EUA: dilemas e ameaças dos “neocons”
Definitivamente, a estratégia hegemônica belicista dos "neoconservadores" que dominam o governo George W. Bush está escancarando ao mundo os limites da capacidade de imposição de uma agenda externa pela força militar, mesmo para a maior potência da História. Ao mesmo tempo, vários fatos ocorridos nos últimos dias denotam a intensidade da "guerrilha" de bastidores travada por importantes setores do Establishment que já consideram Bush e seus "neocons" como um problema do qual precisam se livrar.
No domingo 24 de setembro, o jornal The New York Times divulgou trechos da mais recente Estimativa de Inteligência Nacional (NIE, na sigla em inglês) sobre a situação no Iraque, cujas principais conclusões são as de que a invasão do país gerou uma nova geração de radicalismo islâmico e que, ao contrário do pretendido, a ameaça do terrorismo só tem aumentado desde os ataques de 11 de setembro de 2001.
O documento, devidamente vazado para a imprensa, representa a primeira avaliação formal do terrorismo global feita pelo conjunto das 16 agências de inteligência estadunidenses desde o início da guerra no Iraque, e é muito mais contundente ao atribuir a expansão do radicalismo à invasão do que documentos sobre o assunto recentemente divulgados pela Casa Branca e pelo Comitê de Inteligência da Câmara dos Deputados. Embora o diretor nacional de Inteligência, John Negroponte, tenha se apressado em afirmar que tais conclusões representam apenas uma parte do documento, que seria "positivo" no cômputo geral, o seu vazamento denota o crescente afastamento da comunidade de inteligência em geral da agenda "neocon".
A divulgação do relatório ocorreu dias depois que um investigador especial das Nações Unidas, o jurista austríaco Manfred Nowak, afirmou que a tortura no Iraque está fora de controle. "A situação é tão ruim que muita gente diz que ela está pior do que na época de Saddam Hussein. Você tem os grupos terroristas, os militares, a polícia, essas milícias. Há muita gente que é seqüestrada, seriamente torturada e, finalmente, morta", disse ele em Genebra, na semana passada.
Nowak é um dos cinco investigadores de direitos humanos da ONU que, em fevereiro último, pediu o fechamento do campo de detenção estadunidense em Guantánamo, Cuba, por considerá-lo um "centro de tortura".
A sucessão de problemas para os "neocons" prosseguiu na segunda-feira 25, com a notícia de que o chefe do Estado-Maior do Exército, general Peter Shoomaker, se recusou a encaminhar o orçamento do Exército para o ano fiscal de 2008, por considerá-lo insuficiente para a extensão das tarefas designadas para a arma. Segundo o Los Angeles Times, a iniciativa inusitada sinaliza uma crença generalizada dentro da força, de que para compatibilizar o orçamento aprovado pelo Congresso com a realidade será preciso promover uma significativa redução das tropas no Iraque. "A discussão é: para onde estamos indo? Ou reduzimos a nossa estratégia ou aumentamos os nossos recursos? É nisto que estamos", disse um alto oficial do Pentágono que, por motivos óbvios, preferiu o anonimato.
Para alguns analistas, a decisão está sendo considerada um sinal da crescente revolta entre o alto comando militar com a agenda da Casa Branca, que está levando as forças de terra estadunidenses além dos seus limites operacionais. Na sexta-feira 22, o Exército anunciou que está considerando a mobilização de novas unidades das reservas e da Guarda Nacional (originalmente estabelecida para operar somente em território nacional) para enviar ao Iraque e ao Afeganistão - medida que, invariavelmente, provoca um enorme desgaste político.
Por outro lado, os "neocons" não dão o braço a torcer e procuram se manter na ofensiva com uma estratégia deliberadamente ambígua em relação ao Irã e seu programa nuclear, diante do qual Bush e seus auxiliares se recusam categoricamente a excluir a opção militar - ao contrário, procuram dar a impressão de que um ataque aéreo contra as instalações nucleares iranianas poderá ocorrer até o final de outubro, antes das eleições de 7 de novembro. Nos últimos dias, por exemplo, vazou a informação de que o grupo de ataque do porta-aviões Eisenhower recebeu ordens de se por ao mar em 1º de outubro e se dirigir ao Golfo Pérsico, onde deverá chegar por volta do dia 21. Juntamente com o Enterprise, que já se encontra no mar da Arábia em operações contra a insurgência afegã, os dois grupos poderiam ser a ponta de lança de uma eventual operação militar contra Teerã.
Embora, como tenhamos insistido, semelhante ataque possa parecer uma insanidade a qualquer observador minimente racional, devido às suas tremendas e incontroláveis repercussões, é preciso sempre levar em conta a possibilidade de que esta seja exatamente a perspectiva dos "neocons", a de aprofundar ainda mais o já suficientemente conturbado Oriente Médio. Em um artigo divulgado em 25 de setembro, no sítio Counterpunch, o insuspeito ex-secretário Assistente do Tesouro Paul Craig Roberts, um implacável crítico dos "neocons" observa:
Como podem os planos de guerra do governo Bush ser conciliados com a opinião dos especialistas de que as conseqüências seriam bastante sombrias para os EUA? Talvez, a resposta seja a de que o que parece ser irracionalidade para os especialistas seja racionalidade para os neoconservadores. Os "neocons" buscam o máximo de caos e instabilidade no Oriente Médio, para justificar a ocupação da região pelos EUA a longo prazo. Seguindo esta linha de raciocínio, os "neocons" considerariam a perda de um porta-aviões no Golfo Pérsico como uma maneira de solidificar o apoio público à guerra. A raiva pública estadunidense contra os iranianos poderia até mesmo resultar em apoio público para o serviço militar obrigatório, para se vencer a "guerra ao terror".
Roberts sugere que "o governo Bush poderia alinhar o Congresso, anunciando um incidente do tipo 'Golfo de Tonquim' ou orquestrando um 'ataque terrorista'... Tudo o que Bush tem que fazer é continuar com suas mentiras para levar o público estadunidense a uma histeria de guerra". Como se sabe, o chamado incidente do Golfo de Tonquim, um ataque inexistente de lanchas torpedeiras norte-vietnamitas contra um destróier estadunidense, foi manipulado pelo governo Lyndon Johnson para levar o Congresso a justificar o envolvimento direto dos EUA no conflito do Vietnã.
Já se disse que um animal selvagem acuado se torna muito mais perigoso. Por isso, é fundamental observar com muita atenção o comportamento dos "neocons" e os acontecimentos nas semanas que restam até as eleições estadunidenses.



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