Instituto europeu vê agravamento da crise sistêmica
A crise sistêmica global se acentuou no segundo trimestre e tende a agravar-se nos próximos meses. O prognóstico é do Laboratório Europeu de Antecipação Política Europa 2020 (LEAP/E2020), um instituto de pesquisas virtual europeu que tem proporcionado análises de grande consistência sobre os desdobramentos do cenário global, em seu boletim Global European Anticipation Bulletin No. 16 (Verão 2007).
Segundo o boletim, o fator fundamental que ameaça atropelar os prognósticos da maioria dos atores do sistema global para o futuro imediato é o fracasso simultâneo das duas estratégias-chave definidas pelas lideranças dos EUA para assegurar a sua agenda hegemônica, a saber:
1) Nas áreas econômica, financeira e monetária, observa-se um patente fracasso da política estabelecida há um ano pelo Sistema da Reserva Federal, ao tentar ocultar as injeções maciças de liquidez no sistema financeiro deixando de divulgar a evolução do índice monetário M-3 (que inclui depósitos à vista, moeda em poder do público, títulos em poder do público e depósitos em poupança). O objetivo era substituir a bolha imobiliária estadunidense, em situação crítica, por uma bolha financeira e bursátil, em uma tentativa de manter o crescimento - e a conseqüente atratividade - dos EUA. Com isto, segundo a análise, a Reserva Federal estaria experimentando uma histórica perda de controle sobre as taxas de juros, pela primeira vez desde 1918, com exceção dos períodos de guerras e depressão socioeconômica.
2) Nas áreas militar, estratégica e diplomática, o plano de estabilização do Iraque se mostra disfuncional, em meio à crescente paralisia política de Washington.
O relatório aponta as seguintes evidências do aprofundamento da crise sistêmica:
- a economia dos EUA está mergulhando numa recessão;
- o mercado de títulos está em crise;
- a crise do mercado imobiliário subprime começa a atingir grandes instituições financeiras dos EUA, como a Bear Stearns, Goldman Sachs e Freddie Mac;
- a crise imobiliária como um todo se acelera;
- aumenta a paralisia política de Washington, assim como o isolamento dos EUA na arena internacional;
- o plano de estabilização do Iraque é um fracasso completo e os EUA se mostram impotentes diante do Irã;
- aumentam as tensões comerciais EUA-China;
- um número crescente de países (Kuwait, Síria e outros) abandonam o dólar como moeda de referência.
Para os analistas europeus, o fracasso simultâneo da Reserva Federal e da Casa Branca/Pentágono poderá produzir um impacto direto na reciclagem de dólares entre os EUA e a China (atualmente, o principal motor da "globalização" financeira), abalando os dois países e lançando os EUA numa "estagflação".
Atualmente, adverte o relatório, a Reserva Federal pretende transmitir a idéia de que a economia dos EUA voltará a crescer nos próximos meses, desprezando como acidental o colapso do crescimento no primeiro trimestre (apenas 0,6%) e prognosticando um índice na faixa de 2,5-3% para 2007 (algumas análises independentes já apontam um índice da ordem de 0,5% em 2008).
Não obstante, esse otimismo oficial é contrariado pela maioria dos indicadores objetivos (desempenho das empresas, níveis de emprego etc.), ainda que pareça ser corroborado por outros indicadores devidamente manipulados pelo governo ou por indicadores subjetivos que refletem, por exemplo, o impacto das declarações oficiais na opinião pública.
Por outro lado, a tentativa da Reserva Federal de Ben Bernanke de substituir a bolha imobiliária por uma bolha financeira/bursátil, seguindo o exemplo de seu antecessor Alan Greenspan com a substituição da bolha da Internet pela imobiliária, se mostrou inócua. O resultado das injeções de liquidez mascaradas pela ocultação do índice M-3 tem sido o aumento da inflação nos EUA e a fuga dos investidores para longe do dólar e dos ativos denominados em dólares. Assim como as tropas estadunidenses estão atoladas em um conflito interminável no Iraque, o consumidor estadunidense (de quem depende fundamentalmente a manutenção da corrente financeira) está exaurido e insolvente, como se mostra na estreita correlação inversa entre as vendas no varejo e o rápido crescimento dos níveis de inadimplência dos consumidores, adverte o relatório.
Como resultado, a Reserva Federal experimentará em breve o pior pesadelo de um banco central: a "estagflação" ou, mais precisamente, "recessflação". A crise que agita os mercados financeiros, com a curva "natural" das taxas de juros sendo restaurada e as taxas de longo prazo situando-se acima das de curto prazo, mostra claramente que os títulos da dívida e do Tesouro estadunidenses já não conseguem encontrar interessados.
Se os juros dos T-Bonds aumentam, não é por receios inflacionários, mas porque ninguém parece querer mais comprá-los. De fato, os investidores estrangeiros, que compraram apenas 11% da última oferta de títulos, são os que determinam agora as taxas, com a Reserva Federal podendo apenas seguir a tendência dos juros internacionais de longo prazo. Ao mesmo tempo, a Reserva terá que aumentar a sua recompra de títulos de dívida, inclusive, operando por meio de intermediários como os grandes bancos de investimentos.
A novidade da situação é que a Reserva Federal está perdendo o seu último instrumento de ação: agora, o resto do mundo está virtualmente determinando as taxas de juros estadunidenses. Simultaneamente, a incerteza sistêmica está de volta aos mercados financeiros. Os investidores já compreenderam que, a médio e longo prazos, não há quaisquer garantias sobre as tendências globais. Esta situação ressalta o fato de que o futuro econômico e financeiro dos EUA está sendo determinado fora do país, o que ocorre pela primeira vez desde o fim da I Guerra Mundial e sugere que a ordem mundial pós-1945 está chegando ao fim.
Esse cenário cria uma situação nova, a qual modifica radicalmente a percepção generalizada do futuro e afeta profundamente as tendências dominantes para o início da fase de impacto da crise sistêmica global (como a capacidade de ação dos EUA, em termos militares e diplomáticos), ao mesmo tempo em que reforça significativamente outras tendências, como o impacto simultâneo sobre os EUA e a China.
O relatório do LEAP antecipa as seguintes tendências para o segundo semestre do ano:
1) Finanças: fuga dos títulos do Tesouro dos EUA, ação mais afirmativa dos fundos de riqueza soberanos (ver Resenha Estratégica, 13/06/2007), perda de controle da Reserva Federal sobre as taxas de juros estadunidenses e retorno da volatilidade dos mercados.
2) Economia dos EUA: emergência do "PIB fantasma" inventado pelas estatísticas, agravamento da crise imobiliária e aumento do desemprego real; evidências da "Depressão Muito Grande de 2007".
3) Comércio internacional: desdobramentos da recessão estadunidense no eixo EUA-China - acirramento de conflitos comerciais e crise financeira chinesa.
4) Eurolândia: eurozona em crise devido à bolha imobiliária na Espanha e bolhas especulativas com moedas no Leste Europeu.
As criteriosas análises do LEAP/E2020 convergem com as produzidas por um número crescente de observadores do cenário global, antevendo para o futuro imediato fortíssimas turbulências que poderão se revelar fatais para a presente ordem de poder mundial. Entretanto, o grande fator ausente desses prognósticos é uma proposta consistente para a imprescindível reformulação do sistema financeiro internacional e uma inadiável reconstrução da economia mundial, que recoloque todo o planeta em um processo de progresso real e compartilhado, algo como um "New Deal global".



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