush reforçaram o sentimento de milhões de pessoas em todo o mundo, que interpretaram o resultado das eleições de 2 de novembro como um endosso de uma maioria da população dos EUA à agenda belicista do renovado inquilino da Casa Branca. Porém, se Bush também pensa assim, tanto ele como seus seguidores e opositores que pensam o mesmo estarão cometendo um grave equívoco. Como vimos anteriormente, a guerra ao terrorismo não foi a principal motivação do eleitorado. Uma pesquisa de boca-de-urna da rede CNN revelou uma divisão ao meio: 51% dos entrevistados disseram ter apoiado a invasão do Iraque, mas 52% admitem que ela não tornou os EUA mais seguros contra o terror.

Ademais, como apontaram vários comentaristas, embora tenha provocado um efeito moralmente devastador entre seus opositores, a vitória de Bush nada teve de avassaladora em termos numéricos; na verdade, sua vantagem de votos populares foi a mais reduzida de um candidato à reeleição desde Woodrow Wilson, em 1916. Além disso, se é verdade que ele teve a maior votação da História, também teve o maior número de votos contrários de qualquer outra eleição estadunidense.

O principal problema para Bush é a miopia dos "neoconservadores" que o rodeiam, com sua proverbial incapacidade cultural de enxergar a dimensão da crise civilizatória em que o mundo está mergulhado, agravada pela belicosa agenda de seu primeiro mandato. Em um artigo publicado na revista britânica The Economist de 4 de novembro, o presidente do Conselho de Relações Exteriores (CFR) de Nova York, Richard Haass, sintetiza os problemas do novo Governo:

"Na medida em que George Bush contempla seu segundo mandato, ele enfrenta muito mais desafios, e mais difíceis, do que quatro anos atrás. A primeira razão para isso é a situação objetiva do mundo, com uma fieira de problemas, do Iraque à Coréia do Norte, à epidemia de HIV/AIDS, exigindo atenção urgente. A segunda é a presente condição dos EUA. A América permanece sendo o ator mundial proeminente, mas também está militarmente superestendida, financeiramente endividada, internamente dividida e internacionalmente impopular. Tudo isso nos faz perguntar por que o Sr. Bush parecia tão ávido de manter o cargo."

Em uma longa análise, Haass propõe mais contenção ao impulso militarista que tem reinado na Casa Branca e mais cooperação com países aliados, Seu comentário é ainda mais relevante pelo fato de ser ele um importante estrategista republicano que reflete o pensamento de grande parte do Establishment, tendo ocupado o posto de secretário de Estado Adjunto para Políticas e Planejamento até o início de 2003, quando renunciou por discordar da invasão do Iraque.

Por outro lado, a visão "neoconservadora" se mostra em dois artigos publicados na sexta-feira 5, no sítio National Review Online, um dos principais órgãos de difusão das idéias delirantes do grupo.

No primeiro, o arquibelicista Michael Ledeen, que disputa com o secretário de Defesa Adjunto Paul Wolfowitz e o ex-presidente do Conselho de Política de Defesa Richard Perle o título de mais agressivo dos "neocons", afirma sem meias palavras que Bush precisa de um "gabinete de guerra" para enfrentar os desafios à frente. Segundo ele, "nunca teremos segurança no Iraque enquanto fanáticos mandarem em Teerã, Riad e Damasco. Este fato desagradável não cai bem entre os decanos do Departamento de Estado e a mal denominada comunidade de inteligência, mas ele é inescapável". Portanto, "o remédio político é a seleção de um Gabinete de Guerra adequado. O presidente deve ter a assessoria de pessoas que não vacilarão diante das tarefas desagradáveis à nossa frente e que são capazes de liderar suas agências para obter o máximo desempenho (grifos nossos)".

Para tanto, ele sugere a substituição dos secretários de Estado e Defesa, da conselheira de Segurança Nacional e dos chefes do FBI e da DIA (Agência de Inteligência de Defesa). "Todos eles são pessoas excepcionalmente talentosas e patrióticas. Todos têm trabalhado bastante. Mas todos falharam, por razões diferentes e em graus diferentes", justifica.

