Choques da realidade
As últimas semanas têm sido pródigas em proporcionar duras – e trágicas – manifestações da inviabilidade da continuação do cenário “negócios como sempre” na orientação das políticas públicas e na condução dos assuntos econômicos hegemônicas desde a década passada, baseadas na primazia dos interesses particulares encarnados nos “mercados” sobre os interesses coletivos da grande maioria das sociedades, inclusive nos países-líderes deste processo desumanizador, os EUA e o Reino Unido – com sobras para os que os acompanharam cegamente, como o Brasil.
No Brasil, a tragédia de Congonhas expôs em sua plenitude os problemas acarretados pela opção preferencial pelo rentismo financeiro, em detrimento das necessidades da economia real, com ênfase nas gritantes deficiências de infra-estrutura e, não menos, os efeitos da transformação da vida nacional em um gigantesco balcão de negócios de todo tipo, orientados pela busca frenética de oportunidades de lucros a curto prazo, com escassas visão de futuro e preocupação com o bem comum.
Nos EUA, a queda de uma ponte em Minneapolis, após a explosão de uma tubulação de vapor em Nova York, expuseram às claras a decrepitude da infra-estrutura física do país, denunciada há anos por especialistas e colocada em baixa prioridade nas pautas políticas de sucessivos governos, mais preocupados com uma agenda hegemônica por meios militares que se mostra cada vez mais inviável.
A Grã-Bretanha, pátria do liberalismo econômico, vê aumentar em 80% nos últimos sete meses o número de profissionais jovens e trabalhadores qualificados que têm emigrado em busca de melhores oportunidades de vida. A cada semana, cerca de 4 mil britânicos na faixa de 20-40 anos têm deixado o país, afugentados pelas deficiências educacionais, especulação imobiliária (que, como nos EUA, vinha sendo um dos “motores” do crescimento econômico), impostos e criminalidade em alta.
Enquanto isso, os mercados financeiros experimentam outra seqüência de sobressaltos, com quedas bruscas nas bolsas de valores, falências de grandes empresas e apreensões em disparada, diante das evidências indisfarçáveis de que a orgia de liquidez que tem alimentado o cassino financeiro global parece ter chegado ao fim.
Como a inércia desse processo entrópico é colossal e certos hábitos são difíceis de se mudarem, nenhum ator de peso no cenário internacional se dispôs ainda a apresentar uma proposta concreta para um programa de reconstrução financeira e econômica em escala mundial, algo como um “New Deal global”, que possibilite a superação da presente crise sistêmica planetária. Talvez, tal perspectiva tenha que esperar que a realidade produza novos impactos em um mundo governado por ideologias cada vez mais divorciadas dela. O certo é que eles não faltarão.



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