Guerras de sobrevivência e recursos na agenda
(21.03.2006) Desde a 42a. Conferência de Munique sobre Políticas de Segurança, no início de fevereiro, ficou evidenciado que certos círculos hegemônicos do Hemisfério Norte estão trabalhando com o cenário de futuros conflitos causados por problemas climáticos, migrações forçadas e disputas por recursos naturais. Um dos principais divulgadores do conceito, que já está sendo chamado "guerras de sobrevivência" ou "guerras de recursos", é o secretário de Defesa britânico John Reid, que o apresentou em Munique.
Em 27 de fevereiro, Reid foi o principal conferencista no seminário Parcerias de Defesa Transatlânticas - Administrando Divergências, promovido pela Chatham House, o mais tradicional e influente think-tank do Establishment britânico. Na ocasião, ele voltou a enfatizar a mensagem de que, nas décadas vindouras, a escassez de energia e as conseqüências de mudanças climáticas, como deficiências de recursos hídricos, poderão tornar-se grandes fontes de conflitos globais, juntamente com o terrorismo internacional. Por isso, afirmou, as Forças Armadas britânicas precisam se preparar para lidar com tais conflitos por recursos minguantes.
Segundo ele, as mudanças climáticas já estariam influenciando conflitos na África, como na região de Darfur, Sudão. "Atualmente, mais de 300 milhões de pessoas não têm acesso à água limpa, e as mudanças climáticas irão piorar essa situação sombria", afirmou.
As considerações de Reid foram secundadas por vários altos oficiais da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), presentes ao evento, alguns dos quais observaram que as mudanças climáticas representam uma crescente ameaça à segurança internacional.
Não por acaso, em paralelo com a difusão dessas idéias, a ampliação da área de atuação da OTAN também está em estudos, no quadro do que está sendo chamado a "globalização" da organização atlântica.
Em um artigo publcado no sítio TomPaine.com, em 7 de março, um dos principais especialistas no assunto, Michael T. Klare, professor de Estudos sobre a Paz e Segurança Mundial no Hampshire College (EUA), comentou a palestra de Reid. Segundo ele, o discurso "é apenas a mais recente expressão de uma crescente tendência que se verifica nos círculos estratégicos, de ver os efeitos ambientais e de recursos naturais, em lugar da orientação política e ideológica, como a mais potente fonte de conflitos armados nas próximas décadas. Com a população mundial crescendo, as taxas de consumo global disparando, suprimentos energéticos desaparecendo rapidamente e as mudanças climáticas afetando terras agricultáveis aproveitáveis, está sendo armado o palco para lutas persistentes e de âmbito mundial por recursos vitais. Neste cenário, as lutas religiosas e políticas não irão desaparecer, mas, em vez disto, serão canalizadas para disputas por fontes de água, alimentos e energia".
Klare é autor de duas obras de referência sobre o assunto: Resource Wars: The New Landscape of Global Conflict (Guerras por recursos: a nova paisagem dos conflitos globais; Owl Books, 2002) e Blood and Oil: The Dangers and Consequences of America's Growing Dependency on Imported Petroleum (Sangue e petróleo: os perigos e conseqüências da crescente dependência estadunidense do petróleo importado; Metropolitan Books, 2004).
Para os países subdesenvolvidos e ricos em recursos naturais, a mensagem não pode ser mais clara. No momento, vários desses países encontrarm-se às voltas com o que estrategistas estadunidenses chamam "guerras de quarta geração", que contrapõem Estados nacionais contra antagonistas não-estatais, como ONGs que obstaculizam iniciativas de desenvolvimento e contribuem para "esterilizar" vastas áreas geográficas - e seus respectivos recursos naturais. Porém, caso se concretizem os cenários de pesadelo das "guerras de sobrevivência", não seria exagero imaginar que tais conflitos poderão passar a envolver intervenções militares clássicas.



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