Londres, 7 de julho: a quem interessa?
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Em artigo anterior, afirmamos que o visível esvaziamento da estratégia hegemônica dos "neoconservadores" de Washington e seus aliados, baseada na minguante capacidade militar e econômico-financeira dos EUA, somado à maré montante de denúncias de conduta fraudulenta contra o primeiro-ministro Tony Blair e o presidente George W. Bush, deixava-lhes como única alternativa a de manter o rumo escolhido, à espera de que algum acontecimento como um "novo 11 de setembro" voltasse a justificar a sua opção perante a opinião pública. Como vem sendo uma constante desde os ataques em Nova York e Washington, há quase quatro anos, o "terrorismo internacional" mostrou mais uma vez o seu intrigante senso de oportunidade com os ataques em Londres, na manhã da quinta-feira 7, espalhando morte e comoção mundial em um momento em que a opinião pública e importantes setores políticos e militares, nos dois lados do Atlântico, começam a questionar seriamente a validade das aventuras belicistas no Afeganistão e no Iraque. Ao mesmo tempo, os ataques contribuem para renovar um quadro de tensões semipermanentes, no contexto de um pretendido "choque de civilizações", que alguns vêem como um substituto da antiga Guerra Fria. Nos EUA, uma recente pesquisa do Instituto Gallup mostrou que os índices de rejeição do conflito no Iraque já se equiparam aos verificados por ocasião do ponto de inflexão da opinião pública quanto à Guerra do Vietnã, no verão de 1968. Igualmente, em 5 de julho, o New York Times revelou que o desgaste provocado pelos conflitos no Afeganistão e no Iraque está levando altos planejadores do Pentágono a questionar seriamente a atual orientação estratégica das Forças Armadas estadunidenses, projetadas para travar duas grandes guerras simultaneamente. Em lugar disso, está sendo considerada uma nova orientação, que inclui apenas uma única campanha convencional e mais recursos para a defesa do território nacional e campanhas contra o terrorismo. Em Londres, o Ministério da Defesa anunciou a existência de planos para uma significativa retirada de seus efetivos do Iraque nos próximos 18 meses. Segundo o Financial Times de 4 de julho, os planos prevêem uma redução escalonada dos atuais 8.500 homens, número que cairia para cerca de 4.000-5.000 até abril de 2006, e no máximo mil até o primeiro trimestre de 2007, quando permaneceriam no país apenas instrutores e assessores para atuar no treinamento das forças de segurança iraquianas. Ademais, tanto Bush como Blair estão às voltas com sérios problemas de credibilidade decorrentes dos desdobramentos das revelações sobre a sua conduta fraudulenta no período pré-invasão, inclusive o já célebre "memorando de Downing Street". O primeiro-ministro, reeleito com o apoio de pouco mais de um terço do eleitorado britânico, encontra-se mais enfraquecido do que nunca. Para Bush, o chamado escândalo "Plamegate" se torna cada vez mais incômodo. Na edição desta semana, a revista Newsweek confirma que o principal assessor político da Casa Branca, o notório Karl Rove, foi o responsável pelo vazamento da identidade da agente da CIA Valerie Plame, o que constitui um crime federal. A ação de Rove foi uma represália contra o ex-embaixador Joseph Wilson, marido de Plame, por ter revelado a fraude da suposta compra de urânio por Saddam Hussein, no Níger, um dos pretextos manipulados por Bush na campanha de demonização do Iraque no período pré-invasão. Logo em seguida aos ataques, eminentes próceres do aparato "neoconservador" não perderam tempo em apontá-los como eventos da "guerra mundial contra o terror", como enfatizou o próprio Bush, no sábado 9, após o seu retorno da cúpula do G-8 em Edimburgo. Durante uma visita à embaixada britânica, para assinar o livro de condolências, ele considerou os ataques em Londres como um lembrete de 11 de setembro e repetiu o chavão de que "permaneceremos na ofensiva, combatendo os terroristas no exterior para que não tenhamos que combatê-los em casa". Aproveitando a diferença de fusos horários, o presidente do Center for Security Policy de Washington, Frank Gaffney Jr., apressou-se em colocar no sítio da revista The Nation um artigo de 911 palavras, significativamente intitulado "O ataque em Londres é um forte lembrete do que devemos fazer para prevalecer". Antes mesmo que qualquer autoridade policial britânica tenha se manifestado sobre a autoria dos ataques, Gaffney não se melindrou em apontar para "a ideologia que está no coração da guerra ao terror: o islamofascismo". Para ele, "a determinação de nossos inimigos de destruir quantos de nós forem possíveis permanece uma ameaça a todas as sociedades democráticas ocidentais. A noção de que o Mundo Livre (sic) poderá se desengajar com segurança dessa guerra ou de qualquer de