Crise pode fazer 1929 parecer um passeio no parque
O título bombástico da coluna de 23 de dezembro do editor de economia internacional do Daily Telegraph, o nosso conhecido Ambrose Evans-Pritchard, dá uma idéia da gravidade da crise terminal que abala o sistema financeiro global em sua presente forma. E a tendência que se manifesta nestes primeiros dias de 2008 é de agravamento, em função da impotência das gigantescas injeções de liquidez feitas pelos principais bancos centrais em dezembro, da perspectiva de recessão econômica nos EUA e das incertezas e turbulências provocadas pelo assassinato da ex-primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto, que contribuíram bastante para levar a especulação com o petróleo e o ouro a níveis recordistas.
Evans-Pritchard não mede palavras para afirmar que "as coisas estão saindo de controle rapidamente". Em suas conversas com especialistas de alto escalão do mundo financeiro, fica claro que "os bancos centrais estão travando a guerra errada e, talvez, se arriscando a um erro político de proporções históricas".
A explicação é elementar, afirma, pois "os emprestadores estão guardando o dinheiro, evitando os seus pares como se eles fossem leprosos dos mercados subprime." Ou seja, os bancos recebem o dinheiro dos bancos centrais e não o repassam, interrompendo toda a bolha em cadeia de instrumentos especulativos que depende de um fluxo constante de recursos para não desinflar ou estourar.
Um dos entrevistados, Peter Spencer, economista-chefe do ITEM Club, grupo de análises econômicas ligado à consultora Ernst & Young, diz que as autoridades globais têm poucas semanas para agir:
Os bancos centrais estão perdendo o controle rapidamente... Eles ainda têm um ou dois meses antes que isso comece a implodir. As coisas estão bastante instáveis e podem se mover incrivelmente rápido. Eu não acho que os bancos centrais irão cometer um grande erro político, mas, se cometerem, isto poderá fazer 1929 parecer um passeio no parque.
Thomas Jordan, governador do banco central suíço, não é menos sombrio: "O tipo de distúrbios observados nos mercados internacionais de dinheiro nos últimos meses não tem precedentes na história. A crise das hipotecas subprime atingiu um nervo vital do sistema financeiro internacional."
O montante dos prejuízos acarretados pela implosão imobiliária estadunidense é literalmente incalculável. Embora, em dezembro, o banco Goldman Sachs tenha divulgado um prognóstico com uma estimativa da ordem de 500 bilhões de dólares, avaliações posteriores colocam o número na casa do trilhão de dólares - quase 5% do PIB mundial, o que demonstra a extensão dos estragos.
Para complicar, uma recessão nos EUA já está sendo considerada como favas contadas, com a maioria dos prognósticos diferindo apenas quanto à sua intensidade e duração. Em sua coluna de 2 de janeiro, o economista Nouriel Roubini sentencia:
A combinação da pior recessão imobiliária da história, que está piorando, uma severa compressão de liquidez e crédito, que está pior do que em agosto, o petróleo perto dos 100 dólares, investimentos de capital do setor corporativo em queda por quatro meses seguidos, o setor imobiliário comercial com sérios problemas, o mercado de trabalho começando a sua calmaria... e um consumidor desgastado, sem poupança e endividado, tendo interrompido a sua febre de compras no último fim de ano, tudo isso levará a uma recessão em 2008 - que será mais severa do que suave.
No Financial Times do mesmo dia, a avaliação não é diferente, a julgar pelo artigo de Krishna Guha, com o agourento título "Perigo adiante: a perspectiva de recessão confronta de novo os EUA":
Os EUA entraram em 2008 com um perigo de recessão maior do que em qualquer outro momento desde o colapso da bolha da Internet em 2000-01, na medida em que a maior economia do mundo luta para manter o crescimento diante do aperto de crédito, uma queda imobiliária e altos preços do petróleo. O crescimento no último trimestre de 2007, provavelmente, virá na casa de um por cento ou menos, em uma base anualizada, ao passo que os três meses vindouros não deverão ser melhores - e poderão ser piores. A única questão é se a economia atravessará este período doentio e, gradualmente, recobrará forças ao longo do ano, ou sucumbirá aos seus males e, com o crescimento revertido, cairá na recessão... Bill Gross, executivo-chefe da Pimco, a maior administradora de fundos de títulos do mundo, chega ao extremo de dizer que ele - como a maioria dos estadunidenses comuns - acha que a recessão já começou em dezembro.
