EUA: Bush em saia justa
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Em meio à epidemia de problemas que tem atingido os mandatários do continente, George W. Bush tem uma cota proporcional à magnitude das pretensões hegemônicas de seu grupo de "neoconservadores". Nos últimos dias, os contratempos se acentuaram consideravelmente, tanto nos campos de batalha externos, mas, não menos, na frente interna, onde setores do Establishment já começam a se preocupar com a possibilidade de que uma ou mais revelações sobre o conflito iraquiano possa explodir dentro da Casa Branca. Para começar, o plenário do Senado rejeitou a indicação do ultra-reacionário John Bolton para a representação nas Nações Unidas. Apesar de sua cômoda maioria de 10 membros na casa, vários republicanos se colocaram contrários à indicação e o resultado foi um vexaminoso placar de 54 x 38 contra Bolton. Embora Bush ainda possa nomeá-lo sem a confirmação parlamentar quando o Congresso entrar em recesso, em julho, a rejeição foi uma contundente derrota política para o presidente e seu grupo. Outro revés foi a reeleição do egípcio Mohamed El Baradei para um terceiro mandato à frente da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Reconduzido por aclamação pelos 35 membros do conselho de governadores da agência, El Baradei é um desafeto de Bolton e seu grupo, que o acusam de ser muito "suave" com o programa nuclear do Irã. O resultado é mais uma demonstração da erosão da influência de Washington, que desfechou uma ativa campanha contra o diretor. Ainda no Congresso, Bush recebeu dois outros golpes. O primeiro, de um até então sólido aliado republicano, o deputado da Carolina do Norte Walter Jones, que passou a acusar o governo de ludibriar o Congresso com "inteligência falha" para justificar a invasão do Iraque. Esta semana, Jones pretende apresentar um projeto de lei determinando ao governo o estabelecimento imediato de uma estratégia de saída para o conflito. Embora sua aprovação não seja garantida, a medida conta com o apoio de um número crescente de deputados e dá idéia do desgaste provocado pelo prolongamento da invasão na casa. Jones foi o parlamentar que, diante da oposição da França à invasão, propôs a mudança do nome das batatas fritas, de french fries para freedom fries. O segundo golpe, na quinta-feira 16, veio do campo democrata, com a audiência promovida pelo deputado John Conyers sobre o chamado "memorando de Downing Street", que a liderança republicana tentou sabotar de todas as formas. O memorando é uma transcrição de uma reunião do primeiro-ministro britânico Tony Blair com seus principais assessores, 10 meses antes da invasão do Iraque, na qual se discute que a Casa Branca já estava decidida à ação militar e que as informações de inteligência estariam sendo "ajustadas" para justificar o ataque. Em uma pequena sala destinada ao evento pelos republicanos, literalmente centenas de pessoas tiveram que se apertar para ouvir os credenciados depoentes: o ex-embaixador Joseph Wilson, o veterano analista da CIA Ray McGovern, o prestigioso advogado constitucionalista John Bonifaz e Cindy Sheehan, líder da organização Gold Star Families, que reúne familiares de militares mortos no Iraque e Afeganistão. Em especial, o depoimento de McGovern foi contundente, expondo como, na reunião de 23 de julho de 2002, o então chefe do MI-6 britânico, sir Richard Dearlove, descreveu a sua recente visita a Washington, onde se reuniu com altos funcionários do Governo Bush, inclusive o então diretor da CIA George Tenet. Suas observações sobre a disposição estadunidense: a guerra era vista como inevitável; Bush estava determinado a remover Saddam Hussein à força; as justificativas seriam o apoio ao terrorismo e as (inexistentes) Armas de Destruição em Massa; e os fatos e a inteligência estavam sendo ajustados para se adaptar à decisão política. Dessa vez, a mídia estadunidense não pode se omitir, embora os relatos tenham sido limitados e procurado menosprezar ou ridicularizar o evento e seus organizadores. Não obstante, o caso tem um grande potencial para se desdobrar em um escândalo maiúsculo e pelo menos o senador John Kerry, ex-adversário de Bush nas eleições de 2004, já advertiu que é preciso tomar cuidado com tais informações. Embora não tenha dito, é possível que Kerry tenha pensado que Watergate começou com muito menos. Para não prolongar muito o relato das dores de cabeça de Bush, no Iraque, um número crescente de oficiais militares, inclusive de alta patente, já admite abertamente que o conflito não poderá ser resolvido por ações militares. Em uma entrevista divulgada pela cadeia Knight Ridder, o general Donald Alson,o mais graduado porta-voz do Exército, foi claro: "Creio que a maneira mais precisa de abordar isso agora é conceder que... essa insurgência não será resolvida, o terrorismo no Iraque não terá solução com opções militares. Será resolvido no processo político." Outro oficial, o coronel Frederick Wellman, que atua na instrução das forças de segurança iraquianas, foi ainda mais direto: "Não podemos matar todos. Quando mato um, crio mais três." |



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