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FAO: África pode alimentar o mundo

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image Juntamente com a Ibero-América, a África pode se converter em um dos novos "celeiros do mundo" (FAO)

O velho fantasma malthusiano da escassez de alimentos para uma população mundial que caminha para os 10 bilhões de pessoas, o qual tem sido constantemente retirado da tumba na qual deveria descansar para sempre, pode ser afugentado apenas com a incorporação em grande escala da África à produção agropecuária mundial. A confirmação de tal perspectiva, já conhecida por especialistas mas pouco ressaltada, vem de dois estudos recém-divulgados pela Organização das Nações Unidas para os Alimentos e a Agricultura (FAO).

Os dois estudos, efetuados pela FAO em conjunto com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Banco Mundial, representam mais uma cabal refutação dos cenários pessimistas de "limitação de recursos" que vêm sendo brandidos por instituições neomalthusianas como o Clube de Roma desde a década de 1970, posteriormente reforçados pelo catastrofismo ambientalista, cuja ponta de lança atual é o suposto aquecimento global provocado pelo uso de combustíveis fósseis. O primeiro, o relatório OECD-FAO Agricultural Outlook 2009-2018 (Panorama agrícola 2009-2018), está disponível no sítio da OCDE; o segundo, intitulado Awakening Africa's Sleeping Giant - Prospects for Commercial Agriculture in the Guinea Savannah Zone and Beyond (Despertando o gigante adormecido da África - Perspectivas para a agricultura comercial na zona da Savana da Guiné e além), foi anunciado em um boletim de imprensa da FAO, em 22 de junho.

O planeta tem atualmente 1,4 bilhão de hectares de terras dedicadas à produção agropecuária e pode acrescentar outro 1,6 bilhão de hectares, a maior parte na África e América Latina. Na África, a vasta região de savanas que se estende do Senegal à África do Sul, a chamada Savana da Guiné, abarcando 25 países, tem um potencial agricultável de 400 milhões de hectares, dos quais apenas 10% encontram-se atualmente aproveitados. O potencial de aproveitamento da área pode ser vislumbrado pela semelhança dos solos da região com os do Cerrado brasileiro e do Nordeste da Tailândia. Em ambos os países, sucessivos governos criaram as condições para o crescimento da produção naquelas áreas, como ressalta o estudo "Despertando o gigante".

Não obstante, de acordo com o estudo, o continente africano tem condições ainda melhores para obter um rápido desenvolvimento agrícola, devido a vários fatores: um rápido crescimento econômico, populacional e urbano, que proporciona mercados domésticos amplos e diversificados; ambientes políticos domésticos e ambientes empresariais favoráveis em vários países; aumento de investimentos estrangeiros e domésticos na agricultura; e o uso de novas tecnologias.

O estudo aponta o modelo tailandês, baseado em propriedades menores, mais adequado para a África do que a produção baseada em grandes propriedades, que caracterizou o desenvolvimento do Cerrado brasileiro. "A agricultura comercial na África pode e deve envolver pequenos proprietários, para maximizar o crescimento e espalhar amplamente os benefícios. A produção mecanizada em grande escala não oferece quaisquer vantagens óbvias de custos, exceto em circunstâncias muito específicas, e é bem mais passível de provocar conflitos sociais", afirma o economista do Banco Mundial residente em Madagascar, Michael Morris.

Entretanto, o estudo aponta que a produção de gêneros de baixo valor em minipropriedades de 1-2 hectares ou menos é insuficiente para gerar rendimentos que proporcionem uma saída da pobreza. Por isso, é necessária a criação de oportunidades para que esses produtores possam diversificar os seus cultivos.

Quanto às preocupações ambientais, o estudo afirma que, a despeito dos riscos de exploração de ecossistemas vulneráveis e do uso excessivo de fertilizantes e pesticidas, a agricultura pode beneficiar o meio ambiente. "A comercialização da agricultura por meio da intensificação pode reduzir os danos ambientais, pela diminuição do avanço da agricultura em terras frágeis e/ou ambientalmente valiosas", diz Michael Morris.

Ademais, como ressalta o chefe do departamento africano do Centro de Investimentos da FAO, Guy Evers, "felizmente, existe uma rica experiência de outros países da qual se pode aprender".

Entre esses países, o Brasil tem muito a oferecer aos africanos, principalmente por conta das avançadas técnicas de cultivo no Cerrado desenvolvidas durante mais de três décadas por centros de pesquisa como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que já tem um escritório em Gana.

Como nem tudo são flores, o "Panorama agrícola" da OCDE-FAO aponta dois elementos ligados ao catastrofismo climático como importantes fatores que podem reduzir a disponibilidade de terras agricultáveis, a produção de biocombustíveis e a emergência dos mercados de carbono e dos esquemas de "sequestro de carbono". "As crescentes pressões para o enfrentamento das mudanças climáticas têm criado mercados de carbono rapidamente crescentes, que se espera atinjam bilhões de dólares em transações anuais nos próximos 10 anos", afirma o documento.

Ou seja, embora nenhum dos dois estudos mencione o fato, a erradicação ou, pelo menos, a neutralização do radicalismo ambientalista constitui um requisito fundamental para a concretização das perspectivas de desenvolvimento apontadas por ambos, em especial para o continente africano.

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