EUA: infra-estrutura em pedaços
30 de agosto (MSIa) - Um oleoduto no Alasca precisa ser colocado fora de serviço por vários meses por problemas de corrosão, interrompendo um fluxo diário de 200 mil barris de petróleo para os EUA. Um sistema de pousos por instrumentos do aeroporto internacional de Los Angeles (o mais movimentado do mundo) falha por duas vezes na mesma semana, provocando desvios de vôos e enormes prejuízos. A sede da Agência de Segurança Nacional (NSA), a mais sofisticada e sigilosa agência de inteligência estadunidense, corre o risco de ficar sem eletricidade. Tais problemas não são resultantes de ações terroristas, mas da colossal deterioração da infra-estrutura física dos EUA, que tem se manifestado na mesma proporção da financeirização da economia do país nas últimas décadas, e cuja recuperação é muito mais relevante para o futuro do país do que as aventuras militares da "guerra ao terror", como já perceberem certos setores do Establishment estadunidense.
Um artigo divulgado pela agência Newhouse News Service ("Especialistas advertem que EUA estão caindo aos pedaços") dá uma boa amostra das dimensões do problema.
Um estudo divulgado no ano passado pela Sociedade Americana de Engenheiros Civis (ASCE) deu a nota "D" (na escala A-E) ao conjunto das condições da infra-estrutura nacional, estimando que a correção dos problemas irá requerer necessários investimentos da ordem de 1,6 trilhão de dólares durante um período de cinco anos.
"Quando vejo eventos como esses, fico preocupado com o fato de que nós perdemos o foco na funcionalidade operacional da infra-estrutura nacional, e estamos nos tornando uma nação frágil, o que é tão ruim ou pior do que ser uma nação insegura", disse o diretor do sítio Homeland Security Watch, Christian Beckner.
"Se um grupo terrorista fosse capaz de tirar do ar a NSA, ou desarticular um dos aeroportos mais movimentados do país, ou interromper o oleoduto mais importante do país, o impacto seria percebido como devastador. No entanto, nós estamos, essencialmente, deixando que essas coisas aconteçam a nós mesmos", acrescentou.
Fazendo coro com ele, o diretor de Assuntos Externos do grupo, Casey Dinges, lamentou: "Eu pensei que o (furacão) Katrina seria uma droga de um grito de alerta, mas as pessoas estão perdendo o alarme."
Um recente relatório da Comissão de Infra-estrutura Pública do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), um dos mais influentes think-tanks do pais, qualificou a deterioração da infra-estrutura estadunidense como "alarmante". Entre outros exemplos, o estudo mostra que mais de um quarto das pontes têm deficiências estruturais ou são simplesmente obsoletas, o mesmo ocorrendo com a metade das eclusas operadas pelo Corpo de Engenheiros do Exército. Além disso, serão necessários investimentos anuais de 11 bilhões de dólares apenas para reparar as redes de fornecimento de água.
O diretor-executivo da comissão, Everett Ehrlich, aponta três motivos principais para a inação política sobre o problema: 1) o sistema político é orientado para reagir às crises, em vez de evitá-las; 2) alguns políticos não vêem a infra-estrutura como uma responsabilidade federal; 3) muitos problemas estão fora da vista e, para o público, fora das mentes.
Aos poucos, o peso da realidade vai fazendo com que algumas cabeças comecem a ver o mundo real sem os antolhos da "globalização" financeira, em especial quanto às falácias sobre a retirada do Estado dos setores de infra-estrutura. Para os países ibero-americanos, principalmente os maiores, como o Brasil, Argentina, México e outros, é de todo conveniente que suas lideranças atentem para tais fatos.



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