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Bento XVI no Oriente Médio

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Não foi fácil a recente missão pastoral empreendida na Terra Santa pelo Papa Bento XVI. O Pontífice chegou como um "peregrino", com a intenção de visitar os principais lugares sagrados da Terra Santa, na Jordânia (Amã) e Israel (Jerusalém, Belém, Nazaré e Galiléia). Ainda assim, a despeito do empenho da mídia internacional em depreciar a importância da visita, ela foi um sucesso histórico, pois o Papa usou a visita para enfocar de um modo diferente a atenção do mundo sobe o problema estratégico mais crucial da região: não haverá paz no mundo se não houver paz na Terra Santa, local de origem das três grandes religiões monoteístas.

Entretanto, a paz só poderá ser atingida se houver "justiça" e se os "muros" nos corações das pessoas forem demolidos. Esta mensagem foi repetidamente enfatizada por Bento XVI - em Amã, onde foi efusivamente recebido pelo rei Abdullah II; em Israel, ao dirigir-se ao presidente Shimon Peres e ao premier Benjamin Netanyahu; e em Belém, onde assegurou ao presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que a Santa Sé fará todo o possível para assegurar uma "pátria soberana" aos palestinos.

No aeroporto de Tel Aviv, na partida para o retorno a Roma, o Papa resumiu a visita afirmando que a "solução dos dois Estados", com uma "pátria palestina soberana", não é um sonho delirante: "Ele pode se realizar."

Em Amã, primeira parada da visita de oito dias, o Pontífice visitou a mesquita estatal da Jordânia, onde foi saudado pelo príncipe Ghazi Bin Mohammed, conselheiro do rei Abdullah II. Em seu discurso, o príncipe sublinhou a importância do diálogo muçulmano-católico, que começou com uma carta aberta de 138 intelectuais islâmicos ao Papa, em outubro de 2007, baseada no Alcorão e na Bíblia. Na carta, os autores reconheciam "a primazia do amor a Deus e aos vizinhos, tanto no cristianismo como no Islã". Isto levou à iniciativa de Bento XVI de convocar sob sua orientação pessoal o primeiro seminário internacional muçulmano-católico, em 2008.

O príncipe Ghazi ressaltou que, embora muçulmanos e cristãos tenham visões diferentes sobre questões referentes a Deus, eles veneram um único Deus e as duas religiões podem atuar juntas, em particular "defendendo e promovendo os valores morais que são parte da nossa herança comum".

Em um discurso para líderes muçulmanos e professores da Universidade de Amã, o Pontífice falou sobre a natureza única do homem: cada ser humano, tendo sido criado por Deus, foi dotado da razão criativa. Guiado pela fé e a razão, o ser humano tem a fantástica oportunidade de usar a razão na busca do Bem. Como disse ele:

A adesão genuína à religião, longe de estreitar as nossas mentes, amplia o horizonte do entendimento humano. Ela protege a sociedade civil dos excessos do "ego" sem rédeas que tende a absolutizar o finito e eclipsar o infinito; ela assegura que a liberdade seja exercida de mãos dadas com a verdade e adorna a cultura com insights referentes a tudo o que é verdadeiro, bom e belo.

Em Israel, uma das primeiras visitas foi ao Memorial do Holocausto, recebida por parte da mídia internacional com críticas de que o Papa não teria explicitado mais claramente um "mea culpa". Na ocasião, ele se afirmou que as milhões de vítimas da tragédia "perderam as suas vidas, mas nunca perderão os seus nomes, que estão traçados nos corações dos seus entes queridos, dos seus companheiros de prisão que sobrevieram e de todos aqueles determinados a nunca mais permitir que uma tal atrocidade possa desgraçar novamente a humanidade".

Em Jerusalém, o Papa fez um discurso perante os rabinos-chefes e o rabinato, aproveitando a oportunidade para refletir sobre as raízes comuns do judaísmo e do cristianismo. Judeus e cristãos, disse ele, estão preocupados em assegurar "o respeito pela sacralidade da vida humana, a centralidade da família, uma educação saudável para os jovens e a liberdade de religião e consciência para uma sociedade saudável".

Ambas as religiões, enfatizou, estão ligadas pela preocupação comum em rejeitar o "relativismo moral" e tudo aquilo que ofende a dignidade da pessoa humana.

Do lado muçulmano, o Pontífice visitou o Monte do Templo (em árabe, "Nobre Santuário"), o mais antigo monumento islâmico na Terra Santa, e fez um discurso para autoridades religiosas, entre elas o Grande Mufti Muhammad Ahmad Hussein, no qual enfatizou que as três religiões têm em comum a crença em um Deus único.

Aos palestinos, Bento XVI dirigiu uma importante mensagem. Depois de celebrar uma missa para 10 mil pessoas em frente à basílica da Natividade, ele se reuniu com Mahmoud Abbas, a quem assegurou que "a Santa Sé apoia o direito do seu povo a uma pátria palestina soberana na terra dos seus ancestrais, segura e em paz com seus vizinhos, dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas". Ao mesmo tempo, expressou a esperança de que a reconstrução de Gaza, devastada pela recente invasão israelense, começasse prontamente.

Nas várias manifestações feitas aos palestinos, Bento XVI ressaltou que a situação em que vivem é "intolerável". Em especial, ele pediu aos jovens, que são o futuro do Oriente Médio, a não permitirem que as perdas de vidas que têm experimentado aprofundem a amargura e o ressentimento em seus corações e resistam à tentação de recorrer a atos de violência ou terrorismo. O que é necessário, enfatizou, é que se cultive uma mentalidade baseada na justiça e na paz e na cooperação para o "bem comum".

Os territórios palestinos necessitam mais que "novas estruturas econômicas e comunitárias", afirmou. "Ainda mais importante, eles necessitam de uma nova infraestrutura 'espiritual', capaz de galvanizar as energias de todos os homens e mulheres de boa vontade no serviço da educação, desenvolvimento e a promoção do bem comum".

Juntamente com a Autoridade Palestina, a Santa Sé pretende estabelecer em breve uma comissão de trabalho bilateral, prevista em um memorando de entendimento assinado no Vaticano em fevereiro de 2000. Com a visita de Bento XVI, a iniciativa poderá finalmente sair do papel.

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