suas frentes - inclusive o Iraque - deve ser posta de lado, juntamente com o injustificado senso de segurança nascido da ausência de ataques mortais pós-11 de setembro, em território doméstico". Para que as autoridades possam combater tais ameaças, diz ele, "o governo dos EUA deve fazer um esforço redobrado para alistar e dar poderes ao povo estadunidense, nesse e em outros aspectos do esforço de guerra, apesar dos protestos a serem esperados de ativistas antiguerra e de liberdades civis". Além disso, enfatiza, sera preciso que as políticas de governo priorizem a guerra contra os terroristas. Para ele, embora iniciativas como o alívio de dívidas e ajuda à África sejam louváveis, "a realidade é que o foco em itens da agenda que não estejam relacionados a travar e vencer essa guerra é uma distração que não podemos permitir no momento. O fato de que o islamofascismo está avançando na África Subsaariana pede a elaboração de estratégias para confrontar essa ameaça." Gaffney conclui afirmando que "a Grã-Bretanha não foi a única nação atacada hoje. É claro que ela suportou o impacto, mas foi o mundo ocidental - do qual o Reino Unido é uma parte crítica - que mostrou mais uma vez estar na mira dos terroristas". Igualmente rápido no gatilho foi o ex-chefe do Mossad israelense, Efraim Halevi, com seu artigo "Regras de conflito para uma guerra mundial", publicado no Jerusalem Post do mesmo dia 7 (o jornal é uma notória frente dos neocons, tendo entre os seus diretores o ex-presidente do Conselho de Política do Pentágono, Richard Perle): "Estamos nas dores do parto de uma guerra mundial, que abrange todo o globo e se caracteriza pela ausência de linhas de conflito e um inimigo facilmente identificável. Às vezes, há longas pausas entre um ataque e outro, criando, conseqüentemente, a impressão errada de que a batalha está decidida ou, pelo menos, a ponto de ser vencida." Segundo ele, "haverá testes supremos de liderança nessa situação única e o povo terá que confiar na sabedoria e bom julgamento daqueles escolhidos para governá-los (sic)". Além disso, diz, "as regras de combate devem ser ajustadas rapidamente para atender as necessidades dessa situação nova e inusitada, e o direito internacional deve ser reescrito de forma a permitir que a civilização se defenda. Qualquer coisa fora disso estará convidando ao desastre e não deve ser permitida ocorrer". O objetivo do inimigo, afirma, "não é derrotar a civilização ocidental, mas destruir as suas fontes de poder e existência, e transformá-la numa relíquia do passado. Ele não busca uma vitória territorial ou uma mudança de regime; ele quer transformar em história a civilização ocidental e não irá se deter com menos do que isso". Para Halevi, é preciso que "cada um e todos os países se declarem, efetivamente, em guerra com o terror islâmico internacional e recrutem as suas populações para se envolver ativamente na batalha, sob a direção dos poderes legais que contam". Para isso, "profundas mudanças culturais terão que ocorrer e o modo de vida democrático será duramente pressionado para produzir soluções que permitirão aos poderes executivos desempenhar os seus deveres e, ao mesmo tempo, preservar os pilares básicos do nosso modo de vida democrático". Halevi conclui, sombrio: "Essa guerra já é uma das mais longas dos tempos modernos; do jeito como os fatos aparentam, agora, ela está destinada a ser parte das nossas vidas cotidianas por anos a fio, até que o inimigo seja eliminado, como, certamente, será." Por outro lado, o mundo islâmico em peso condenou os ataques, aí incluídos os governos da Síria, Irã, Líbano, Arábia Saudita e outros países, e até mesmo grupos como o Hamas e o Hisbolá. Em Londres, onde ocorreram várias cerimônias ecumênicas de pesar pelas vítimas dos ataques, o presidente do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha, sir Iqbal Sacranie, foi categórico: "Sejamos absolutamente claros: aqueles que planejaram e efetuaram esses ataques impiedosos - sejam quem forem e seja qual for a fé que afirmam professar -, certamente, são inimigos de todos nós, muçulmanos e não-muçulmanos." Sir Sacranie também condenou duramente "as declarações ofensivas de politicos de outros países procurando demonizar os muçulmanos britânicos". Ademais, como informa em seu sítio o bem informado jornalista investigativo Wayne Madsen, ex-agente da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA, comunicações de grupos islâmicos britânicos e estrangeiros, monitorados pelo MI-5 e o GCHQ, revelaram uma generalizada surpresa genuína com os ataques. Nova York, Washington, Bali, Madri, Londres - quem teria mais a ganhar com esses ataques, meros terroristas ou elementos interessados em perenizar uma estratégia de tensões no contexto de um "choque de civilizações"? |



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