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Tempestade financeira: ganhando tempo

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Diante das sucessivas quedas dos dominós do falido sistema financeiro internacional, que se avolumam a cada dia, tem-se a impressão de que os próceres mais graduados da alta finança global, encastelados nos principais bancos centrais do planeta, estão se empenhando apenas em protelar um impasse generalizado, utilizando remédios monetaristas de eficácia questionável contra as causas fundamentais da crise sistêmica, em um esforço quase desesperado de salvar o que for possível do desastre final. Nessa tentativa, tanto pior para as chamadas leis de mercado, pois, na hora do pânico, bancos centrais e governos se atropelam para tentar salvar as instituições financeiras privadas cujos excessos especulativos estão na raiz dessa fase terminal da crise, que se acelera desde meados de 2007, após o estouro da bolha imobiliária nos EUA.

É o caso, por exemplo, das colossais injeções emergenciais de dinheiro feitas pelos principais bancos centrais em dezembro, na casa do trilhão de dólares, em uma tentativa até agora apenas parcialmente bem-sucedida, para reativar os mercados de transações interbancárias paralisados pela desconfiança mútua generalizada dos atores.

O mesmo vale para o pacote de 100 bilhões de dólares de "incentivos" aos consumidores, anunciado na semana passada pelo presidente George W. Bush, como a tábua de salvação contra a recessão econômica do país, cuja ocorrência já é quase unanimidade entre os analistas mais lúcidos. Os "incentivos" consistem no envio de cheques de 250 a 500 dólares a cada família, a título de devoluções fiscais, na expectativa de que esse dinheiro mantenha o apetite das ultra-endividadas pessoas físicas estadunidenses pelo consumo (o consumo doméstico representa 70% do PIB).

Em um artigo divulgado em 14 de janeiro no sítio Information Clearing House, o ferino comentarista Mike Whitney fulmina o plano idealizado pelo secretário do Tesouro Hank Paulson:

O "pacote de estímulo" de Bush é a maior e mais obscena fraude hiperinflacionária jamais perpetrada contra o povo estadunidense. É um pacote de 100 bilhões de dólares, financiado pelos contribuintes, que está sendo embrulhado a toque de caixa para evitar o colapso nos gastos dos consumidores, um êxodo do capital estrangeiro e um doloroso mergulho na recessão... É um ato de extremo desespero planejado para solucionar uma catástrofe que foi criada pela Reserva Federal: o derretimento imobiliário. O desastre do mercado subprime de Greenspan avança a todo vapor em modo de crise e ameaça desfechar um golpe de nocaute na economia global...

A "mão invisível" do mercado - que Bush celebra ad nauseam - será usada para dirigir os helicópteros da Reserva Federal, enquanto eles despejam a riqueza da nação como confetes... Esse brinde multibilionário em dinheiro vivo deveria sepultar de uma vez por todas a tola noção de que a economia de vudu é algo mais do que um truque de charlatão. A teoria ofertista [supply-side, em economês] é uma quimera que leva inevitavelmente ao desastre...

Trinta anos de reaganismo destruíram o país. Eles evisceraram a nossa base industrial, quebraram o contrato social, esmagaram os nossos sindicatos, devastaram as nossas escolas e a infra-estrutura e desviaram as riquezas da nação, da classe média para os 5% do topo da pirâmide. Agora, essa mesma hidra multicéfala está se autodevorando. Os salários estagnaram, o dólar está em queda livre, o sistema bancário está paralisado e o veneno subprime está se infiltrando no sistema global, sacudindo bancos e negócios em todo o mundo. O anêmico pacote de estímulo de Bush não fará nada para reverter essa tendência. Ele é como injetar em um homem moribundo uma dose maciça de metanfetamina. Ela o levantará apenas o suficiente para que ele saiba que está deixando este vale de lágrimas. Que bem isto faz?

Nessa corrida contra o tempo, a alta finança tem recebido um apoio um tanto inesperado - o dos temidos fundos de riqueza soberana controlados pelos governos de países asiáticos, que já injetaram dezenas de bilhões de dólares para salvar da bancarrota algumas das maiores casas financeiras internacionais, adquirindo ações do UBS, Merrill Lynch, Morgan Stanley, Citigroup e outras. O Citigroup, que anunciou em 15 de janeiro o maior prejuízo dos seus quase dois séculos de existência, divulgou no mesmo dia a venda de 14,5 bilhões de dólares em ações preferenciais ao fundo soberano de Cingapura, o Temasek. Em novembro, o banco já havia vendido 7,5 bilhões de dólares em ações ordinárias ao fundo soberano de Abu Dhabi. Outros fundos estão à espreita de oportunidades semelhantes para "salvar" os jogadores do cassino global, exauridos pelos seus excessos.

