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EUA: ventos de mudanças na política externa

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A divulgação da Estimativa de Inteligência Nacional (NIE, em inglês) referente ao programa nuclear do Irã, no início de dezembro, foi um golpe político devastador contra os “neoconservadores” do Governo Bush, cuja influência encontra-se em queda livre e dificilmente recuperará a dimensão anterior. Mas, ainda mais importante, ela reflete uma tendência nas discussões internas do Establishment que, nos próximos anos, poderá afastar o país da orientação supremacista prevalecente em sua política externa e enquadrar o país na agenda mais cooperativa que será imprescindível para a superação da crise civilizatória em curso, na qual os EUA forçosamente desempenharão um papel crucial, embora não hegemônico.

 

O documento, que representa uma síntese consensual das visões e do trabalho das 16 agências de inteligência oficiais estadunidenses, foi recebido como um dobre de finados para a “Doutrina Bush” de intervenções militares preventivas contra inimigos percebidos sob o disfarce da “guerra contra o terror”. Nas semanas seguintes, tanto a grande imprensa como a mídia eletrônica alternativa ofereceram numerosos detalhes da feroz luta intestina que se trava nos altos escalões decisórios de Washington e resultou na decisão de dar publicidade ao relatório, que retira da facção encabeçada pelo vice-presidente Dick Cheney o principal pretexto para a sua retórica belicista contra Teerã, considerada vital para a sustentação da agenda militarista “neocon”. De fato, a NIE já estava concluída desde meados do ano e a sua principal conclusão, de que o Irã havia interrompido o seu programa nuclear com fins militares em 2003, já era conhecida da inteligência estadunidense desde março de 2007, graças às revelações de um alto oficial iraniano que desertou para a Turquia – segundo ex-oficiais de inteligência estadunidenses, é impossível que tal informação não tenha sido transmitida prioritariamente ao próprio presidente da República. Não obstante, apenas agora os círculos de inteligência, apoiados pela cúpula militar, consideraram que a correlação de forças em Washington era favorável à deflagração do golpe contra o aparato “neocon”.

 

Além de tirar da agenda qualquer possibilidade de uma ação militar estadunidense contra o Irã, fortemente rejeitada pelo Pentágono, a NIE também inviabiliza a alternativa de um ataque israelense contra as instalações nucleares iranianas, impensável sem um sinal verde de Washington. Para não deixar margem a dúvidas, o chefe do Estado-Maior Conjunto estadunidense, almirante Mike Mullen, fez uma rápida visita a Tel Aviv, a primeira de um ocupante do posto em mais de uma década, para transmitir o recado diretamente ao governo israelense, sob o pretexto de assegurar o compromisso dos EUA com a segurança de Israel.

 

Da mesma forma, a NIE puxa o tapete dos governos europeus que vinham se esmerando em se superar em disparar farpas retóricas contra Teerã, para não desagradar o Governo Bush, em lugar de insistir na perspectiva de uma agenda cooperativa. Não por coincidência, esta teria sido a principal motivação do governo iraniano para a suspensão dos seus esforços militares, decisão que teria sido tomada logo após uma visita conjunta a Teerã dos ministros das Relações Exteriores da Alemanha, França e Reino Unido, em outubro de 2003.

 

Por outro lado, a divulgação do relatório pode sinalizar que as discussões sobre as perspectivas da política externa dos próximos governos estadunidenses estão tomando um rumo que alguns já denominam “neo-realismo”, menos intervencionista, menos belicista, mais cooperativo e mais adequado ao cenário global multipolar que se vislumbra para as próximas décadas. Exemplares desse processo são dois artigos publicados nas duas últimas edições da revista Foreign Affairs, órgão do ultra-seleto Conselho de Relações Exteriores (CFR) de Nova York, o mais graduado think-tank do país.

 

O primeiro, publicado na edição de novembro-dezembro (“Uma defesa disciplinada: como retomar a solvência estratégica”), é de autoria de Richard K. Betts, pesquisador sênior adjunto do CFR e diretor do Instituto Saltzman de Estudos de Guerra e Paz da Universidade Columbia. O autor afirma que, apesar do seu enorme poderio militar, os EUA encontram-se “estrategicamente insolventes”, por conta de uma agenda mal orientada. Diz ele:

 

Os EUA gastam hoje em defesa, em dólares reais, quase tanto como nunca antes – mesmo que não tenha qualquer pretexto plausível para empregar a maior parte das suas impressionantes forças militares. Por que? Porque, sem incentivos políticos para restrições, os formuladores de políticas perderam a capacidade de pensar claramente sobre a política de defesa. O novo mantra em Washington deveria ser “meio trilhão de dólares é mais que suficiente”.

