EUA: "velha guarda" x "neocons"
13 de dezembro (MSIa) - A divulgação e a grande publicidade conferida ao relatório do Grupo de Estudos sobre o Iraque (ISG, sigla em inglês), mais conhecido como "Relatório Baker", que já ganhou uma edição em livro, fazem parte do esforço dos setores mais tradicionais do Establishment anglo-americano para impedir que o catastrófico Governo George W. Bush e seus "neoconservadores" sepultem a hegemonia e a influência internacional dos EUA, seriamente ameaçadas pelos desdobramentos dos conflitos no Iraque e no Afeganistão. Embora os "neocons", aparentemente, tenham vencido o primeiro round da feroz luta travada nos bastidores do poder em Washington, com a recusa pública de Bush em seguir duas das principais sugestões do documento - negociações diretas com o Irã e a Síria e uma redução imediata dos efetivos militares no Iraque -, a facção representada pelo ex-secretário de Estado James Baker (Bush pai) não se deixou intimidar, chegando ao ponto de enviar ao presidente um recado ostensivo, ao estilo dos velhos acertos de contas mafiosos.
Em um depoimento ao Comitê das Forças Armadas do Senado, na quinta-feira 7 de dezembro, ele foi enfático, ao sugerir que as recomendações do relatório fossem majoritariamente adotadas pela Casa Branca:
Eu espero que isso não seja como uma salada de frutas e eu digo, eu gosto disto, mas não gosto daquilo. Essa é uma estratégia abrangente, elaborada para lidar com esse problema que estamos enfrentando no Iraque, mas também elaborada para lidar com outros problemas que enfrentamos na região, para restaurar a estatura e a credibilidade dos EUA naquela parte do mundo.
A resposta foi imediata, tendo dois porta-vozes da Casa Branca se revezado em transmitir a mensagem do chefe. Dana Perino afirmou que as sugestões do relatório serão consideradas juntamente com outras avaliações que estão sendo feitas pelo Pentágono, o Departamento de Estado e o Conselho de Segurança Nacional. E rebateu os comentários de Baker: "Eu entendo que o comentário de ontem do secretário Baker sobre a salada de frutas é descritivo, acho eu, de como eles se sentem sobre isso. Entretanto, eu não acho que o presidente o considere algum tipo de comida. Porém, eu acho que ele irá digeri-lo e tomará o tempo que for necessário para descobrir como ele quer ir em frente."
Por sua vez, o porta-voz principal, Tony Snow, afirmou que Bush, "como comandante-em-chefe, ainda tem a obrigação de levar a sério cada pedaço de análise e assessoria que consiga, e tomar as suas próprias decisões".
Em um artigo publicado no sítio Information Clearing House, em 9 de dezembro, o arguto comentarista Mike Whitney sintetiza a disputa, cujo desfecho, acredita ele, irá determinar o curso da política exterior estadunidense até o final da década:
Então, as linhas de batalha foram traçadas. De um lado, temos James Baker e seus colegas de classe corporativos que querem restaurar a ordem, ao mesmo tempo em que preservam o papel imperial dos EUA na região. Do outro, temos os neo-trotsquistas e jacobinos-israelenses que buscam um Oriente Médio fragmentado e caótico, onde Israel seja a potência dominante.
O único grupo que não tem voz nessa "Batalha dos Titãs" é o povo estadunidense. Eles perderam o que restava de sua decadente influência política em algum momento em torno da coroação de George Bush, em 2000.
De qualquer modo, Baker e seus pares não irão ficar sentados assistindo ao império (e o poderio militar) que construíram com suas próprias mãos ser sistematicamente pulverizado por uma cabala de zelotas que perseguem uma agenda que serve apenas aos linha-duras israelenses.
Isso não vai acontecer. Espere-se que Baker mobilize a artilharia pesada e lute com unhas e dentes para reafirmar a primazia da classe dominante estadunidense. "O Lobby" (israelense - n.e.) pode ser poderoso, mas vai ser duro tomar o país das pessoas que acreditam que o possuem. A luta entre os pesos pesados políticos está prestes a se tornar uma guerra aberta.
Como Bush já afirmou que pretende tomar uma decisão sobre o Iraque até o final do ano e, muito provavelmente, ela não estará em sintonia com o que propõe a "velha guarda" representada por Baker, o presidente e sua camarilha "neocon" poderão se ver às voltas com um recrudescimento dos golpes abaixo da cintura desfechados contra eles. Com um Congresso dominado pelos democratas, a partir de janeiro, não será surpresa se a palavra impeachment começar a ser repetida nos corredores do Capitólio, mesmo que apenas como elemento de intimidação. De qualquer maneira, será interessante e didático acompanhar como o Establishment oligárquico resolve as suas pugnas internas.



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