EUA: os limites da hegemonia
14.02.2007 (MSIa) - Um dos fenômenos mais determinantes para o futuro imediato da Humanidade é o visível esgotamento da hegemonia dos EUA como uma superpotência imperial, capaz de atuar como um pólo de poder isolado e impor quase unilateralmente ao resto do mundo os desígnios de suas elites dirigentes. Embora essa erosão de poder não implique necessariamente em uma derrocada, o fato é que os EUA se vêem às voltas com a necessidade de se ajustar à reorganização da ordem mundial em curso, que os obrigará a compartilhar o poder e as responsabilidades globais com outros atores. O tema - literalmente explosivo - tem sido objeto de acirradas discussões no âmbito do Establishment estadunidense e entre seus pares internacionais, sendo que fora do país já está sendo considerado por muitos um fato irreversível, como se viu na recente reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos. Nos próprios EUA, alguns observadores criaram a expressão "além da hegemonia" (beyond hegemony) para rotular o novo cenário em que o país deverá se enquadrar.
Uma das primeiras manifestações dessa percepção, vindas de um graduado integrante do Establishment, foi um artigo do ex-conselheiro de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski (Governo Carter) no primeiro número da revista The American Interest (Outono de 2005), criada por ele e outros - entre eles Francis "Fim da História" Fukuyama -, como um fórum de discussões sobre o novo papel dos EUA no mundo. No artigo, intitulado "O dilema do último soberano", afirma:
Os EUA precisam confrontar honestamente uma nova realidade global de importância central: que a população mundial está experimentando um despertar político sem precedentes em escopo e intensidade... A necessidade de responder a esse fenômeno maciço coloca aos peculiarmente soberanos EUA um dilema histórico: qual deveria ser a definição central do papel global dos EUA? As discussões sérias sobre este tema crucial mal começaram.
Sua conclusão é certeira:
Hoje, após o 11 de setembro, o mundo politicamente erguido espera mais dos EUA - que se abram com um compromisso sério para elevar a condição humana. Somente com a sua soberania dedicada, de uma forma historicamente relevante, a uma causa maior que a sua própria segurança, os interesses dos EUA voltarão a coincidir com os interesses globais.
Brzezinski tem sido um dos mais severos críticos das políticas dos "neoconservadores" que controlam o Governo Bush, especialmente a invasão do Iraque, a qual considera um dos mais graves erros estratégicos da história dos EUA.
É significativo que o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), no qual Brzezinski é senior scholar, tenha realizado recentemente uma semana de debates sobre o assunto. Na ocasião, o vice-presidente executivo da Fundação Nova América (New America Foundation), Steven Craig Clemons, apresentou uma palestra com o sugestivo título "A transição dos EUA de superpotência dominante global a grande potência 'normal'", na qual afirmou que
durante os meus comentários eu comparei a luta do Japão para se tornar "uma nação normal" com o tipo de desafio agora enfrentado pelos EUA - que é como fazer a transição entre ser uma superpotência dominante global para uma "grande potência normal".
Na oportunidade, Clemons citou um artigo do editor da revista National Journal, Paul Starobin, publicado na edição de 1º. de dezembro, justamente intitulado "Além da hegemonia". Diz Starobin:
Para os EUA, a principal conseqüência de não ser mais o hegemon poderá ser tanto psicológica como material. "Em realidade, a única característica verdadeiramente excepcional dos EUA é a sua crença no seu excepcionalismo", diz o historiador Bernard Porter em seu novo livro Empire and Superempire (Império e Super-Império). Tal crença, ou mito, receberia um golpe mortal com o fim da hegemonia. E pelo fato de que o super-império estadunidense "excede todos os impérios anteriores que o mundo conheceu", como observa Porter, a queda poderá ser maior.
Nos corredores de Davos, o desgaste estadunidense foi discutido como favas contadas, como indicava o próprio tema geral do encontro - "A equação da mudança de poder" -, definida pelo diretor-executivo do Fórum, Rick Samans, como "uma nova geometria de ação coletiva e governança colaborativa em um mundo caracterizado pela crescente dispersão de influência econômica e política".
Entretanto, o golpe mais direto contra a estratégia unipolar estadunidense foi o duríssimo discurso do presidente russo Vladimir Putin, na Conferência de Segurança de Munique, em 10 de fevereiro. Sem meias palavras e sem qualquer concessão à linguagem diplomática tradicional, Putin questionou abertamente as pretensões hegemônicas de Washington, ao afirmar que "o que está acontecendo no mundo de hoje... é uma tentativa de introduzir precisamente esse conceito nos assuntos internacionais, o conceito de um mundo unipolar".
Estamos vendo um desdém cada vez maior pelos princípios básicos do direito internacional... Um Estado e, é claro, preponderamentemente, os EUA, tem extravasado as suas fronteiras nacionais de todas as formas. Isto é visível nas políticas econômicas, políticas, culturais e educacionais que ele impõe às outras nações. Bem, quem gosta disso? Quem está feliz com isso? (...)
Eu estou convencido de que chegamos àquele momento decisivo, no qual devemos pensar seriamente sobre a arquitetura de segurança global. E devemos proceder pela busca de um equilíbrio razoável entre os interesses de todos os participantes do diálogo internacional. Especialmente, uma vez que o cenário internacional é tão variado e muda tão depressa - mudanças à luz do desenvolvimento dinâmico em todo um conjunto de países e regiões.
Recebidas com reações iradas nos dois lados do Atlântico (no caso europeu, como uma espécie de reflexo condicionado), as palavras de Putin, não obstante, refletem a realidade inescapável de que o poderio militar e a condição do dólar como moeda de referência da "globalização" não se mostram mais suficientes para assegurar a hegemonia à qual estão acostumados os donos do poder em Washington e Nova York. Em termos militares, as operações no Afeganistão e no Iraque estão expondo as limitações da força bruta como instrumento de ação política (no primeiro caso, incluindo a perspectiva de desmoralização da Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN). No campo econômico, o crescentemente desvalorizado dólar se assemelha cada vez mais a uma moeda meramente escritural, sem o lastro da anteriormente prodigiosa capacidade produtiva estadunidense, especialmente industrial, a qual, ironicamente, vem sendo a grande vítima da "globalização" financeira, juntamente com a depauperada classe média do país.
Uma das opções contempladas nas discussões internas do Establishment seria uma retração dos EUA a um isolamento político e econômico, como medida defensiva, aí incluída uma nova investida para o restabelecimento de uma parcela mais ou menos significativa de sua antiga hegemonia sobre o Hemisfério Ocidental. O problema é que a grande deterioração da capacidade industrial estadunidense não favorece esta alternativa.
Entretanto, o que se prefigura com mais clareza é a possibilidade de que os setores do Establishment oligárquico beneficiários do poderio militar-econômico-financeiro dos EUA, que já admitem a perda da posição hegemônica do país, partam para um esforço de consolidação de cenários alternativos de "governo mundial" para assegurar os seus privilégios. Um exemplo seria o estabelecimento de um esquema de restrições globais ao desenvolvimento por conta da suposta ameaça do aquecimento global ou o "gerenciamento" de eventuais conflitos causados por disputas por recursos e desastres naturais (missões que vêm sendo estudadas para a OTAN).
A alternativa positiva, ainda impensável para tais círculos, seria uma retomada da liderança global para uma imprescindível reforma da atual ordem de poder, a começar pelo sistema financeiro internacional, a qual seria seguida por um "New Deal global", um vasto programa de reconstrução da economia mundial, cujos principais beneficiários seriam os próprios EUA.



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