Em tal cenário repleto de ironias, dois artigos publicados na imprensa do próprio Establishment estadunidense refletem os novos sinais dos tempos. O primeiro, do jornalista Peter S. Goodman, foi publicado no New York Times de 30 de dezembro com o sugestivo título: "O livre mercado: um falso ídolo, afinal de contas?" Diz ele:

Por mais de um quarto de século, a idéia dominante em política econômica nos EUA e grande parte do global vinha sendo a de que o mercado é infalivelmente sábio. Tão sábio que o papel adequado para o governo é se manter afastado e não interferir com o poço de riqueza que jorrará, se espargindo em cada estrato da sociedade, se o mercado for deixado livre para fazer a sua mágica...

Adam Smith usava a metáfora da mão invisível para descrever como os mercados deveriam funcionar: com todo mundo livre para perseguir os interesses próprios, o mercado distribui oniscientemente os bens e capitais para maximizar os benefícios para todos. Desde o Governo Reagan, essa idéia tem se transformado em um verdadeiro mandamento sagrado, com o economista Milton Friedman posando como Moisés... Mas, agora, a mão invisível está sendo responsabilizada pelo que ela provocou. Neste país, muitas reclamações econômicas lhe estão sendo imputadas - desde o crescente fosso entre ricos e pobres até as despesas com educação superior...

Ao longo de toda a História, a regulamentação tende a se impor nos calcanhares da livre empresa descontrolada. Os excessos monopolísticos dos Barões Ladrões levaram às leis antitruste. Não por acidente, novas regras contábeis estritas se seguiram ao desmascaramento das fraudes na Enron e WorldComp. Agora, o fiasco das hipotecas subprime e uma onda de cobranças hipotecárias ainda em curso estão levando muitos a pedir novas regulamentações.

Na mesma linha, o Los Angeles Times de 14 de janeiro traz um artigo irado do advogado Al Meyerhoff, especializado em fraudes financeiras, intitulado "Forças financeiras descontroladas: sem regulamentação, a mão invisível do mercado nos está roubando às cegas". O seu texto é igualmente cáustico e direto:

Nos últimos 30 anos, a nossa nação tem viajado pela estrada da desregulamentação, uma estrada sem regras ou direção. Nós deixamos as empresas livres, os negócios seguirem sem controles, os bons tempos seguirem em frente. E eles seguiram em frente, mas para onde? Uma parada: a atual crise hipotecária.

Após um didático resumo histórico das tendências das últimas décadas, Meyerhoff dispara:

Já é hora - é mais que hora - de sair dessa rodovia da desregulamentação. Nós precisamos de mais governo, e não de menos, para nos proteger dos bancos e conglomerados e da extrema concentração de poder que eles exibem.

E termina com uma mensagem relativamente otimista: "Diz-se que a mudança está no vento. Não há lugar melhor para começar do que colocando rédeas nos Barões Ladrões do século XXI."

No sítio Counterpunch, uma veterana conhecedora dos mercados, Pam Martens, que trabalhou 21 anos em Wall Street, dá a sua contribuição para esse debate crucial ("O mito do livre mercado se dissolve no caos", 3/01/2008):

Os mercados eficientes necessitam de transparência e tiras alertas e vigilantes. Por que isso é tão difícil de se conseguir? Por que a opacidade e os mercados fraudados produzem o desejado objetivo de enriquecer o um por cento que possui agora 44% da riqueza da nação. Em troca, esse um por cento mantém o Congresso sob rédea curta, segurando os cordões dos financiamentos das campanhas.

Wall Street é um mercado com dois lados. Os prejuízos das firmas de Wall Street eram lucros de outras partes. Até que saibamos onde e quando esses lucros foram realizados e os detalhes de como ocorreram os prejuízos, estamos optando por ser os idiotas do capitalismo de compadres. Estamos optando por entregar o nosso país aos Barões Ladrões.

Como já ocorreu antes, parece que uma vez mais alguma intervenção externa terá que ser feita para rearrumar o caos criado pelos excessos intrínsecos dos mercados "livres" e dar ao sistema financeiro a funcionalidade perdida, recolocando-o a serviço da economia real. E, uma vez mais, a tarefa deverá recair sobre o velho e consagrado Estado nacional soberano. O grande problema é que, desta feita, inexistem estadistas de estatura em serviço nos países onde o problema tem a sua origem e, por isso, possivelmente, o conserto terá que aguardar um aprofundamento ainda maior da crise sistêmica, cujo impacto motive algumas lideranças políticas a atuar.

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