Newsletter
Email:
Início | Assuntos/Asuntos estratégicos | Reino Unido às voltas com declínio econômico e diplomático

Reino Unido às voltas com declínio econômico e diplomático

Tamanho da fonte: Decrease font Enlarge font

Como temos enfatizado, longe de ter sido superada, a crise global ainda deverá atravessar os momentos mais turbulentos ao longo de 2010, na medida em que os seus efeitos na economia real comecem a se sobrepor à euforia momentaneamente proporcionada pelos lucros de alguns megabancos e megaempresas resgatados com as colossais injeções de recursos públicos, no final de 2008 e nos primeiros meses de 2009. Não por acaso, os EUA e o Reino Unido estão na linha de frente dos problemas, com elevados índices de desemprego, desindustrialização, compressão das classes médias, perda de confiança nas instituições e uma pletora de problemas - que, para os britânicos, poderá culminar no futuro próximo com a saída do país do grupo das dez maiores economias mundiais.

O alerta foi dado pelo Centro de Pesquisas sobre Economia e Negócios (CEBR), segundo o qual a estagnação econômica poderá fazer o Reino Unido cair para o 11º. lugar na lista das maiores economias, até 2015. A rapidez da derrocada britânica pode ser avaliada pelo fato de que o país ocupava o quarto lugar no início da década, tendo sido superado pela China, França e Itália - segundo o estudo, os próximos deverão ser o Brasil, Índia e Canadá (The Independent, 7/12/2009).

O estudo do CEBR sugere que declínio econômico poderá acarretar uma perda de prestígio no cenário internacional, o qual colocaria em xeque o peso político em foros como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e, até mesmo, a posição da rainha Elizabeth II (ou seu sucessor) como chefe de Estado dos países da Comunidade Britânica de Nações.

Para Doug McWilliams, executivo-chefe do CEBR, além de político, o choque maior poderá ser psicológico:

Muitos britânicos apenas estão começando a se acostumar à idéia de não ter mais um império. Mesmo após a queda do Império Britânico, a agenda política mundial continuou a ser ditada por pessoas com aproximadamente o mesmo arcabouço cultural que os britânicos. Mas alguns dos que estão agora estabelecendo, de forma crescente, a agenda mundial, têm um grau de ressentimento pós-colonial contra os britânicos. Será difícil manter o alto perfil diplomático do Reino Unido quando não estivermos mais entre os dez grandes do mundo. Teremos que estar preparados para lidar com decisões econômicas, políticas e sociais tomadas internacionalmente em países com enfoques bem diferentes, por exemplo, diante dos direitos humanos. Isto poderá ser traumático.

A julgar pelos estragos causados pelo estouro da bolha financeira, os britânicos têm com o que se preocupar. Em outubro, a produção industrial teve crescimento zero, quando se esperava uma alta de 0,4%. Com isto, os números anualizados mostram uma queda de 18 meses consecutivos e, para piorar, o Gabinete de Estatísticas Nacionais (ONS) corrigiu para 0,9% a queda da produção industrial em setembro, anteriormente estimada em 0,8%. Para os próximos três meses, a maioria das empresas trabalha com cenários de redução de produção (The Guardian, 7/12/2009).

Outro reflexo da crise é a desconfiança no sistema bancário, que está levando um número crescente de cidadãos britânicos a guardar dinheiro em casa, preferencialmente, em notas de 50 libras. Segundo o Banco da Inglaterra, existem hoje em circulação 9 bilhões de libras em notas de 50 libras, contra 7 bilhões de libras em 2007, antes da quebra do banco Northern Rock.

Para o diretor de Circulação Monetária Andrew Bailey, a tendência representa "uma evidência muito boa de que tem havido um aumento na demanda por notas bancárias como reserva de valor" (The Daily Telegraph, 7/12/2009).

Apesar disso, a alta finança encastelada na City de Londres, cujos apetites especulativos estão na raiz da crise, resiste a quaisquer mudanças de rumo que impliquem em redução dos seus privilégios percebidos como adquiridos. É o caso, por exemplo, da sua feroz reação diante das propostas de regulamentação finaneira e restrições aos paraísos fiscais, que têm sido encabeçadas nas cúpulas do G-20 pelo presidente francês Nicolas Sarkozy. Na semana passada, a rusga se acentuou após a nomeação do francês Michel Barnier para o importante cargo de supervisor dos mercados internos da União Européia, ressaltada por Sarkozy como uma perspectiva de colocação de rédeas na voracidade da City. As declarações do presidente motivaram uma série de agressivas manifestações dos porta-vozes da "Milha Quadrada", para quem qualquer limitação à sua "criatividade" financeira e especulativa é considerada como anátema. Não obstante, sem a regulamentação e a colocação de rédeas no sistema financeiro, será simplesmente impossível se proceder a uma reconstrução econômica em escala global, que possa reverter a sombria perspectiva de um agravamento da crise sistêmica nos meses vindouros.

Adicionar no: Add to your del.icio.us del.icio.us | Digg this story Digg

Comentários (0 postado):

Poste seu comentário comment

  • email Enviar para amigo
  • print Versão para impressão
  • Plain text Versão texto