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Tempestade financeira: quem é o culpado?

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Em meio às turbulências nos mercados financeiros, que dificilmente poderão ser contidas por medidas cosméticas como os despejos de liquidez promovidos pela Reserva Federal de Ben "Helicóptero" Bernanke, é didático conferir as piruetas retóricas dos propagandistas da desastrosa transformação do sistema financeiro internacional num cassino global, no esforço de legitimar esse processo entrópico. Um deles é o notório editor de economia internacional do Daily Telegraph, Ambrose Evans-Pritchard, ao qual esta Resenha recorre com freqüência para aquilatar as percepções dos setores ligados à alta finança global para os quais ele atua como porta-voz. Em sua coluna de 21 de agosto, o jornalista produziu uma das peças mais cômicas dos últimos tempos, cujo título já diz tudo: "Capitalismo não é responsável pela derrocada." Vale a pena acompanhá-lo:

A caça às bruxas começou. O presidente francês Nicolas Sarkozy prometeu caçar os "especuladores". A alemã Angela Merkel está contemplando leis para limitar as ações dos fundos de hedge. Bruxelas abriu uma investigação das agências de avaliação de risco, suspeitas de pespegar graus "AAA" e "AA" em (instrumentos de) dívida subprime por motivos venais. O Congresso dos EUA está orquestrando um julgamento propagandístico de "emprestadores predatórios".

O jogo de culpas sempre foi assim. Banqueiros de Wall Street foram caçados após a quebra de 1929: alguns foram para a prisão. Mas se formos rastrear as causas básicas dessa bolha de crédito - agora estourada - a "culpa" está com os bancos centrais asiáticos, europeus e anglo-saxões. Eles criaram essa confusão, se é isto que enfrentamos agora. Foram eles - na verdade, os governos - que intervieram de incontáveis maneiras complexas para jogar para baixo os preços do crédito global a níveis que desvirtuaram o comportamento, como o Banco de Compensações Internacionais (BIS) tem observado repetidamente. Ao tornar muito baixo o custo do dinheiro, eles incentivaram o endividamento e puniram a poupança.

Os mercados tão-somente responderam a esse sinal distorcido com a sua exuberância usual... Assim, embora as butiques de investimentos - Bear Stearns, Morgan Stanley, Deutsche Bank, Lehman Brothers - possam ter promovido um produto tóxico (uma avalanche de processos irá decidir), isto ocorreu num contexto em que erros políticos distorceram os incentivos.

O leitor entendeu? O que esse arauto do Establishment está afirmando com todas as letras é que a culpa por todo o imbróglio é dos governos nacionais, que deixaram os "mercados" à solta com os seus instintos predadores. Mas não é esse o discurso da "globalização" financeira, o dos mercados desregulamentados, com interferência dos governos sendo a mais insignificante possível? Ademais, não são "independentes" os bancos centrais? E não consta que a Reserva Federal dos EUA, o banco central mais poderoso do planeta, seja uma entidade governamental (trata-se de um consórcio privado ao qual, desde 1913, é conferido o questionável privilégio de emitir a moeda do país). Porém, ele não deixa de ter razão: a culpa é mesmo dos governos nacionais que abdicaram das suas responsabilidades para com o bem comum. Portanto, eis aí mais um argumento para os que clamam por uma saída do gênero "novo New Deal", retomando o exemplo do programa com o qual, na década de 1930, o presidente Franklin Roosevelt começou a resgatar a economia dos EUA e o próprio capitalismo da devastação promovida pelos especuladores da época.

Mesmo sem se referir aos anos 30, o veterano jornalista William Pfaff bate nessa tecla em sua coluna no International Herald Tribune de 10 de agosto ("A destruição do serviço público e da infra-estrutura pública":

Enquanto as pontes caem em nações industriais avançadas, parcerias público-privadas vão à falência no berço do capitalismo e da indústria modernas, aeroportos em Londres e o sistema de tráfego aéreo estadunidense se encontram próximos à ruína e a economia internacional é atingida pelas conseqüências da deliberada exploração de hipotecas imobiliárias de alto risco (subprime) e das pessoas pobres que as contraíram, devem ser observadas certas palavras de ordem desta era moderna de exuberância irracional e capitalismo de mercado utópico.

A principal delas é a da superioridade dos empreendimentos privados sobre os públicos. Supõe-se que o mercado seja o guia infalível do capitalismo moderno, mas o mercado não constrói infra-estrutura pública. O mercado executa lucros, não serviços públicos. (...)

Desde a década de 1970, a ideologia antigoverno e antiimpostos, nos EUA, Grã-Bretanha e outros países sob a sua influência tem conduzido a uma falha na manutenção ou substituição da infra-estrutura existente, e à redução ou eliminação de agências e equipes reguladoras governamentais. Quase todo mundo está ciente disso nos EUA. É visível quando se usam as rodovias, túneis e a aviação comercial. Mas é preciso cair um avião ou uma ponte no Mississipi para que o assunto vá para as primeiras páginas e enseje promessas de mudanças.

Para quem não o conhece, Pfaff (um estadunidense que vive há décadas em Paris) não é nenhum esquerdista, mas já era um profissional respeitado antes do início da financeirização da economia mundial, na primeira metade dos anos 70. A sua conclusão, apesar de pessimista, é condizente com uma visão humanista que precisa ser recuperada para se começar a reverter esse quadro:

A teoria que, nos últimos anos, tem motivado as privatizações e as reformas obedientes aos mercados, é que as pessoas só podem ser motivadas pelo dinheiro. Trata-se de uma teoria desumanizadora. O serviço civil e público já proporcionaram status e respeito aos seus membros, que faziam trabalhos dos quais se orgulhavam. Após décadas de denegração, muito disso foi destruído. Será difícil recuperar.

Em suma: onde estão os Estados nacionais - e os estadistas - quando se mais precisam deles?

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