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EUA: prioridades bélicas custam caro à infra-estrutura

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Assim como havia acontecido com a ruptura do dique de proteção de Nova Orleans, em 2005, com o estouro de uma tubulação de vapor de alta pressão em Nova York (construída em 1924), há três semanas, e numerosos outros acidentes de menor repercussão, o desabamento da ponte rodoviária sobre o rio Mississipi, em Minneapolis, no final da tarde de 1º. de agosto, foi mais uma tragédia que esperava pelo seu momento. A acentuada deterioração da infra-estrutura física dos EUA é um fato amplamente conhecido e alertado pelos especialistas. Em 2001, a Sociedade Americana de Engenheiros Civis (ASCE) divulgou um contundente estudo (Report Card 2001), no qual o estado geral da infra-estrutura nacional recebeu a classificação D em uma escala de A a E. O relatório alertava que a “atualização” do sistema como um todo iria requerer investimentos de 1,3 trilhão de dólares nos cinco anos seguintes.

 

O relatório da ASCE resumia assim a situação das rodovias, pontes estadunidenses:

 

Rodovias: D . Um terço das principais estadas do país encontram-se em condições precárias ou medíocres, o que acarreta aos usuários prejuízos anuais estimados em 5,8 bilhões de dólares. 27% das freeways urbanas, que respondem por 61% do tráfego, estão saturadas.

 

Pontes: C. Em 1998, 29% das pontes encontravam-se estruturalmente deficientes ou funcionalmente obsoletas, um aumento de 31% sobre o nível de 1996. O custo estimado da eliminação de todas as deficiências das pontes do país é de 10,6 bilhões de dólares durante 20 anos.

 

A tragédia de Nova Orleans é, igualmente, conseqüência do abismo cada vez mais profundo existente entre os interesses e a agenda política do Establishment dirigente e as necessidades da população estadunidense. Na ocasião, o ex-secretário assistente do Tesouro (Governo Reagan) Paul Craig Roberts, disparou:

 

Antes de 11 de setembro, a Agência Federal de Manejo de Emergências advertiu que Nova Orleans era um desastre esperando para acontecer. O Congresso autorizou o Projeto de Controle de Enchentes Urbanas do Sul da Louisiana (SELA), para proteger o estratégico porto, as refinarias e a grande população. Entretanto, após 2003, os recursos para o SELA foram desviados para a guerra no Iraque. Durante 2004 e 2005, o (jornal) Times-Picayune de Nova Orleans publicou nove artigos sobre a prioridade da guerra no Iraque sobre a proteção contra furacões em Nova Orleans. Cada especialista e jornal, em lugares tão distantes como o Texas, via a catástrofe de Nova Orleans se aproximando. Mas o presidente Bush e seu governo insano preferiram a guerra no Iraque a proteger os estadunidenses em casa. A guerra de Bush deixou o Corpo de Engenheiros do Exército com apenas 20% do orçamento para proteger Nova Orleans contra uma inundação do lago Pontchartrain. Em 18 de junho de 2004, o gerente de projetos do Corpo, Al Naomi, disse ao Times-Picayune: 'Os diques estão cedendo. Se não obtivermos o dinheiro para levantá-los, não poderemos controlar a subsidência.'"

 

Além dos desvios orçamentários, a prioridade belicista do Governo Bush contribuiu para agravar as conseqüências do desastre com a mobilização de cerca de 40% dos efetivos e da maior parte dos equipamentos pesados da Guarda Nacional do Alabama, Louisiana e Mississipi, que estavam no Iraque quando as chuvas do furacão Katrina romperam o dique do lago Pontchartrain.

 

Vale reler o magistral libelo do jornalista Chris Floyd, divulgado no sítio Empire Burlesque, que toca na essência da tragédia que não é apenas dos EUA, mas está no cerne da crise sistêmica-civilizatória global:

 

Onde estavam os recursos públicos - a manifestação física do compromisso da cidadania com o bem comum - que poderiam ter mitigado grandemente os efeitos brutais desse desastre natural?... Mas, por mais culpada, criminosa e asquerosa  que seja a Administração Bush, ela é apenas a apoteose de uma tendência dominante na sociedade estadunidense, que vem ganhando força há décadas: a destruição da idéia de um bem comum, um setor público cujos benefícios e responsabilidades sejam compartilhados por todos e dirigidos pelo consenso dos governados... Na medida em que o militarismo áspero e agressivo e o brutal ethos corporativo que Bush tem injetado na corrente principal da sociedade estadunidense continue a espalhar o seu veneno, veremos menos e menos recursos disponíveis para nutrir o bem comum. Na medida em que o processo político se torna mais e mais corrupto, sempre mais uma criação de manipuladores da elite e seus covardes carregadores de malas, veremos os pobres e fracos e, até mesmo a classe média, serem atirados mais e mais à parte baixa da sociedade, onde cada tempestade que passe - econômica, política ou natural - irá ameaçar os seus lares, seus modos de vida e a sua própria existência.

