Bento XVI na França: "Fugi da idolatria"
O que não se esperava, entretanto, foi a recepção triunfal ao Pontífice em Paris. O que era originalmente considerado uma "missão impossível", devido ao tradicional anticlericalismo francês, se transformou em um bem-sucedido diálogo entre o papa e a juventude, representantes da Igreja francesa e de setores políticos e culturais. O significado histórico da visita reside no fato de que, no país onde o Iluminismo e a Revolução de 1789 originaram um ressentimento radical contra o pensamento cristão, mas caracterizado por Bento XVI como "a filha mais velha da Igreja", a presença do Pontífice evocou em muitos jovens franceses o sentido de que é a sua responsabilidade reviver a tradição cristã da França e levar ao debate europeu a riqueza da sua herança cristã.
Assim, ele conseguiu evocar em muitos aquela "identidade cultural" que representa a referência mais positiva para a França e a Europa. Entre outros exemplos, mencionou os movimentos monásticos oriundos da França na Baixa Idade Média e o fato de o país ter sido o centro de difusão do movimento de construção das catedrais européias. Ademais, em um discurso proferido no Institut de France (que reúne todas as academias científicas), chegou a citar o célebre poeta francês Rabelais, dizendo: "Como Rabelais afirmou corretamente em seu tempo: 'A ciência sem consciência somente traz ruína à alma.'"
Para surpresa de muitos, Bento XVI conseguiu construir uma ponte com o que o presidente francês Nicolas Sarkozy chama "um secularismo positivo", bem como entre fé e razão.
Entre os destaques da visita papal, encontram-se os discursos feitos por ele no Palácio do Eliseu e o que proferiu perante representantes da elite cultural francesa e das diferentes religiões.
Em seu discurso de boas-vindas, no Eliseu, o presidente Sarkozy afirmou que, em tempos como os atuais, seria loucura relegar a religião apenas ao âmbito privado e privar a sociedade das contribuições da fé. Sarkozy falou sobre a necessidade de um "secularismo positivo" - conceito que poderia tornar-se decisivo no atual debate sobre o capitalismo e a Doutrina Social da Igreja.
"A França começou a fazer, junto com a Europa, uma reflexão sobre a moralidade do capitalismo", disse Sarkozy. "O crescimento econômico não faz sentido se ele se torna o seu próprio objetivo - consumir pelo propósito de consumir. Somente o melhoramento da situação do maior número de pessoas e das suas realizações constituem objetivos legítimos. Este ensinamento, que integra o coração da Doutrina Social da Igreja, está em perfeita consonância com os desafios da economia globalizada contemporânea."
Para Sarkozy, o secularismo positivo seria, portanto, um convite ao diálogo, à tolerância e ao respeito. Além disso, ele falou sobre os desafios que a Europa e o mundo confrontam - no campo da bioética, bem como a ameaça do fanatismo e do relativismo, que colocam em risco as relações entre as nações. A verdade da Europa, disse o presidente, reside no fato de que, sempre que ela viola a noção de dignidade humana, mergulha nas piores barbáries.
Sarkozy advertiu que não deve haver uma retomada de guerras religiosas e afirmou que o Pontífice havia dado um passo importante ao reunir-se com o rei da Arábia Saudita, em termos de um diálogo de religiões positivo - o que, para ele, é um dos maiores desafios do novo século.
Em seu discurso aos políticos, o papa aproveitou a ocasião para refletir sobre a relação entre a Igreja e o Estado (sempre complicada na França, desde 1789) e as contribuições que a fé pode fazer para a sociedade.
Ele disse à platéia que estava feliz pela ocasião de visitar a França e, assim,
pagar um tributo à impressionante herança de cultura e fé que tem delineado a marcante história do seu país e alimentado grandes servidores da nação e da Igreja, cujos ensinamentos e exemplos têm chegado, naturalmente, muito além da fronteira geográfica da sua nação, deixando a sua marca no curso da História mundial.
Como a Europa, a França foi cristã desde a sua origem, disse Bento XVI, fazendo referência às primeiras contribuições missionárias, especialmente à do grande bispo de Lyon, São Irineu, que viveu em meados do século II e tinha o grego como sua língua nativa. "Poderia haver um sinal mais belo da natureza universal e destino da mensagem cristã?", perguntou o papa.
O Pontífice falou sobre a mensagem universal positiva transmitida pela cultura francesa, mostrando que desde as épocas mais antigas a mensagem universal da fé cristã tem se refletido na França, na cultura transmitida nos mosteiros e por monges que ensinavam e copiavam livros, contribuindo para educar os corações e mentes. Ademais, ele lembrou as muitas abadias e catedrais que "embelezam as suas cidades", as quais representam uma expressão viva da fé cristã.
Bento XVI referiu-se ao conceito de "secularismo positivo" mencionado por Sarkozy, sublinhando estar percebendo que, de fato, há uma preocupação no país em substituir a antiga oposição entre Estado e Igreja por um "diálogo racional". Em um momento em que as culturas se tornam mais e mais interdependentes, o que se necessita é um novo pensamento sobre o significado do secularismo positivo, que também garanta a liberdade religiosa.
"Os jovens são a minha maior preocupação", disse o papa, muitos dos quais "estão enfrentando a dificuldade de encontrar uma orientação adequada ou padecer da perda de pontos de referência em suas famílias". Outros experimentam as limitações de grupos e comunidades religiosas ou são marginalizados e deixados por sua própria conta. Por conseguinte, seria importante dar-lhes uma boa educação e respeito, enfatizou.
Devido à crescente lacuna entre ricos e pobres, o Pontífice instou a França a usar a sua posição na União Européia para contribuir para a grandeza continental, ressaltando que a verdadeira riqueza da sinfonia européia está no respeito e na garantia às diferentes tradições culturais das nações.
O segundo grande discurso do papa foi proferido no Colégio dos Beneditinos, um sítio histórico construído no século XII pelos filhos de Bernardo de Claraval. Ali, ele se dirigiu a uma platéia integrada pela elite cultural e por representantes religiosos, entre eles intelectuais muçulmanos e judeus, discorrendo sobre as raízes da cultura européia.
Em especial, o Pontífice ressaltou que a geração jovem de hoje se confronta com os problemas da arbitrariedade subjetiva e do fanatismo fundamentalista, bem como a crença em falsos ídolos. Referindo-se ao exemplo de São Paulo, na homilia aos atenienses que adoravam o "Deus desconhecido", ele afirmou que mesmo diferindo em muitos aspectos da época de Paulo, a situação atual tem muito em comum com ela: "Uma cultura puramente positivista, que tente encaminhar a questão referente a Deus ao reino subjetivo, como sendo anticientífica, seria a capitulação da razão, a renúncia às suas mais elevadas possibilidades e, por conseguinte, um desastre para a Humanidade, com conseqüências muito graves."
Em uma homilia proferida em uma missa em Paris, diante de 250 mil pessoas, em grande número jovens, o papa fez outra referência a São Paulo, que, em uma de suas Epístolas aos Coríntios, advertiu contra a adoração de ídolos: "Fugi da idolatria (1Cor 10:14)." Bento XVI usou a referência para advertir contra as modernas formas de idolatria - a "cobiça insaciável" e o "amor ao dinheiro" - como sendo as raízes de todos os males. O mundo moderno, afirmou, deveria redefinir qual é a verdadeira finalidade do homem, em vez de imitar os pagãos da Antiguidade. Por conseguinte, ele enfatizou que "o que deu à cultura européia as suas bases - a busca por Deus e a disposição para ouvi-Lo - permanece hoje como a base de qualquer cultura genuína".



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