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Bush e Coréia do Norte detonam TNP

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O anúncio pela Coréia do Norte de que o país possui armas nucleares, "para proteger a ideologia, o sistema, a liberdade e a democracia escolhidos pelo seu povo", como afirma a nota oficial divulgada no último dia 10, poderá ter como uma de suas principais conseqüências o desmantelamento na prática do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP). Por ironia, é preciso reconhecer que foi a intolerância do Governo do presidente estadunidense George W. Bush que levou o regime obscurantista de Pyongyang a semelhante ato extremado, descartando momentaneamente a continuidade as negociações com o grupo encabeçado pela China (integrado pelo Japão, Coréia do Sul, Rússia e EUA) em torno ao desmantelamento de seu programa nuclear militar. Com a recusa dos "neoconservadores" belicistas de Washington em conceder a Pyongyang garantias de não-agressão e cooperação econômica, além da série de agressivas manifestações disparadas nas últimas semanas contra o regime de Kim Jong-il (agora enquadrado como uma das "vanguardas da tirania"), a atitude norte-coreana não era inesperada - de fato, como falar grosso tem sido a linguagem preferida do grupo de fundamentalistas ideológicos que domina a Casa Branca, alguns de seus adversários escolhidos começam a agir da mesma forma.

Por conta disso, a nota de Pyongyang acusa o Governo Bush de usar uma "lógica de gângsteres" e diz que "não é fortuito que as pessoas do mundo levantem as vozes protestando e censurando a Administração Bush como um grupo que persegue uma tirania motivada por sua extrema misantropia".

Significativamente, a resposta oficial de Washington esteve vários decibéis abaixo da linguagem que vem sendo empregada, por exemplo, contra o Irã e seu programa nuclear, sugerindo uma resignação tácita frente ao fato consumado. A própria secretária de Estado Condoleezza Rice, em turnê pela Europa, admitiu que o Irã representa hoje uma "ameaça maior" que a Coréia do Norte. Declarações semalhantes partiram do porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan.

Em entrevista à agência Associated Press (10/02), Michele Flournoy, uma analista de defesa do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos (CSIS) e ex-estrategista do Pentágono no Governo Clinton, ressaltou: "A Coréia do Norte é bastante capaz de responder a qualquer tipo de ação militar nossa com um ataque devastador, uma barragem de artilharia e mísseis contra (a Coréia do) o Sul, que inflingiria milhões de mortes e baixas. Ao contrário do Irã, a Coréia do Norte não representa apenas uma ameaça potencial, mas já é hoje uma ameaça real."

Assim sendo, os desdobramentos dessa atitude de fait accompli deverão ser cuidadosamente acompanhados em todo o mundo, especialmente em face da próxima conferência qüinqüenal de revisão do TNP, a realizar-se em junho, em Nova York. Em especial, a Coréia do Sul e o Japão, vizinhos com uma longa série de atritos com Pyongyang, têm condições tecnológicas e industriais para se tornarem respeitáveis potências nucleares a curto prazo (meses, no caso do Japão), caso se disponham a dar o salto político. Se tal ocorrer, o TNP será definitivamente sepultado e, com ele, a presente ordenação de poder mundial sediada no caduco Conselho de Segurança das Nações Unidas e no poder de veto de seus membros permanentes, lastreado em seus arsenais nucleares. É evidente que se não houver um sistema multilateral que possa assegurar efetivamente a segurança dos Estados nacionais soberanos, cada um deles ver-se-á forçado a tentar garanti-la recorrendo às armas de dissuasão final representadas pelos artefatos nucleares.

Em conversa com esta Resenha, uma alta fonte militar ligada ao setor nuclear brasileiro afirmou: "O grande proliferante é insegurança criada pela atitude unilateral dos EUA. O que dava segurança ao sistema de não-proliferação era justamente o respeito às decisões multilaterais."

Outro oficial, também da área nuclear, completou: "O Iraque foi invadido e não encontraram nenhuma arma de destruição em massa, mas se eles tivessem alguma, o país não teria sido invadido. Essa é a lógica que está passando pela cabeça dos iranianos."

A atitude desafiadora de Pyongyang remete ao cerne do problema da reforma de uma ordem mundial que se mostra cada vez mais dissociada das aspirações de todos os povos e países ao progresso e ao bem-estar. Sem uma efetiva reconfiguração das relações de poder mundiais, que substitua a confrontação ideológica da Guerra Fria e a lógica unilateral emanada de Washington na última década e meia, por uma reforma política e econômica que recoloque o mundo na trilha de um progresso em que os benefícios sejam compartilhados por todos, o exemplo norte-coreano tende a proliferar. Por ironia, Bush e Kim Jong-il dividirão as responsabilidades históricas por essa perspectiva pouco animadora.

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