Ledeen conclui afirmando que "o presidente precisa de pessoas em que confie, mas elas têm que ser fortes e estar prontas para travar e vencer uma guerra dura... Tudo isso se baseia no pressuposto esperançoso de que o presidente saiba o que quer fazer quanto às questões-chave e que ele queira ser mais vigoroso do que foi na segunda metade de seu primeiro mandato... Mas eu espero que ele queira um real Gabinete de Guerra. Ele não tem um agora".

No segundo artigo, o presidente do Center for Security Policy de Washington, Frank J. Gaffney Jr., mostra que ele e seus pares estão perfeitamente a par das circunstâncias da vitória de Bush: "Segundo as pesquisas de boca-de-urna, George W. Bush deve sua vitória à prioridade atribuída por milhões de eleitores aos ´valores morais´... Inevitavelmente, alguns dos críticos do presidente Bush... interpretarão este achado de forma insidiosa: eles afirmarão que a conduta do presidente na guerra ao terror e, em particular, os esforços para consolidar a libertação (sic) do Iraque não goza do mandato popular concedido à sua agenda social conservadora. No mínimo, nos dirão que W. ganhou a despeito do seu manejo da guerra, graças à ajuda dos cristãos evangélicos e tipos assemelhados, que apareceram para votar por outras razões. Não acredite nisso nem por um minuto... a realidade é que os mesmos princípios morais que assinalaram o apelo de Bush sobre a questão dos ´valores´, como o casamento gay, a pesquisa com células-tronco e o direito à vida, foram centrais para a sua visão dos objetivos da guerra e da política externa dos EUA."

Depois da cortina de fumaça, ele se empenha em sugerir diretrizes básicas para a agenda do segundo mandato:

* "A redução em detalhes (da resistência) em Faluja e outros refúgios utilizados por inimigos da liberdade (sic) no Iraque (...)

* "Mudança de regime - de uma maneira ou de outra - no Irã e Coréia do Norte (...)

* "Proporcionar os recursos substancialmente ampliados que são necessários para reequipar as forças militares em processo de transformação e reconstruir as capacidades de inteligência humana... enquanto travamos a IV Guerra Mundial (...)

* "Proporcionar, na maior extensão possível, a proteção do nosso território, inclusive a adoção de políticas sensíveis de segurança das nossas fronteiras e a contenção de estrangeiros ilegais, além de preparar defesas antimísseis efetivas, no mar e no espaço, bem como em terra.

* "Manter a confiança de Israel... especialmente em face da morte de Yasser Arafat (sic) e da inevitável pressão pós-eleitoral para ´resolver´ o problema do Oriente Médio forçando os israelenses a abandonar fronteiras defensáveis.

* Confrontar a dinâmica subjacente que tornou a França e a Alemanha tão problemáticas no primeir mandato: especificamente, a disposição de ambas de fazer causa comum com nossos inimigos por motivos de lucro e seu desejo de empregar uma Europa unida, bem como outras instituições e mecanismos internacionais, para desviar a expansão e a aplicação do poderio estadunidense onde julgado necessário por Washington.

* "Adaptar estratégias apropriadas para confrontar as políticas comerciais e militares crescentemente fascistas da China, o acelerado autoritarismo de Vladimir Putin em casa e sua agressividade contra as antigas repúblicas soviéticas, a expansão mundial do islamofascismo (sic) e a emergência de um número de regimes agressivamente antiamericanos na América Latina (grifos nossos)."

Adicionando o insulto à injúria, Gaffney completa: "Esses itens não representam algum tipo de jogo neoconservador ´imperialista´. Em vez disto, eles constituem uma lista do trabalho que o mundo irá exigir desse presidente e seus subordinados num segundo mandato."

Como se percebe, embora as disputas internas em Washington não tenham atingido o nível da Noite das Facas Longas de 1934 (quando o regime de Adolf Hitler resolveu a sangue frio as suas diferenças faccionais), a definição das reformas do gabinete serão cruciais para que se possa prognosticar melhor o rumo do regime Bush II. O fato é que, se ele e seus principais auxiliares insistirem em confundir a mensagem das urnas, os EUA e o mundo podem se preparar para dias ainda mais turbulentos e perigosos.

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