 

Adiante, Betts afirma:

 

Conseguir novamente a solvência estratégica levará tempo e há boas razões para não se cortar drasticamente o orçamento de defesa... Forças Armadas poderosas são necessárias para a segurança nacional dos EUA, mas elas devem ser dimensionadas para conter as ameaças e vulnerabilidades que o país confronta na realidade, e não para satisfazer ambições soberbas de refazer o mundo... Os atuais defensores de se atrelar os gastos militares a algum percentual superior do PIB estão oferecendo um padrão tão desconectado de uma avaliação sóbria das ameaças como o do método remanescente [do Governo Bush].

 

O segundo texto, na edição de janeiro-fevereiro de 2008 (“Um Novo Realismo: uma política externa realista e baseada em princípios”), é do governador do Novo México, o democrata Bill Richardson, pré-candidato à indicação presidencial pelo seu partido. Como um democrata considerado progressista, Richardson é mais objetivo e direto em suas propostas para a confrontação das novas realidades do cenário global:

 

A política exterior estadunidense deve ser capaz de lidar efetivamente com essas realidades. Nós devemos rejeitar, tanto as fantasias isolacionistas ou a retirada do engajamento global, como as fantasias neoconservadoras de transformar outros países por meio da aplicação unilateral do poderio militar estadunidense. Igualmente, a nossa política deve ir além do realismo de equilíbrio de poder do século passado [referência à linha seguida pela facção representada pelo ex-secretário de Estado Henry Kissinger]. Nesse novo mundo interdependente, nós precisamos de um Novo Realismo – orientado por um entendimento de que, para defender os nossos interesses nacionais, nós devemos, mais do que nunca, encontrar terreno comum com outros, de modo a que possamos conduzi-los no rumo dos nossos propósitos comuns.

 

(...) Para serem efetivos nas próximas décadas, os EUA devem estabelecer as seguintes prioridades. Acima de tudo, devemos reconstruir as nossas alianças. Não podemos liderar outras nações na busca de soluções para problemas compartilhados se elas não confiam na nossa liderança. Precisamos restaurar o respeito e a apreciação pelos nossos aliados – e pelos valores democráticos que nos unem -, se quisermos trabalhar com eles para resolver os problemas globais. Devemos restaurar o nosso compromisso com o Direito Internacional e a cooperação multilateral. (...)

 

Finalmente, os EUA deveriam liderar a luta global contra a pobreza, que é a base de tanta violência. Por meio dos exemplos e da diplomacia, devemos incentivar todos os países desenvolvidos a honrar os seus compromissos com as Metas de Desenvolvimento do Milênio da ONU... Precisamos de um Banco Mundial enfocado na redução da pobreza e de um Fundo Monetário Internacional com uma abordagem mais flexível para a preservação e construção de redes de segurança social. Devemos promover acordos comerciais multilaterais e bilaterais eqüitativos, que criem empregos em todos os países envolvidos e protejam os trabalhadores e o meio ambiente. Devemos incentivar o uso ampliado de remédios genéricos nos países pobres e estimular parcerias público-privadas para reduzir os custos de um acesso ampliado a drogas antiretrovirais para o combate ao vírus HIV, remédios contra a malária e outros.

 

Mais importante, os EUA deveriam encabeçar um Plano Marshall multilateral para o Afeganistão, o Oriente Médio e a África. Por uma pequena fração do custo da guerra no Iraque, que tem produzido tantos inimigos para nós, poderíamos fazer muitos amigos. Um esforço crucial no combate ao terrorismo deve ser um apoio à educação pública no mundo muçulmano, que é a melhor maneira de mitigar o papel das madrassas que fomentam o extremismo. O desenvolvimento alivia as injustiças e a falta de oportunidades, que são explorados pelos proponentes da violência e do terrorismo.

 

Os desafios adiante de nós são, hoje, inusitados. Nós precisamos aprender com os erros do Governo Bush e adotar estratégias do século XXI para resolver os problemas do século XXI. Nós precisamos ver o mundo como ele realmente é – de modo a que possamos liderar os outros para torná-lo um lugar melhor e mais seguro. Esta é a visão do Novo Realismo, como uma política esclarecida e efetiva para os desafios de uma nova era: uma política realista e baseada em princípios, a qual veja o mundo por intermédio de olhos frios, mas seja inspirada por princípios ardorosos.

 

Indiscutivelmente, ainda é cedo para antecipar se esse “Novo Realismo” irá prevalecer entre os altos círculos decisórios estadunidenses, embora as tendências manifestadas pela crise sistêmica global favoreçam essa abordagem. Seja como for, o visível esgotamento da aventura imperial dos EUA implica para os demais países no grande desafio de se relacionar com uma superpotência não mais hegemônica e com o orgulho ferido, de uma forma construtiva e positiva, sem incorrer nos extremos do antiamericanismo pueril das esquerdas ressentidas e revanchistas, ou do adesismo quase automático dos que não conseguem imaginar para seus países qualquer perspectiva de futuro que não esteja vinculada aos interesses econômicos e políticos estadunidenses. A interação e o rumo de tais esforços irá condicionar grandemente o cenário global no futuro próximo.

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