Iraque enterra doutrina militar 'pós-moderna
Segundo a intenção dos seus idealizadores, um dos objetivos estratégicos da invasão do Iraque deveria ser proporcionar uma demonstração de campo da superioridade incontestável das forças militares dos EUA, baseada na nova coqueluche das lideranças civis do Pentágono, a chamada "Revolução nos Assuntos Militares", também conhecida pela sigla em inglês RMA. Reduzida à sua essência mais simples, a RMA se baseia na predominância do emprego maciço de vetores de alta tecnologia no campo de batalha, principalmente aéreos e aeroespaciais, em detrimento de um grande número de forças terrestres. Menina dos olhos do secretário de Defesa Donald Rumsfeld e sua claque de "neoconservadores" encabeçada pelo secretário adjunto Paul Wolfowitz, a RMA é uma espécie de contrapartida militar à fracassada "nova economia" e, como esta, seu destino parece ser também a lata de lixo da História. Dois estudos oficiais sobre os desdobramentos da invasão do Iraque, um já divulgado e o outro em andamento, reforçam essa tendência.
O primeiro, elaborado pelo historiador oficial do Exército estadunidense, major Isaiah Wilson, afirma que as forças da coalizão anglo-americana já haviam perdido o controle da situação militar no país em julho de 2003, pouco mais de três meses após a invasão. Divulgado no sítio World Tribune.com, em 7 de março, o relatório é categórico: "Nos dois ou três meses da transição ambígua, as forças dos EUA perderam lentamente o momento e a iniciativa que haviam sido ganhos sobre um inimigo desequilibrado. Desde então, os EUA, seu Exército e a coalizão dos dispostos têm tentado recuperar o terreno perdido."
Segundo Wilson, o planejamento das operações militares ignorou completamente o período posterior ao esperado colapso do regime de Saddam Hussein: "Ao passo que podem ter havido planos em âmbito nacional, e mesmo dentro de várias agências, nenhum desses planos operacionalizou os problemas posteriores ao colapso do regime. Não houve planejamento operacional adequado para operações de estabilidade e apoio."
As conclusões de Wilson reforçam as críticas feitas contra Rumsfeld e seus assessores por sua estratégia baseada no pressuposto de que a campanha militar no Iraque seria breve e levaria rapidamente ao estabelecimento de um regime democrático após a queda de Saddam Hussein. De acordo com ele, os planejadores do Pentágono falharam em entender ou aceitar a possibilidade de que os iraquianos oporiam resistência aos invasores após a queda de Saddam. Para ele, o desempenho do Exército no Iraque tem sido medíocre.
"Os planejadores militares, os executores e a liderança civil dos EUA conceberam a guerra de forma bastante estreita. Esta concepção bastante simplista da guerra levou a uma cascata de reduções do esforço de guerra: muito poucas tropas, muito pouca coordenação com agências governamentais e não-governamentais e muito pouco tempo alocado para a obtenção do sucesso."
O outro estudo, divulgado pelo Los Angeles Times no dia 11, é a chamada Resenha Quadrienal de Defesa (QDR, na sigla em inglês), que está em preparação e somente deverá ser concluída no início de 2006. Instituída na década passada, após o colapso da URSS, a QDR é um vasto estudo que tem sido utilizado pelo Pentágono para orientar o seu processo de aquisições de equipamentos. A edição mais recente, publicada em 2001, foi largamente influenciada pela doutrina favorita de Rumsfeld, a RMA, que favorece investimentos em armamentos futurísticos para forças militares mais "enxutas". A guerra no Iraque está forçando uma mudança de pontos de vista.
Segundo o artigo, a tenacidade da resistência iraquiana, não prevista pelos planejadores da invasão, colocou em xeque os pressupostos da estratégia estabelecida pelo Pentágono de Rumsfeld. "A Administração estava totalmente errada sobre o Iraque porque estava usando viseiras. Agora, há uma percepção muito maior de que precisamos saber o que estamos assinando embaixo antes de entrar na encrenca", disse ao jornal um alto oficial do Exército.
Os preparativos para a invasão foram feitos com base num conceito conhecido como "10-30-30", segundo o qual as ações militares estadunidenses devem ser planejadas para tomar a iniciativa nos 10 primeiros dias da ofensiva, obter objetivos militares limitados em 30 dias e estar preparados para transferir recursos militares para outra parte do mundo nos 30 dias seguintes. Com o sucesso obtido pela resistência iraquiana em prolongar as ações militares no país, muitos oficiais do Pentágono receiam, agora, que prolongadas ações de retaguarda deverão ser a norma e não a exceção em futuros engajamentos militares dos EUA. "Eu acho que, agora, o Pentágono entende que o 10-30-30 está grandemente ultrapassado. Ele pressupõe um modelo de guerra que nós mesmos tornamos obsoleto", disse Frank Hoffman, professor do Centro de Ameaças e Oportunidades Emergentes dos Fuzileiros Navais. Segundo ele, dificilmente, algum adversário irá opor aos EUA uma ameaça convencional que possa ser derrotada em 30 dias. "A métrica dos nossos inimigos é a de conflitos prolongados, de 3.000 dias ou mais. Uma insurgência prolongada e mortes na casa dos milhares é a resposta deles ao ´choque e pavor´", afirmou.
A nova versão da QDR deverá enfatizar a importância das operações de estabilização e reconstrução dos territórios ocupados, além de uma maior cooperação com países aliados.
De qualquer maneira, assim como a "economia cibernética" não resistiu ao peso do seu próprio surrealismo, a nova doutrina "pós-moderna" dos supremacistas de Washington está sendo enterrada nas areias iraquianas.,



del.icio.us
Digg
Comentários (0 postado):
Poste seu comentário