Ferrovia Transasiática, sinergia para o progresso coletivo
O leitor já imaginou viajar de trem de Cingapura a Istambul, um trajeto de 14 mil quilômetros, maior que a Ferrovia Transiberiana, e a partir daí chegar a qualquer lugar da Europa pela moderna malha ferroviária do continente? Pois tal perspectiva está prestes virar realidade, com o passo final para a concretização de um projeto de décadas, a Rede Ferroviária Transasiática.
Em 11 de junho último, em Bangcoc, Tailândia, entrou em vigor o Acordo Intergovernamental sobre a Rede Ferroviária Transasiática, assinado por oito países que se comprometeram a concluir as ligações que faltam para interligar uma malha de 114 mil km de ferrovias que cobre 28 países asiáticos e os liga à Europa. A cerimônia foi realizada na sede da Comissão Econômica e Social para a Ásia e o Pacífico (ESCAP, em inglês), órgão regional das Nações Unidas, com a presença de representantes dos oito países signatários do acordo: Camboja, Tailândia, Coréia do Sul, China, Índia, Mongólia, Tadjiquistão e Federação Russa.
Na ocasião, o secretário-executivo da ESCAP, Dr. Noeleen Heyzer, ressaltou a importância da iniciativa (press release, 11/06/2009):
As economias modernas não podem gerar crescimento e emprego a longo prazos sem redes de transporte altamente eficientes, que sejam desenvolvidas com um alto nível de integração. A oportunidade desse acordo é particularmente significativa, na medida em que líderes da nossa região promovem o comércio intra-regional para estimular a recuperação da crise econômica. Ele proporcionará uma maneira mais eficiente de fazer negócios e assegurar que os benefícios do cmércio sejam distribuídos mais equitativamente em toda a região.
A rede completa compreende 114 mil km de linhas e, além de proporcionar serviços de transporte eficientes para a movimentação de cargas e passageiros, tanto intrarregional como entre a Ásia e a Europa, proverá também acesso dos países mediterrâneos asiáticos aos portos litorâneos. Desses, 106 mil km de ferrovias já existem em 19 dos 28 países integrantes da rede, faltando ligações que chegam a 8.300 km, em Myanmar, Irã, Quirguistão, Camboja e Laos. O custo dessas linhas, segundo a ESCAP, está estimado em 25 bilhões de dólares.
O projeto existe desde a década de 1960, mas os obstáculos colocados pelo contexto da Guerra Fria e, depois, a "globalização" financeira, vinham até agora impedindo a reunião de condições políticas para a sua plena implementação.
"A promoção da Ferrovia Transasiátia é, efetivamente, um passo dado na direção certa pela ESCAP, para benefício geral e prosperidade da região", disse o presidente do Conselho Ferroviário da Índia, S.S. Khurana.
O acordo também estabelece a criação de "portos secos" no interior dos países, principalmente os mediterrâneos, os quais atuarão como centros de consolidação e distribuição de cargas e passageiros, criando novas oportunidades de benefícios socioeconômicos para as regiões afastadas do litoral.
A rede como um todo se divide em quatro corredores (ver figura abaixo):
1) um Corredor Norte, interligando as redes ferroviárias da China, Cazaquistão, Mongólia, Federação Russa e Península Coreana;
2) um Corredor Sul, conectando a Tailância e a província chinesa de Yunan com a Turquia, via Myanmar, Bangladesh, Índia, Paquistão, Irã e acesso ao Sri Lanka;
3) uma rede subregional cobrindo os países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e a subregião da Indochina; e
4) um Corredor Norte-Sul, ligando o Golfo Pérsico ao Norte da Europa, através da Federação Russa, Ásia Central e a região do Cáucaso.
O acordo sobre a Rede Ferroviária Transasiática é o segundo estabelecido sob os auspícios da ESCAP. Em 2005, um acordo semelhante foi desenvolvido para a interligação de uma vasta malha rodoviária eurasiática, que, juntamente com a malha ferroviária, proporcionará uma rede de transportes internacional e intermodal de importância crucial para o desenvolvimento de toda a região.
Para a América do Sul, onde o Mercosul segue batendo pino e o impulso integrativo se desgasta com bagatelas comerciais, rivalidades políticas, obsessões ideológicas e a atávica miopia estratégica das lideranças regionais, o exemplo asiático não poderia ser mais oportuno.



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