Ainda mais agourentos são os prognósticos do Saxo Bank, banco dinamarquês especializado em operações pela Internet, que antecipa um quadro de caos global, com os preços do petróleo atingindo 175 dólares por barril, uma alta de 100% nos grãos, tombos de 40% e 25%, respectivamente, para os mercados acionários chinês e estadunidense, e bancarrotas corporativas da ordem de 30% nos EUA. Em um resumo publicado no Daily Telegraph (3/01/2008), o estrategista-chefe do banco, David Karsböl, adverte:
Os consumidores estadunidenses e ocidentais terão que parar de viver além de suas posses pela primeira vez em décadas, na medida em que a alta da inflação em 2008 fará disparar o custo de vida, freando o consumo e tornando negativo o crescimento do PIB cinco trimestres após o pico dos preços imobiliários. Pela primeira vez desde os anos 70, estamos vendo a reemergência da "estagflação", o que significa que estamos presenciando uma redução do apetite por riscos, alta inflacionária e desaceleração do crescimento dos PIBs.
Tais augúrios ganharam força no primeiro dia útil do ano, quando as cotações dos contratos futuros de petróleo romperam a simbólica marca dos 100 dólares por barril, embora tenham recuado depois de chegarem a ser negociados a 101 dólares. Isto, ao mesmo tempo em que a onça do ouro também batia um recorde histórico de 27 anos, atingindo a marca dos 860 dólares, com tendência de alta.
Nesse cenário, embora a maioria dos atores ainda esteja pensando em soluções "dentro do sistema", o peso da realidade já está levando alguns a propor alternativas mais ou menos "heréticas" para os cultores da primazia dos mercados globalizados na condução dos negócios econômicos e financeiros. Em uma carta publicada na edição de 21 de dezembro da revista American Banker, o presidente do Federal Home Loan Bank de Nova York, Alfred DelliBovi, ex-vice-secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos EUA, afirmou que as lições aplicadas pelo presidente Franklin Roosevelt durante a Grande Depressão da década de 1930 poderiam ser úteis para ajudar a evitar um desastre maior no setor imobiliário. Ele recordou que, em 1933, o Congresso autorizou o Governo Roosevelt a criar a Corporação de Empréstimos para Proprietários de Imóveis (HOLC, sigla em inglês), com um capital de 200 milhões de dólares e autorização para emitir 2 bilhões de dólares em títulos, que foram usados para comprar contratos hipotecários em atraso das instituições imobiliárias e refinanciá-los diretamente com os proprietários em condições flexíveis.
Em meados de 1935, a HOLC havia refinanciado 20% de todas as hipotecas habilitadas, evitando o despejo de 800 mil proprietários inadimplentes e estabilizando os balanços financeiros de muitas instituições imobiliárias. A HOLC foi encerrada em 1951, apresentando um pequeno lucro para o Governo Federal.
"Franklin D. Roosevelt dizia que os interesses maiores da nação requerem que salvaguardas especiais sejam estabelecidas em torno da propriedade imobiliária, como uma garantia de estabilidade social e econômica", disse ele.
O que está cada vez mais evidente, apesar de muitos ainda se recusarem a admiti-lo, é que o cassino global quebrou, terá que ser demolido e, sobre as suas ruínas, terá que ser erguida uma nova arquitetura financeira mundial. Possivelmente, o aprofundamento da crise sistêmica, nos meses vindouros, irá forçar as necessárias vontade e condições políticas para tanto.



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