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Dubai, terremoto no coração do sistema financeiro britânico

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image As faraônicas construções do emirado foram erguidas sobre a areia movediça da lavagem de dinheiro e da especulação financeira

A declaração de moratória da dívida da holding estatal Dubai World, no final de outubro, representou um violento abalo sísmico nas expectativas de "recuperação" da crise econômico-financeira global, ao mesmo tempo em que demonstrou uma vez mais a disfuncionalidade terminal do sistema financeiro britânico (ou anglo-saxão, como preferem alguns), baseado no "comércio de dívidas" e no controle privado da emissão de moeda e crédito. A empresa, com uma dívida de 60 bilhões de dólares, deveria pagar títulos no montante de 4 bilhões em dezembro e o anúncio reverberou como um terremoto, agravado pelo fato de ter sido anunciado na véspera do feriado de Ação de Graças (Thanksgiving) nos EUA e do Festival do Sacrifício (Eid al-Adha) islâmico.

Dubai é um dos principais enclaves financeiros criados pela City de Londres, que, juntamente com o arquipélago de paraísos fiscais instalados nas antigas colônias insulares do Império Britânico, representam o cerne do poderio financeiro do Reino Unido e um dos pilares da hegemonia global que o Establishment das ilhas compartilha com os seus pares dos EUA e alguns apêndices europeus. A inadimplência do emirado remete, igualmente, à questão crucial da disputa em torno do processo de regulamentação financeira e fechamento dos paraísos fiscais, como o presidente francês Nicolas Sarkozy e outros têm ressaltado - até agora sem sucesso, devido às fortes reações da alta finança global encastelada em Londres e Nova York.

Um temor adicional dos mercados financeiros é o de que a crise do emirado possa agravar ainda mais as perspectivas já sombrias que pairam sobre os mercados de títulos governamentais, sendo os mais preocupantes os casos da Letônia, Grécia, Ucrânia e Hungria. Não por acaso, em outubro, o banco francês Société Générale advertiu os seus clientes para se prepararem para um "colapso econômico global", deflagrado pela eventual inadimplência de sucessivos governos (Resenha Estratégica, 25/11/2009).

A reação dos investidores da City pode ser avaliada pela furiosa declaração do administrador de um fundo de hedge britânico ao jornal The Observer (29/11/2009): "Eles não conseguirão levantar mais um centavo sequer na comunidade internacional de investimentos."

Ao mesmo tempo, um comitê internacional de assessores foi rapidamente estabelecido para ajudar o governo do emirado de Dubai na reestruturação da dívida. O grupo é encabeçado pelo chefe das operações de consultoria da casa bancária Rothschild no Oriente Médio, Paul Reynolds, e Aidan Birkett, alto executivo da empresa de auditoria e consultoria Deloitte, sendo integrado por representantes do Deutsche Bank, Citibank, JP Morgan e o Dubai Islamic Bank.

Na linha de frente dos prejudicados pelo pedido de moratória de seis meses no pagamento das dívidas da Dubai World estão os bancos britânicos HSBC, RBS, Barclays, Lloyds e Chartered Standard, que têm quase 50 bilhões de dólares investidos na empresa. Por ironia, a Dubai World é uma espécie de símbolo da economia especulativa prevalecente nas últimas décadas de "globalização financeira", que, no caso do emirado, serviu para criar um ilusório eldorado no meio do deserto, com um faraônico surto de construções megalomaníacas que acabou se revelando ser baseado em areias movediças, como as que costumam engolir viajantes incautos nos desertos da região.

Por isso, não menos irônico é o fato de uma das melhores sínteses do significado do evento ter sido escrita por um dos mais credenciados porta-vozes do Establishment financeiro do Reino Unido, o veterano lorde William Rees-Mogg, em um artigo no jornal The Daily Mail de 29 de novembro. Em suas palavras:

A primeira questão que todo mundo gostaria de ver respondida é se a crise bancária acabou. Tecnicamente, é provável que sim; na realidade, não... Mas a questão real é: será que a economia mundial está se recuperando genuinamente? E, também: terá sido restaurada a confiança? A crise em Dubai, na semana passada, sugere que não. Dubai se parece, desagradavelmente, como uma Islândia do Oriente Médio, na qual, desafortunadamente, os bancos britânicos investiram cerca de 30 bilhões de libras esterlinas.

Este é, de fato, um custo postergado da grande bolha financeira e imobiliária que precedeu a quebra de 2008. Muito dinheiro foi injetado em iniciativas especulativas, cujos valores entraram em colapso. Pode levar anos para que os valores imobiliários em Dubai recuperem os seus níveis pré-2008, se é que o farão.

Pode ser que grande parte da dívida, inclusive a devida aos bancos britânicos, nunca seja paga. O conceito de desenvolvimento de Dubai, que não é um grando produtor de petróleo, foi o de criar um boom imobiliário baseado em dinheiro emprestado. Esta foi uma idéia aceitável apenas porque existia um excesso global de fundos. Dubai foi vítima de uma inundação de dinheiro, assim como a Irlanda ou a Islândia, ou o mercado subprime nos EUA. Desafortunadamente, as estreitas relações da Grã-Bretanha com Dubai significam que foram bancos britânicos que efetuaram uma grande parte desses negócios instáveis. (...)

Os bancos são uma das instituições econômicas essenciais da Grã-Bretanha. A nossa economia depende dos banqueiros para as nossas finanças, assim como dependemos dos soldados para a defesa. Mas os soldados não esperam ser pagos em milhões de libras, independentemente dos resultados que produzam. Há algo errado com um sistema bancário que pagam os banqueiros com milhões, quando eles perderam dinheiro aos bilhões.

Para reforçar ainda mais as evidências de disfuncionalidade do "modelo anglo-saxão" de finanças, a consultora A.T. Kearney divulgou um relatório demonstrando que a concentração de riquezas no Reino Unido está retornando aos níveis vitorianos, com nada menos que 70% da riqueza concentrados nas mãos do 1% mais rico da população, o índice mais alto entre os países industrializados. Comentando o relatório em sua coluna de 25 de novembro, o editor econômico do Daily Telegraph, Edmund Conway, se mostra perplexo com a revelação e apenas consegue afirmar que se surpreende pelo fato de que "ainda não vimos qualquer tipo de convulsão social dramática como resultado disso".

Não obstante, o terremoto de Dubai pode ser apenas um dos abalos precursores dos cataclismas "tectônicos" que espreitam o sistema financeiro global em sua presente forma pró-rentismo. Assim sendo, é possível que Conway não tenha que aguardar muito tempo mais para ver as consequências desse verdadeiro final de um ciclo histórico.

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