 

Quase exatamente dois anos depois, escrevendo em 3 de agosto sobre o desastre de Minneapolis, Floyd voltou ao assunto de forma não menos certeira, com um artigo emblematicamente intitulado “Tudo está quebrado: dinheiro, poder e a ponte de Minneapolis”. Diz ele:

 

Todo mundo com uma certa idade – e não muito avançada – sabe perfeitamente bem, por experiência própria, como a infra-estrutura do país tem sido deixada deteriorar e apodrecer nas últimas três décadas. É possível ver com os próprios olhos como a ascendência absoluta do capitalismo do compadrio – o “livre mercado” de cartas marcadas se refestelando em arreglos orgiásticos e leis adocicadas criadas por camaradas bem subornados – tem transformado o país em uma monocultura feia, decadente e descuidada, estabelecida sobre estradas arrebentadas, cidades abandonadas e vidas duras e difíceis. (...)

As pessoas acham que o fosso que se expande rapidamente entre os ricos mais ricos e todo o resto é apenas a maneira como são as coisas, quando, de fato, ele é totalmente inusitado nos EUA. Outra vez, não é preciso ser muito velho para se recordar de quando as coisas não eram assim. E não estou falando sobre algum tipo de nostalgia utópica, em que a corrupção e o compadrio fossem desconhecidos. Tais coisas sempre estiveram e sempre estarão conosco. O que é diferente, hoje, é a escala vastamente ampliada da corrupção e do compadrio e a sua amplificação ativa, implacável e incessante pelo governo – além do sempre crescente efeito cumulativo, ano após ano, desse apodrecimento sobre a nossa infra-estrutura, a nossa política e as nossas vidas. (...)

Na mesma tecla, bateu o jornalista Robert Freeman, escrevendo em 5 de agosto no sítio CommonDreams.org:

 

O colapso da ponte em Minneapolis... é um estudo de caso do que acontece quando uma nação estabelece erradamente as suas prioridades. Nos últimos seis anos, os EUA têm gasto trilhões de dólares canalizando isenções de impostos para os ricos, pagando juros da dívida nacional e invadindo outras nações em guerras de escolha. Empiricamente, estas têm sido as nossas prioridades.

 

Enquanto isso, temos negligenciado a plataforma física – as rodovias, pontes, represas, sistemas ferroviários etc. – sobre os quais opera toda a economia. Se continuarmos assim, o colapso maior será o da própria economia. Como ocorreu com a ponte de Minneapolis, não será uma questão de “se”, mas de “quando”.

 

E não se pense que os protestos vêm apenas de jornalistas independentes e desvinculados do Establishment. Menos de 24 horas após a tragédia de Minneapolis, o ultra-seleto Conselho de Relações Exteriores (CFR) de Nova York colocou em seu sítio um artigo do seu pesquisador sênior Stephen Flynn, um especialista em infra-estrutura e segurança nacional, que também vem alertando há tempos para o que chama “a América quebradiça”. Em suas palavras:

 

O fato é que os estadunidenses vêm desperdiçando o legado de infra-estrutura herdado das gerações anteriores. Como filhos mimados de pais ricos, nos comportamos como se não tivéssemos idéia do que se requer para sustentar a qualidade das nossas vidas diárias. A nossa eletricidade nos chega por meio de um sistema de geradores, transformadores e linhas de transmissão velhos de décadas – um sistema que faz os executivos das empresas prestadoras de serviços prender coletivamente a respiração em cada dia quente de julho e agosto. Nós já tivemos um sistema de transportes que era a inveja do mundo. Agora, somos mais conhecidos pelas nossas estradas congestionadas, portos de segunda classe, trens de passageiros de terceira e um sistema primitivo (sic) de controle de tráfego aéreo. Muitos dos grandes projetos de obras públicas do século XX – represas e eclusas, pontes e túneis, aqüíferos e aquedutos e, até mesmo, o sistema interestadual de auto-estradas de Eisenhower – atingiram os limites de suas vidas úteis ou já os ultrapassaram.

 

No final das contas, os investigadores podem descobrir que as razões pelas quais a ponte I-35W ruiu são singulares e extraordinárias. Mas as imagens gráficas do pavimento caído, veículos empilhados, pilares retorcidos e resgates heróicos são um lembrete de que a infra-estrutura não pode ser negligenciada. O olho fechado que os contribuintes e os nossos funcionários eleitos têm mantido para com os imperativos da manutenção e melhoramento das fundações críticas sobre as quais estabelecemos as nossas vidas é irracional e temerário.

 

Em janeiro último, Flynn lançou o livro The Edge of Disaster: Rebuilding a Resilient Nation (À beira do desastre: reconstruindo uma nação resiliente), no qual argumenta que uma infra-estrutura decente é a melhor forma de proteger o país contra desastres naturais e ataques terroristas como os de 11 de setembro de 2001.

 

Assim como os aviões de carreira, pontes não costumam cair por obra e graça das forças naturais. Geralmente, ambos são derrubados por acúmulos de desrespeitos aos requisitos básicos de funcionamento de uma sociedade industrializada e tecnológica, em que o respeito ao Princípio do Bem Comum deveria ser a norma prevalecente.

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